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Celso Niskier
Diretor presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)
Reitor do Centro Universitário UniCarioca
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Tempos de sociedade 5.0, realidade virtual e conhecimentos disruptivos demandam novas formas pensar, produzir, gerir, se relacionar. Apesar disso, seguimos atrelados a comportamentos e normativas estabelecidas, em grande parte, no século passado. Nem sempre é simples romper com paradigmas e substituir premissas consolidadas por novos desafios e formas de relacionar com o que nos cerca, mas, no atual contexto, isso deixou de ser opcional.

Em outubro de 2018, a segunda delegação internacional da ABMES visitou Israel, um dos países mais inovadores do planeta. Apesar das raízes fincadas em tradições milenares, a “nação das startups” conseguiu se reinventar e estabelecer padrões de inovação que hoje são perseguidos por inúmeros países.

Não é exagero afirmar que boa parte do desempenho israelense foi calcado no modelo educacional vigente no país, em especial o relacionado à educação superior. Para além da autonomia na forma de transmitir conteúdos, as instituições israelenses têm a inovação e o empreendedorismo como eixos de formação dos estudantes, o que resulta em dezenas de projetos inovadores, muitos dos quais gerando patentes e/ou startups.

Além de projetar as universidades a elevados níveis de desenvolvimento, essa compreensão ampla sobre o processo de formação profissional integra um modelo de gestão no qual, mesmo sendo públicas, as instituições israelenses possuem grande parte dos seus recursos financeiros provenientes de outras fontes que não a governamental.

Trata-se de um contexto que, em certa medida, dialoga com a recente proposta de modificação do financiamento das universidades públicas brasileiras apresentada pelo Ministério da Educação. Intitulado Future-se, o programa possui ousadia e inovação capazes de conduzir essas instituições a um novo panorama mais próximo da realidade e das necessidades atuais.

Para além do aprimoramento da gestão, a captação de recursos privados tem tudo para contribuir para a melhor utilização dos recursos públicos destinados às universidades, bem como para o crescimento da produção científica em quantidade e qualidade. A proposta supera a dicotomia entre público e privado em nome da construção de algo muito maior e que pode ser o início da jornada rumo a uma cultura mais inovadora.

É verdade que muito ainda precisa ser esclarecido sobre como o Future-se vai ser efetivamente implementado e quais serão os passos para que essa transformação ocorra. Ainda não foi dito, por exemplo, como ficará o financiamento das áreas relacionadas às ciências humanas, que são fundamentais para o desenvolvimento da pesquisa tecnológica, mas não geram startups. O repasse de um percentual fixo do que for captado pelas outras áreas pode ser uma alternativa.

O atual modelo de financiamento estatal da educação já se mostrou superado. Para além dos gargalos operacionais, os sucessivos contingenciamentos e cortes de recursos evidenciam a falta de capacidade do governo de arcar com a integralidade dos custos de uma educação superior pública e gratuita. Estamos diante de um projeto que se propõe a conduzir o país a um futuro que já é presente em outras nações. Por mais que a quebra de paradigmas possa ser dolorida, ela é muitas vezes necessária.

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