Oscar Hipólito
Professor titular da Universidade de São Paulo
Educational Advisory at Numbers Talk – Business Analytics
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As Instituições de Ensino Superior, são as únicas organizações que a cada semestre se renovam e se reestruturam para atender um novo público que permanece no seu interior  interagindo permanentemente e influenciando o desenvolvimento dos seus processos decisórios. Muitos já tentaram fazer analogias com outras organizações também complexas como por exemplo, hospitais e aviação. Entretanto, as similaridades não resistem a um simples argumento: em nenhuma delas o seu público permanece no seu interior por longo período de tempo como nas instituições de ensino e tão pouco interferem em seus processos decisórios.

Agora é o momento em que se inicia o ano letivo, a chegada dos novos alunos e com eles muitas preocupações e grandes euforias. Preocupações por não saber exatamente em que condições escolares e culturais se encontram, como irão acompanhar as atividades acadêmicas, quanto tempo permanecerão na Instituição. Euforias pela renovação e nova vida que trazem às instituições.

Em sua grande maioria, os ingressantes são oriundos do ensino médio cuja estrutura de ensino diverge, em vários aspectos, do ambiente universitário. São em geral inseguros em relação ao curso que escolheram, ansiosos com o que irão encontrar na instituição, mas plenos de expectativas e com muita motivação. Ingressando em condições diversificadas, formam um conjunto heterogêneo tanto em relação ao grau de escolaridade como em valores sociais, culturais e econômicos.

Essa heterogeneidade muitas vezes se constitui em um obstáculo para o desenvolvimento do curso, pois o professor, se não conhecer a realidade de seus alunos, acaba encontrando problemas para a condução de suas aulas. Não conhecendo o “aluno real”, corre-se então o risco de ministrar um curso que mais o desestimula do que o motiva, levando-o ao abandono precoce, à frustração de suas expectativas e consequentemente a um insucesso institucional.

Com o objetivo de minimizar esse problema e melhorar a relação ensino/aprendizagem, apresentamos abaixo sugestões de algumas medidas relativamente simples e de fácil implementação que podem contribuir para a satisfação do aluno, o sucesso do curso e da instituição.É sabido que muitos estudantes decidem abandonar a Instituição nas primeiras 6-8 semanas do início das aulas sendo portanto o momento oportuno para evitar essa deserção.

 1-Trabalhar com a diversidade
A percepção das diferenças indivi­duais é fator condicionante para a melhoria da relação professor/aluno. Nesse sentido, é importante que o professor saiba quem são seus alunos, não apenas do ponto de vista da escolaridade, mas também os aspectos socioeconômicos. Assim, poderá criar condições para o desenvolvimento de suas potencialidades e sua inserção no mundo acadêmico.

O resultado do processo seletivo acompanhado do levantamento socioe­-conômico do aluno que ingressa pode ser um excelente instrumento para o professor. Caso o processo seletivo não tenha sido robusto o suficiente para que se possa obter informações dos gaps de aprendizagem dos estudantes, deve-se realizar um diagnóstico capaz de levantar o perfil escolar dos ingressantes, para que sejam sanadas as dificuldades existentes.

Além do mais, é fundamental o estabelecimento de um relacionamento cordial e amigável e, acima de tudo, que haja aceitação pela diversidade e respeito à sua individualidade, ouvindo com atenção os comentários dos alunos. Em vez de descartar suas idéias, adicione-as para que os alunos sintam que suas idéias e opiniões valem a pena e podem contribuir para o conjunto das atividades.

2- Motivar para o curso
O estudante que acaba de ingressar na universidade está extremamente motivado pelo novo desafio e tem muitas expectativas em relação ao curso e ao ambiente universitário.  Portanto, é preciso não frustrá-lo, mantendo seu entusiasmo, interesse e envolvimento em todas as atividades acadêmicas do curso e da instituição.

Para que haja um ambiente de aprendizagem estimulante, é importante que o professor explique sempre o porquê e o para quê do tema que está sendo desenvolvido, sua conexão com a vida real e em especial com a profissão escolhida, procurando dar ao aluno uma visão geral de sua área de formação.

É natural nos sentirmos motivados a aprender alguma coisa quando temos consciência de sua utilidade. Nada é mais frustrante do que termos de aprender apenas por aprender.
Envolver os alunos e incentivar a participação nas atividades desde o primeiro dia, para que eles se tornem aprendizes ativos desde o início do curso é fundamental para que tenham sucesso.

3-Avaliar para melhorar
O aluno inicia seu curso, e sua carreira universitária, com um alto grau de expectativa. Não sabe exatamente o que esperar, não tem condições de avaliar sua própria capacidade de sucesso, mas tem receio de fracassar. A primeira avaliação do ensino/aprendizagem não deve, portanto, demorar a acontecer, porque o aluno irá criando uma ansiedade que acabará sendo prejudicial ao seu desempenho escolar.

Para melhorar a relação ensino/aprendizagem e aumentar a eficiência desse processo, é recomendável a utilização, além de diferentes mecanismos de avaliação, avaliações  continuadas que permitam um real acompanhamento do aprendizado do estudante, dando-lhe confiança para avançar nos novos temas.

Avaliações precoces e frequentes por meio de questionários e/ou tarefas curtas ajudarão os alunos a manter o foco e obter sucesso. Além disso, avaliações frequentes fornecerão oportunidades para se fazer ajustes no curso se os alunos estiverem com dificuldades.

