Print Friendly, PDF & Email

Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
***

“Não roubar, não deixar roubar, pôr na cadeia quem rouba. Eis o primeiro mandamento da moral pública.”
(Ulysses Guimarães)

Por mais otimistas que sejamos, não resta dúvida alguma de que estamos com problemas. E não são pequenos. A avalanche alcança todos os setores vivos da nação: atinge o governo, o legislativo, o judiciário, a sociedade, os negócios, as empresas, os trabalhadores e o estado.

Estamos do avesso com o quadro estarrecedor que ora vivemos, com todas as mazelas sociais, políticas, sindicais, as falcatruas em frigoríficos, fraudes em licitações, greves, etc., etc. E não há um basta nisso. A roleta da desordem continua girando com a aposta da impunidade a todo vigor.

Sem querer, estamos sendo empurrados tobogã abaixo. Fomos projetados para fora do carrinho da montanha russa e o tombo é grande. Repetindo Renato Russo, “que país é esse?”.

Entre idas e vindas, marchas e contramarchas, não só dentre as inteligências nacionais, à quase unanimidade, os brasileiros estão muito insatisfeitos e intranquilos, achando que estamos numa encrenca muito grande.

E a situação é agravada pelas más notícias, não mentirosas nem falsas, mas que atrapalham a compreensão dos fatos para o entendimento da situação ora vivida. Há mídia otimista, mas também, na maior dose, a pessimista. As notícias parecem se desencontrar de um dia para outro. Parece um Deus nos acuda, e por aí vai…

Diuturnamente, nos voltamos ao concreto. Os jornais, a TV, as revistas estampam o nosso dia a dia que começa com o sentimento de indignação com os depoimentos dos Odebrecht da vida. Para Artur Xexéo, em sua coluna de domingo, 23, no jornal O Globo (Não vai aparecer um único honesto?), “o primeiro sentimento foi a indignação. A cada confissão registrada em vídeo e exibida no horário nobre da televisão dos proprietários e dos principais executivos de uma das maiores empreiteiras do país, a gente ficava chocada com a cara de pau de políticos e empreiteiros. As pessoas comentavam, indignadas, a naturalidade com que a corrupção era descrita. Em seguida, bateu uma depressão.”

Fernando Gabeira também abordou o assunto no O Globo, em seu artigo “Depois da tempestade”: no turbilhão de um tsunami, “o que foi arrasado, agora, não é um pedaço de terra, mas um sistema político eleitoral. E não há presidente para ajudar, pois está agarrado aos escombros para não ser levado pela enxurrada. De qualquer forma, com ou sem ajuda, o problema que se coloca é sempre esse: como reconstruir. Apesar de figurar no topo da lista de países dominados pela corrupção, o Brasil tem condições de superar esse estágio, a partir da vontade de boa parte de seu povo.”

No sábado, 22, reaparece na mídia o nosso conhecido pensador italiano Domenico de Mais, a quem já me referi em outros momentos. Desta feita, foi abordado por Leonardo Cazes, no jornal O Globo (Domenico de Mais apresenta seu alfabeto para uma sociedade desorientada), e, como sempre, oferecendo um pensamento realista do que a humanidade passa no presente. Deixa claro que as turbulências que atravessamos não são exclusividade nossa. O mundo todo passa por problemas e diz o sociólogo que os nossos não são grandes como os vemos e que o país é um dos poucos que vai emergir sem, contudo, ter sido submerso. É categórico ao afirmar que a “sociedade está desorientada” e que isso fragiliza os sistemas colocando-nos sob ameaça dos diferentes autoritarismos. Mas, salienta que ainda não é o caso de sairmos contratando um bom ditador, com ou sem vínculo empregatício.

De Masi explora com exatidão os cenários históricos dizendo que nossa sociedade pós-industrial atual não é baseada em nenhum modelo teórico compartilhado. Portanto, é isso que nos desorienta, sem saber como distinguir a verdade da mentira, o bem do mal, a beleza da feiura.

Diferentemente, as sociedades antigas, desde o tempo dos gregos e romanos até a Idade Média, do Renascimento à sociedade industrial, nasceram tendo como base um modelo teórico desenvolvido por filósofos e concretizado por militares, religiosos ou políticos. O futuro depende de sua capacidade de selecionar uma classe dirigente honesta, criativa, e profissionalmente preparada.

“Vota certo, Brasil”, um programa que acreditamos que a ABMES possa encampar, foi pensado dentro do princípio de que com boa educação política o jovem poderia ter uma formação que lhe possibilite votar melhor. E, consequentemente, com políticos mais responsáveis, o país poderia transformar-se.

Mas não adianta ter uma juventude politizada e não termos uma legislação eleitoral e sistema representativo consentâneos com a modernidade. Onde a escolha de um candidato esteja apoiada num processo que não seja viciado, como o atual. O que enseja uma segunda medida que deve ser concomitante, como preparar um bom sistema de representação política para o país.

Por outro lado, tudo continua. A TV anuncia que a venda dos bilhetes para o “Rock in Rio” foi um sucesso, com 700 mil ingressos vendidos. Nestes três fins de semana aferiadados, as estradas para o litoral estavam todas repletas de automóveis e a vida caminha com cada um pensando individualmente em suas realidades vivenciais.

Deve haver, portanto, uma reflexão sobre questões que antecedem a tudo: O que a sociedade quer de fato para o país? Ela crê numa transformação possível? Acredita em alguma solução viável? Como estão as nossas lideranças? Como estimula-las a assumirem o protagonismo? Seria papel das nossas escolas formar líderes? Quem tem as respostas certas e em quantas gerações isto acontecerá?

No campo educacional, temos que refletir ainda se universidade tem de se preocupar com isto. Seu foco exclusivo deve ser oferecer um bom ensino? A administração superior, os professores, funcionários têm tempo para dedicarem-se à política? É dado aos estudantes condição de pensar nisso? Seus pais e familiares estão preocupados com o destino do país? O que é necessário planejar para transforma-lo numa nação onde todos vivam bem dentro dos objetivos de desenvolvimento e bem-estar?

Para tudo isso acontecer, será preciso ter gente bem-intencionada, séria, operante e proativa. Mas o que todos pensam sobre a realidade atual? O que pensa a sociedade sobre o cenário de malfeitos à sua frente?

Não temos as respostas certas para todas estas interrogações. Refletindo melhor e saindo do campo das utopias, vamos conhecer primeiro como pensam todos as categorias acima mencionadas sobre as questões assinaladas. E sabemos que as redes socais podem, pelo seu poder de capilaridade, dar resposta, se é melhor deixar tudo como está ou colaborar de alguma maneira para criar condições para um Brasil melhor.

O que não podemos é ficar parados. É importante ao menos é colocar o tema em discussão e conhecer como todos pensam e o que desejam. Afinal, não adianta criar sonhos se ninguém acredita neles.

Avaliar

Deixe uma resposta

Números do Ensino Superior
Categorias
Autores
Arquivos
Visitantes
wordpress analytics