Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
***

“As interações universidade-indústria-governo, que formam uma “hélice tríplice” de inovação e empreendedorismo, são a chave para o crescimento econômico e o desenvolvimento social baseados no conhecimento.” (Henry Etzkowitz e Chunyan Zhou)

O estudo “Pesquisa no Brasil – Um relatório contratado pela   CAPES”, realizado pela empresa norte-americana Clarivate Analytics, mostra que 99 % da produção científica brasileira é feita quase exclusivamente pelas universidades públicas. Entre 2011 e 2016 foram produzidos mais de 250 mil trabalhos na forma de ensaios, artigos ou dissertações publicadas em periódicos especializados ou nos anais de congressos.

Para o setor particular, a grande dificuldade é como sustentar uma pesquisa, pois na realidade ela é desejada pelos estudantes, ansiosos de colocar em prática seus conhecimentos.

O 18ª CONIC – Congresso Nacional de Iniciação Cientifica –, realizado nos dias 30/11 e 1/ 12 deste ano, é uma prova do interesse. O evento envolveu a participação de 3.700 universitários, e 1.998 trabalhos foram selecionados para concorrer nas diferentes áreas do conhecimento.

Vivemos a era da informação e do conhecimento, e as tendências indicam que a vida no século XXI será pautada pelo aprendizado contínuo, pela criatividade, pela inovação e pelo empreendedorismo em todas as áreas e dimensões da vida humana, individual e coletiva. E a principal dificuldade que a universidade possui para colocar em prática o que seu aluno aprendeu é como dar sustentabilidade à pesquisa.

Com base nisso, achei interessante o modelo da Tríplice Hélice – uma solução criativa para dar sustentabilidade à pesquisa, que nunca foi experimentado no Brasil.

O mundo acadêmico está na era da universidade empreendedora. A proposta, concebida nos anos 90 por Henry Etzkowitz[1] e Loet Leydesdorff[2], une governo, empresas e universidades com o propósito de inovarem e criarem juntos novos produtos e serviços, visando o desenvolvimento.

Segundo o conceito da hélice tríplice, a interação de universidade, indústria e governo, voltada à inovação e ao empreendedorismo, é a chave para o crescimento econômico e o desenvolvimento social. Nesse modelo, a indústria continua a ser protagonista no âmbito da produção, o governo é a fonte das relações contratuais e a universidade provê o mais valioso no processo de inovação: a mão de obra. A universidade empreendedora, nesse sentido, retém os papeis acadêmicos tradicionais de reprodução social e extensão do conhecimento certificado, mas os coloca num contexto mais amplo, como fazendo parte do seu novo papel na promoção da inovação.

Ou seja, Estado, Universidade e Empresa convergem esforços para a criação de uma cultura que estimula o empreendedorismo e a inovação, incrementando a competitividade empresarial, novas pesquisas, autonomia tecnológica e, consequentemente, desenvolvimento socioeconômico do país.

Como o conhecimento se transforma cada vez mais em importante parte da inovação, a universidade, como produtora e disseminadora do conhecimento é a instituição que tem um papel importante na inovação industrial. No entanto, esse modelo consegue alavancar o processo de inovação uma vez que, sem papéis fixos, os atores são mais criativos, originais e colaborativos.

Governo e indústria são os elementos clássicos das parcerias público-privadas e, agora, com a tese da hélice tripla, a universidade está deixando de ter um papel social secundário, ainda que importante, de prover ensino superior e pesquisa, e está assumindo um papel primordial equivalente ao da indústria e do governo, como geradora de novas indústrias e empresas.

Para isso, a universidade tem de encarar o desafio de estruturar modelos pedagógicos inovadores, que transcendam a tradicional transmissão do conhecimento e habilitem o estudante a continuar aprendendo ao longo da vida; a permanecer receptivo a mudanças; a atuar em um contexto globalizado; a equacionar problemas complexos; a ser empreendedor e a atuar com responsabilidade social.

A universidade ainda deve, além de efetuar uma profunda reforma curricular de modo a viabilizar a empregabilidade dos seus egressos em uma economia globalizada, intensiva em conhecimento e imersa em um ambiente de mudança acelerada, tornar-se universal e assegurar a formação superior à maioria da população ao longo de toda a sua vida e contribuir, de modo significativo, para o desenvolvimento regional socialmente responsável.

Se não acrescentar aos seus atributos cultivados ao longo dos anos o de atuar como um empreendimento de prestação de serviços quanto à formação de profissionais, geração de conhecimento e transformação de tudo isso em inovações em todos os domínios, em prol do desenvolvimento socialmente responsável, a universidade não terá cumprido seu papel nessa hélice tripla. Mas, ao fazê-lo, estará viabilizando a única forma de dar sustentabilidade e fazendo Pesquisa.

__________________________________________

[1] Henry Etzkowitz é professor visitante na escola de negócios da Universidade de Edinburgo, Reino Unido, e conselheiro-geral do Instituto Internacional de Tripla Hélice (IITH), da Universidade LaSalle, Madrid, Espanha.

[2] Loet Leydesdorff é um sociólogo holandês, cibernético e professor na Dinâmica de Comunicação Científica e Inovação Tecnológica da Universidade de Amsterdã.

Avaliar

2 Respostas para “Universidade, empresa e governo – uma estratégia para inovação e desenvolvimento”

  • Tenho escrito bastante sobre a teoria da Tríplice Hélice inclusive nesse Blog. Nós, gestores da iniciativa privada ficamos apenas na especulação das ideias. Em 2018 Henry Etzkowitz esteve aqui em São Paulo e palestrou durante um dia inteiro em evento gratuito para pouquíssimas pessoas. Não havia um único gestor de Instituição Privada. Foi o meu teórico de pesquisa no mestrado. Fica adica!
    http://www.iea.usp.br/pessoas/pasta-pessoah/henry-etzkowitz

     
  • Amigo Gabriel,
    Como já conversamos muitos anos atrás, eu iria mais longe. Hoje a obrigação da universidade é preparar seu aluno para a trabalhabilidade, que vai muito além da empregabilidade.
    O tripé vai mudar muito do lado das empresas e os empregos serão inéditos, nem foram criados, portanto, cada aluno hoje precisa saber avaliar em que ele é bom e saber transformar estas competências em trabalho seja ele de que forma for.
    Sugestão: escreva sobre a trabalhabilidade, ideia que você já defende há muito tempo. Parabéns por compartilhar suas ideias.

     

Deixe uma resposta

Números do Ensino Superior
Categorias
Autores
Arquivos
Visitantes
wordpress analytics