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Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Daqui a 15 anos metade das universidades norte americanas poderá ir à falência. mesmo que a maioria permaneça solvente, é fácil imaginar matriculas radicalmente declinantes e receitas associadas a volumosas demissões tanto de gestores como a corpo docente.” (Prof. Clayton Christensen da Harvard Business School)

Dando voltas e mais voltas, acabo chegando ao mesmo lugar quando me refiro ao que a sociedade brasileira está passando em razão do inconformismo diante de tudo que parece estar do avesso às boas práticas éticas, a partir daí quero me socorrer de releituras e artigos para conhecer melhor o perfil do brasileiro. Com isso, apelo aos antropólogos e sociólogos de plantão para que atualizem conceitos e teses que expliquem a balbúrdia estabelecida nos cenários nacionais, contemporâneos, em todas as áreas. Por exemplo, o que está acontecendo com a juventude, com a família, com a religião, com a economia, com a política, com cultura, com a violência, com a corrupção nata dos órgãos públicos, etc.

Mesmo assim, há milhares de exemplos que nos motivam a acreditar no povo brasileiro. Vejam as boas notícias da mídia:

 Diretor transforma escola estadual na Zona Sul de SP e pais encaram fila de 7 dias para conseguir transferir seus filhos O projeto pedagógico do Diretor Wagner Neves é motivador “O meu diferencial e que sou apaixonado por isso, sem demagogia, eu gosto do que faço, e toda aula que eu entro a palavrinha que coloco é gostar. Você tem de gostar do que está fazendo eu outra, eu vou me aperfeiçoando, disse Wagner em entrevista ao G1.

 Aos 90 anos, mãe raspa cabelo de filho de 60 aprovado na universidade – Reportagem da Folha de São Paulo (2), mostra a trajetória de Alcyr Ataíde Carneiro, que capina há 23 anos limpando e roçando quintais e que entrou no Curso de Enfermagem da Universidade federal do Pará (UFPA). Motivação para fazer um curso superior foi a vontade de melhorar de vida. Não tinha opção, era ganhar na Megasena ou vencer pela educação.

 De SP para Nova York em um salto de baléCorrente de solidariedade transforma o sonho do bailarino Wendel Vieira Teles dos Santos de 12 anos em realidade. Em abril de 2020, ele vai se apresentar no Youth América Grand Prix (YAGP) de Nova York. A história do Wendel começou quando tinha 8 anos e superando todos preconceitos e inveja de muitos e, após muito treino diário, conseguirá se apresentar no lugar em que sempre sonhou.

Esta é uma pequena amostra do povo brasileiro que, em todas as áreas, pela criatividade, estudos, trabalho e obstinação, apesar dos desafios e dificuldades, busca sucesso no que faz e onde pretende chegar. Todos eles lutando para vencer as labutas do dia a dia. Acreditando que a educação é que dá a sustentação cognitiva para apoiar os sonhos de cada um.

Tenho repetido exaustivamente que só a educação será capaz de construir os alicerces para um país desenvolvido e para uma realidade dos novos tempos, que mudam a cada instante, de uma sociedade industrial para uma sociedade do conhecimento onde as Ciências da Comunicação e Informação estão mudando modelos de negócio, de serviços, de transporte, de viver, de conviver e recrear-se. Portanto, antes de mais nada desejo registrar que acredito nesta gente.

Entretanto, os tempos estão mudando. Vejam o que o professor Jose Pastore escreveu com o título de “Você perderá seu emprego para a automação” no estado de 30/01/2020, que resumo: deixando de lado os pessimistas e os otimistas sobre emprego do futuro, haverá necessidade, conforme recente consenso de especialistas em Davos, de requalificação profissional de 1 bilhão de trabalhadores entre 2020 e 2030.

No plano prático dos EUA 400 empresas estão requalificando 15 milhões de trabalhadores, a British Telecom-BT está fazendo o mesmo com 10 milhões de profissionais. Entre 2020 e 2030 estima-se que 42% das competências requeridas pelas profissões atuais precisam ser reatualizadas. Conhecimento valerá mais do que diploma e as pessoas deverão treinar a vida inteira. É crucial a necessidade da articulação de empresas, escolas e governo.

