Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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 “À educação cabe fornecer, de algum modo, os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a bússola que permite navegar através dele.” (Jaques Delors[1])

Davos, na Suíça, foi palco do 50º Fórum Econômico Mundial, que reuniu, de 21 a 24 de janeiro, chefes de Estado, empresários, pensadores, líderes e celebridades. O tom dominante do Fórum foi ditado por Ian Bremmer, presidente e fundador do grupo Eurásia, para quem “o mundo passa por um ponto de inflexão”.

Oportuna e certeira comparação para o ambiente VUCA (volátil, incerto, complexo e ambíguo) que nosso milênio enfrenta. Originária da matemática, a expressão “ponto de inflexão” significa um momento preciso na vida de uma sociedade no qual seus parâmetros fundamentais estão no ponto de mudar. É o resultado de um acontecimento que altera a maneira como pensamos e agimos, dando ensejo a tomada de decisões, que envolvem riscos, mas que mudam a vida como um todo.

Urgência e reformulação foram as palavras de ordem nos painéis, que trataram de desigualdades extremas às   mudanças climáticas, passando pela ansiedade com as transformações no mercado de trabalho trazidas pela automação. Mas a agenda ambiental dominou os debates: cinco dos dez riscos globais apontados para a próxima década são relacionados ao meio ambiente – eventos extremos, falha no combate às mudanças climáticas, desastres naturais, perda da biodiversidade e desastres ambientais causados pela humanidade.

De papo de “bicho grilo” e “poetas”, o risco ambiental – potenciais danos que uma atividade econômica pode vir causar para o meio ambiente – se tornou efetivamente um risco financeiro e temas como a sustentabilidade e mudanças climáticas devem ser, segundo os debatedores, pontos-chave em qualquer estratégia de investimento no caminho até 2030. Assim, a mudança não deve ser apenas de retórica, mas, sim, uma mudança efetiva, que traga ações e resultados concretos.

Em sintonia com tendências para o século XXI, segundo Renata Piazzon, no jornal Nexo, de 28 de janeiro passado, CEOs de grandes corporações também anunciaram, em Davos, a “década da ação”, da colaboração e da transparência e apontaram a necessidade de uma visão comum entre sociedade civil, setor privado e governos para que se chegue a um mundo sustentável.

Segundo Piazzon, o consenso entre as empresas presentes em Davos foi que “esta é a década-chave para que ocorra uma mudança de nosso modelo mental, dos modelos econômicos e de como medimos performance e produtividade”. Acrescento, também, em sintonia com sustentabilidade e responsabilidade social. Este é o ponto de inflexão de que falou Bremmer, é o momento da “virada de mesa”.

Se um dos temas onipresentes que assombram a sociedade e tratados em Davos foi o problema do (des)emprego, estudo divulgado pelo Fórum diz que as profissões do futuro podem criar 1,7 milhões de novas oportunidades apenas em 2020. Até 2022, esse número pode subir para 6,1 milhões. O estudo traz uma lista de 96 profissões que podem florescer nesse cenário, como Profissionais de Inteligência Artificial, Transcrição Médica, Cientistas de Dados e Especialistas de Sucesso do Consumidor. Devem ser acrescentadas as disciplinas afeitas à Geriatria e à Gerontologia, a de cuidados médicos, a turismo, lazer, estética, etc., já que o envelhecimento demográfico mundial está em franca expansão.

Aí entramos nós: impossível falar em futuro sem pensar no poder transformador da educação.

Como venho insistindo em inúmeros artigos, essa é uma tarefa de todos. A disciplinarização estanque – em que os saberes estão fragmentados – nunca vai dar conta do problema. Um ambiente VUCA exige um novo modo de produção do conhecimento – a transdisciplinaridade.

Segundo Ubiratan D’Ambrósio[2], no livro Transdisciplinaridade[3], “o essencial na transdisciplinaridade reside na postura de reconhecimento de que não há espaço nem tempo culturais privilegiados que permitam julgar e hierarquizar como mais corretos. A transdisciplinaridade repousa sobre uma atitude mais aberta, de respeito mútuo e mesmo de humildade em relação a mitos, religiões, sistemas de explicação e de conhecimentos, rejeitando qualquer tipo de arrogância ou prepotência”.

D’Ambrosio propõe a transdisciplinaridade como resposta necessária à sustentabilidade, já que não é possível ignorar “as várias dimensões do conhecimento: sensorial, intuitiva, emocional, mística, racional”. A transdisciplinaridade potencializa os quatro pilares da educação proposto, ainda em 2010, pela Unesco, no Relatório Delors:

  • aprender a conhecer pressupõe estabelecer pontes entre os diversos saberes para que o conhecimento adquira importância na vida cotidiana;
  • aprender a fazer é, sobretudo, aprender, com criatividade, a transpor os limites da especialização excessiva. Pressupõe a coragem de executar, de correr riscos, de errar. Numa sociedade em constante transformação, a escola precisa formar indivíduos aptos a enfrentar novas situações, a trabalhar em equipe e desenvolver o espírito cooperativo;
  • aprender a conviver significa respeitar as normas que disciplinam as relações interpessoais. Mas não se trata puramente de obedecer a elas, mas de compreendê-las, partilhá-las e validá-las pela experiência interior individual. Trata-se não somente de aprender a gerenciar conflitos, participar de projetos, mas também com relacionar-se de maneira saudável com o meio ambiente;
  • aprender a ser é o contínuo aprendizado que desenvolve a sensibilidade, o sentido ético e estético, a responsabilidade, o pensamento crítico e a criatividade.

Só a escola, com todos os aportes que a era digital lhe franqueia, pode desenvolver as competências necessárias para antecipar-se ao cenário de incertezas que o novo século nos apresenta e geri-lo, preparando indivíduos autônomos, responsáveis, críticos e criativos para esse “admirável mundo novo”. Até porque, eram poucas as mudanças na sociedade, quando hoje tudo é exponencial.

O evento Davos deve ser discutido desde o ensino fundamental, repercutindo para os jovens saberem o que esperar e como contribuir para o futuro do nosso planeta. E a educação continuada abrange a todos, inclusive os docentes, que precisam estar antenados para não ficarem fora do tempo.

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[1] Economista e político francês, Jacques Lucien Jean Delors presidiu, de 1992 a 1996, a Comissão Internacional sobre Educação para o Século XXI, da Unesco, e foi autor do relatório “Educação, um tesouro a descobrir“, em que são explorados os quatro pilares da educação.

[2] Ubiratan D’Ambrosio é matemático e professor emérito da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), reconhecido mundialmente pela comunidade acadêmica por seus estudos na área de Etnomatemática, campo científico que discute sobre o ensino tradicional da matemática e como o conhecimento pode ser aplicado em diferentes contextos culturais.

[3] D’AMBROSIO, Ubiratan. Transdisciplinaridade. São Paulo: Palas Athena, 1997.

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