É importante identificar os alunos que estão enfrentando dificuldades acadêmicas no curso o mais cedo possível. Caberia ao professor tomar a iniciativa de entrar em contato e reunir-se com esses alunos, abordando-os antes ou depois da aula para agendar  uma conversa.

4-Enfrentar as dificuldades
Em cada disciplina, o conteúdo do programa deve ser ministrado gradativamente. Essa é uma condição essencial para a superação das dificuldades do aluno. Por isso, cada dificuldade deve ser enfrentada a seu tempo e a sua vez. Inicialmente, o professor deve se valer dos resultados obtidos no processo seletivo ou no diagnóstico dos ingressantes para se certificar do nível de entendimento dos alunos. Caso esses dados não sejam suficientes, deve-se realizar uma pequena avaliação específica dos pré-requisitos necessários para a unidade escolar.

Fazer sempre uma revisão dos conceitos necessários e indispensáveis (ainda que se suponha que os alunos já deveriam sabê-los) antes de introduzir um assunto novo. Admitir, a priori, que o aluno tenha conhecimento prévio das bases necessárias para avançar  é um equívoco que pode redundar em um desestímulo e consequente fracasso.

É extremamente importante ajudar os alunos a estabelecerem metas alcançáveis ​​para si mesmos. Incentivar a se concentrarem em sua melhoria contínua, e não apenas em suas notas ou conceitos em qualquer teste ou tarefa. Estabelecer um sistema gradativo que ofereça a possibilidade dos alunos avançarem se dominarem os objetivos de aprendizagem, mesmo que tenham dificuldades na primeira parte do curso.

5-Ensinar a pensar
Cada área do conhecimento tem certos mecanismos de elaboração do raciocínio. Os alunos, na sua grande maioria, não têm essa formação, não sabem como começar a pensar, como desenvolver afirmações, como justificar procedimentos. Nesse sentido, é necessário então, criar mecanismos e condições para que o aluno possa desenvolver habilidades de raciocínio, aprender a aprender, aprender a pensar e aprender a elaborar questões.

Há necessidade de introduzir em sala de aula a metodologia da pesquisa científica. Propor questões desafiadoras para que o pensamento possa se desenvolver na elaboração de soluções reais.

6-Deixar o aluno fazer
Cabe ao aluno buscar a solução dos problemas e, ao professor, orientar e ajudá-lo a superar as suas dificuldades e limitações. O aluno não é, e nem pode ser, mero espectador de sua própria aprendizagem. É necessário que seja um partícipe nesse processo. Portanto, seu envolvimento é essencial para a construção do conhecimento. O professor deve, sempre que possível, exercitar a prática profissional por meio de problemas reais.

Propor projetos reais que possam ser desenvolvidos em grupos é estimulante e contribui para o sucesso dos estudantes. É importante oferecer oportunidades para que os alunos conheçam e aprendam com outros alunos da classe. A utilização de projetos de colaboração/cooperação promove a integração social e acadêmica dos estudantes.  Criar mecanismos para que os alunos participem de grupos de discussão on-line com o professor e seus colegas de classe favorece a aprendizagem e o desenvolvimento pessoal

7-Informar
O aluno precisa ser informado sobre o programa, bibliografia, critérios utilizados pelo professor, metodologia de condução das aulas e do curso; conteúdo a ser exigido nas avaliações; duração de cada avaliação,  os critérios de correção, o gabarito das questões. Estas informações são fundamentais para o desenvolvimento do processo ensino/aprendizagem e para a adequada relação professor/aluno.

É importante que os alunos que estão chegando ao ensino superior tomem conhecimento das atividades que são desenvolvidas pela Instituição, como por exemplo os programas de pesquisa, de iniciação científica, de extensão e como podem participar desses projetos.  Quanto mais intensamente os alunos se engajam e se envolvem em sua própria educação, maior a probabilidade de se saírem bem, ficarem satisfeitos com sua experiência educacional e permanecerem na Instituição.

8-Orientar sempre
O professor deve orientar academicamente o aluno a estudar, a elaborar um relatório, a redigir corretamente um texto, a realizar pesquisa bibliográfica etc. Deve também contribuir com a orientação profissional, dando conhecimento das atividades de sua (professor) área de trabalho e das perspectivas da profissão escolhida.

Explicar as expectativas de tempo e o que os alunos podem fazer para dominar o conteúdo de seus cursos. Ajudar os alunos a criar grupos de estudo. Explicar a diferença entre colaboração legítima e desonestidade acadêmica; deixar claro quando a colaboração é desejada e quando é proibida.

Se esse conjunto de medidas básicas forem adotadas e implementadas, certamente haverá maior envolvimento e interesse dos alunos e consequentemente bons resultados na aprendizagem. Certamente selecionar os melhores professores para o primeiro ano facilitará em muito a execução dessa tarefa e contribuirá para a satisfação e permanência do aluno na instituição. Ainda que essas recomendações estejam dirigidas principalmente para o aluno ingressante, elas se aplicam, em sua maior parte, a todas as séries.

Caso haja necessidade de ajuda externa para a elaboração do diagnóstico dos ingressantes tanto em relação ao perfil escolar quanto ao perfil socio-econômico, estou à disposição para orientar ( oscar.hipolito@numberstalk.net).

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