Dentro da mesma ótica, o editorial do estadão de 08/02/2020 “Desencontro entre educação e trabalho” descreve as mudanças ciclópicas que estão acontecendo no mundo do trabalho, onde ao mesmo tempo que desaparecem carreiras, surgem outras da noite para o dia. Apesar dos jovens estudarem hoje mais tempo que seus pais, eles ainda não estão prontos para o mercado de trabalho, este é o resultado encontrado pela avaliação feita pela Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) avaliando cerca de 500 mil estudantes.

A pesquisa “Emprego dos sonhos: as aspirações dos adolescentes e futuro do trabalho”, segundo o editorial, mostra que nestas duas décadas mudaram poucas as aspirações estudantis com idade média de 15 anos (47% meninos e 53% menina) de 41 países. Houve uma concentração em 10 carreiras e muitos adolescentes. Segundo Andreas Schleicher, diretor educacional da OCDE, “ignoram os novos tipos de trabalhos que estão surgindo, particularmente os da área digital”. Não há alinhamento entre aquilo que a sociedade e a economia exigem e o que o sistema educacional oferece. A conclusão é contundente. “O estudo evidencia uma fratura entre o mundo do trabalho e a educação e entre a realidade objetiva do mercado e a visão subjetiva dos jovens e advertindo que os sistemas educacionais devem ir além dos métodos tradicionais”.

O Brasil concorre com países do primeiro mundo majoritariamente na economia que se concentra ao redor das capitais. Há muito Brasil que se encontra até na época agrícola e vai se desenvolver diferentemente. Mas há cerca de 10 milhões que estão desocupados, que, somados aos abandonados da automação, serão um grande problema para qualquer governo e que somente a qualificação profissional pode resolver. Por mais paradoxal que seja, não é a preocupação do estado atual. Como sempre entrarão em cena quando as contornas dos miseráveis pela falta de trabalho arrebentarem.

Por outro lado, a universidade no mundo, com raras exceções, está aquém do mercado do trabalho e refletindo ainda em seus planos curriculares matérias defasadas de trinta anos, que davam para acompanhar uma época que não existe mais. Qualquer pesquisa no Brasil e nos EUA que se faça com estudantes, mostrará que começam a desacreditar no diploma, que a mensalidade é cara e que não vale a pena perder quatro anos na faculdade. As empresas queixam-se que os formandos não estão preparados para os novos tempos. Chegou então o momento de empresas, governo e instituições educacionais se alinharem para vencer os desafios de formação profissional de um mundo que precisa de talentos para vencer suas incomensuráveis dificuldades.

Certamente, desenvolver o ciclo básico e colegial não será tarefa tão difícil: basta chamar cem Wagner Neves.

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Uma resposta para “Como alinhar o que o mundo precisa em educação e o que os cursos universitários oferecem”

  • valter stoiani says:

    Os artigos de Fevereiro, arrozais testes de matemática e projeto de nação e o outro artigo do Prof. Gabriel , como alinhar o que o mundo precisa com o que os cursos universitários oferecem em educação, são a nosso ver complementares e faço este comentário sob este viés , que seria “o trabalho necessário e apaixonante.”
    Tanto o professor apaixonado Wagner Neves , de uma escola paulista e os plantadores de arroz da China são apaixonados pelo que fazem.
    Isto é executam o trabalho que fazem com grande prazer. Faço , ou educo , porque gosto diz Neves. E o mesmo diriam os plantadores de arroz que milenarmente apreenderam a plantar com seus ancestrais e o fazem como uma obra de arte, esculpida na natureza das montanhas chinesas.
    Ambos professores apaixonados e plantadores de arroz tem algo em comum o amor pela criatividade. Uns de ver brotar no húmus, na lama da terra a semente do arroz e os outros,os professores apaixonados, de ver brotar , no húmus ou na humanidade de seus alunos não só as sementes dos conhecimentos, dos conteúdos , mas principalmente da criatividade ,empreendedorismo, inteligência espiritual, da ética, alegria e da compaixão. .
    Ambos professores e plantadores , devem ser semeadores e prover condições fundamentais e terra fértil , para suas sementes, para que se transformem em alimentos do corpo e da alma. Isto a nosso ver é a educação que o mundo e a humanidade necessita e a que os currículos básicos e universitários deverão atender e se transformar, para evitar a debandada geral das instituições de ensino, que não se transformaram , nos próximos anos.

     

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