Alessandra Duarte e Carolina Benevides
O Globo – 11/07/2010
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Governo amplia rede de universidades, mas UFRJ, a mais antiga, sofre com falta de manutenção, insegurança e expansão desordenada

Prestes a deixar o governo, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva diz ter criado mais universidades federais que qualquer outro presidente. Mas oito das 13 que afirma ter feito, na verdade, já existiam e foram ampliadas ou federalizadas. Enquanto isso, porém, a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a primeira do Brasil, sofre com a falta de estrutura e a expansão desordenada, o que compromete a qualidade dos cursos. Na medicina, turmas com até cem alunos têm aulas de anatomia em só duas peças de cadáver. Na arquitetura, as pranchetas usadas são obsoletas, reclamam os alunos. Na comunicação, das 12 câmeras fotográficas, seis estão quebradas.

Há problemas graves ainda no alojamento e no Hospital Clementino Fraga Filho, usado como hospital escola.

Nos dois últimos anos, 22 novos cursos de graduação foram criados na UFRJ. A meta é que até 2020 o número de alunos mais que duplique e saia dos 41.007 de 2008 para 88.530. Porém, na contramão dessa corrida pelo ensino superior – um dos temas-chave da eleição presidencial deste ano, já que a falta de mão de obra qualificada é um dos gargalos do desenvolvimento do país -, o investimento público direto em educação por estudante na educação superior, segundo o Ministério da Educação (MEC), caiu de R$ 15.341 em 2000 para R$ 14.763 em 2008.

Além disso, apesar de o orçamento do Ministério da Educação ter aumentado em valores absolutos nos últimos anos – de R$ 16,5 bilhões em 2003 para R$ 36 bilhões em 2009 -, o percentual do orçamento do MEC em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) teve ligeira queda, segundo estudo da Associação dos Docentes da UFRJ (Adufrj) com dados do Senado e do IBGE: de 1,1% do PIB em 2003 para 1,04% em 2009.

– O orçamento do MEC, em termos absolutos, cresceu porque o PIB cresceu, e não porque tenha havido aumento da parcela do orçamento federal – diz Luis Eduardo Acosta, presidente da Adufrj.

O MEC contesta esses percentuais, sem dizer, porém, quais seriam os corretos: o orçamento informado pelo ministério soma o orçamento da pasta com verba do Financiamento Estudantil (Fies, da Caixa) e do salário-educação.

Ao todo, desde 2003, o país ganhou 117 campus e o número de vagas foi de 109,2 mil para 222,4 mil em 2010.

Porém, a relação da função “educação superior” no orçamento federal em relação ao PIB também não cresceu: de cerca de 0,46% em 2003, foi para 0,4% em 2008, diz o estudo.

“São anos de abandono”

A criação de novas universidades pelo governo faz parte do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (Reuni), programa de ampliação do ensino superior que inclui também a expansão de universidades já existentes. Para participar, as universidades pactuam metas de aumento de número de vagas, algumas vezes sem condições de cumpri-las.

Da primeira turma de Relações Internacionais, Tomaz Soares fez vestibular achando que teria aulas no campus da Praia Vermelha, Zona Sul do Rio. Dias antes do início do período, descobriu que as aulas seriam numa sala do Centro de Ciências da Saúde, no Fundão. No começo deste ano, começou a ter aulas no Centro.

– Esperava uma faculdade de excelência, mas parece que a UFRJ vive mais de nome – diz Tomaz.

Para Pablo César Benetti, presidente da Comissão do Plano Diretor da UFRJ, que gerencia a execução das metas da universidade no Reuni, não oferecer um curso por gargalos de infraestrutura “é burrice”:

– Os alunos terem aula no Fundão não é problema. Eles podem consultar bibliotecas na Praia Vermelha e no Centro. A universidade não é uma unidade isolada. Querer uma sala mostra mentalidade tacanha.

Segundo Benetti, a UFRJ recebeu, para o biênio 2009-2010, R$ 117 milhões para investir em obras e equipamentos, incluindo laboratórios didáticos de informática, compra de veículos para ronda e mobiliário: – Nunca tivemos tanto dinheiro.

Para Claudio Antonio Tonegutti, do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes), as universidades não querem abrir mão do dinheiro e das vagas de concurso do Reuni, e por isso dizem que cumprirão metas não factíveis:

– As metas têm de ser cumpridas de 2008 a 2011, é uma expansão rápida demais para estruturas já tão complicadas.

Reuni à parte, a UFRJ continua com problemas antigos, como a insegurança no Fundão, que, em 2009, teve 30 casos registrados de furto, 11 de roubo, um estupro e dois seqüestros relâmpago. Com a mesma extensão de Ipanema e Leblon, o campus conta só com quatro carros da PM – Ipanema e Leblon têm cem PMs em seu entorno -, além de seis veículos e de 70 vigilantes da universidade.

Na tarde da última terça-feira, no subsolo do Centro de Ciências da Saúde, não havia vigilantes. Foi no subsolo onde, em 2009, uma professora e alunas de nutrição foram assaltadas por um homem armado.

– Os corredores são isolados. Depois das 17h nem gosto de andar muito por aqui – diz Alessandra Siqueira, do 5operíodo de nutrição.

Outro problema de infraestrutura no Fundão é o alojamento de estudantes, hoje com 500 vagas. Prefeito da UFRJ, Hélio de Mattos reconhece os problemas: – São anos de abandono. O prédio está condenado.

O prédio do Hospital do Fundão também não está muito melhor: no fim de junho, uma ala foi interditada devido a um abalo em dois pilares.

Parte das enfermarias do 8º ao 11º andar está sem funcionar até hoje.

– Temos um hospital enorme e leitos vazios. Nas aulas, muitas vezes 30 alunos ficam ao redor de um só paciente – conta Ricardo Rebelo, do 5operíodo de medicina.

– Não espero ver o anexo da Central de Produção Multimídia pronto antes de me formar – diz Kenzo Soares, aluno do 3º período de comunicação.

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