Fábio Garcia ReisProf. Dr. Fábio J. Garcia dos Reis – Diretor do Centro UNISAL-Lorena
www.fabiogarciareis.com
Outubro de 2009

O diretor do Center for International Higher Education do Boston College, Philip Altbach, fez uma série de provocações durante a palestra proferida para um grupo do Centro Universitário Salesiano de São Paulo (UNISAL), que estuda a dinâmica da educação superior e que participou de um seminário em Boston, entre os dias 12 e 13 de outubro de 2009. O tema da discussão foi o processo de globalização e internacionalização da educação superior.
Ele começou a apresentação com uma pergunta interessante: O Brasil está preparado para participar efetivamente do processo de globalização e internacionalização? Se não estamos, quais as conseqüências? Antes de responder às perguntas de Albtach, vou sintetizar a análise que ele fez durante a palestra.

Para ele, a globalização está relacionada com a economia da educação, com os negócios, com a dinâmica dos grupos educacionais, com a compra e venda de instituições de educação superior (IES), com a comercialização de serviços e outros negócios da educação e da pesquisa. Já a internacionalização, remete à cooperação, ao intercâmbio de alunos e professores e a uma série de ações e projetos que envolvem diferentes IES.
Em relação às consequências, Albach defende que um sistema de educação superior que não se globaliza e internacionaliza terá dificuldades de manter-se como um sistema competitivo, pois a dinâmica da educação superior requer investimentos, expansão da oferta de vagas, aumento do número de IES e serviços educacionais disponíveis. A cooperação e o intercâmbio são essenciais em um mundo de intensas trocas de informações, de produção do conhecimento e uso da tecnologia.

Após a síntese das ideias de Altbach, é possível tentar responder às perguntas que ele fez. O Brasil, quando pensamos nas políticas do governo, em especial do MEC, constatamos que há uma série de atitudes e normas que reagem de forma negativa ao processo de globalização. O MEC entende que a movimentação do capital pode intensificar a desnacionalização da economia e a educação pode deixar de ser um bem público para ser um serviço e um negócio. De modo geral, os dirigentes e os intelectuais do setor público vêem com desconfiança o uso de termos como cliente e comércio de serviços educacionais.
A educação é um bem público. Eu concordo com a afirmação, mas isso não representa que deva ser estatizada. Ser um bem público significa que a educação deve servir aos interesses da sociedade, incluir diferentes grupos sociais que são tradicionalmente excluídos e formar cidadãos. Governos e setores da iniciativa pública e privada pouco discutem se devemos ou não impedir o investimento estrangeiro em nossas IES ou se podemos permitir que universidades estrangeiras possam abrir campus em nosso país. Não discutimos o que significa a educação como um bem público. Não discutimos porque os dirigentes do MEC possuem uma postura ideológica focada em concepções políticas que não estão sintonizadas com a dinâmica do século XXI.
O Brasil ainda não superou algumas questões que já foram bem resolvidas em diversas economias desenvolvidas. A educação é um bem público não estatal, aberta a iniciativa privada e o Estado não tem a obrigação de financiar 100% dos custos da universidade federal.
Temos uma postura protecionista em uma economia global, de intensa
circulação do capital. Ficamos felizes com os investimentos estrangeiros em nossas empresas ou na bolsa de valores, mas negamos os investimentos na educação superior.
O país precisa de investimentos e novos negócios no setor educacional. O Brasil precisa expandir significativamente o número de alunos matriculados.
Em relação ao processo de internacionalização, é preciso avançar. Acredito que são poucas IES que possuem programas efetivos de cooperação e mobilidade de seus alunos e professores. De modo geral, são as universidades públicas e as IES privadas top que possuem programas de internacionalização. O número de alunos estrangeiros que estudam no Brasil é pequeno. Não temos oferta de cursos de graduação em inglês.
Temos poucas world-class universities. Não há no Brasil uma cultura de internacionalização.
Como consequência dessa situação, entendo que o nosso governo confunde supervisão com controle, que impedir o investimento estrangeiro não significa que o nosso sistema será melhor e que protegeremos o Brasil de um processo de desnacionalização. Os países que participam da economia global e das redes de cooperação política precisam entender que o conceito de fronteira modificou-se, e que cada vez mais a presença de capital estrangeiro na economia interna será comum. A concepção de rede não é compatível com o conceito de proteção de fronteira. A globalização da economia colabora com a intensa circulação de capital, porém, isso não pode significar ausência de regulamentação.
Não há dúvida que o país precisa cuidar da qualidade do sistema de educação superior, estabelecer critérios para a atuação de grupos estrangeiros, criar condições para que os mantenedores das IES nacionais sejam competitivos e favorecer a dinâmica acadêmica e administrativa das IES. Reagir ao processo de globalização é reagir à própria dinâmica do século XXI. Há uma série de variáveis e situações que precisam ser supervisionadas, normatizadas e avaliadas no processo de globalização. Precisamos aprender a conviver com as contradições da globalização.
A cooperação entre as IES precisa ser entendida como uma condição de inovação, de dinâmica acadêmica e administrativa e de produção de novos conhecimentos. Uma IES que permanece isolada das redes internacionais e focada em si mesma será uma IES local, que provavelmente formará egressos para ocuparem níveis baixos ou intermediários nas organizações públicas e privadas.
O Brasil precisa de profissionais preparados para ocupar diferentes tipos de funções, mas nosso crescimento econômico consistente e perene acontecerá com pessoas formadas em um contexto internacional, com pessoas que tenham um olhar global e que sejam capazes de propor novos negócios, que consigam ter uma atuação local, regional e global. O Brasil precisa de profissionais competitivos.
A conseqüência da nossa discreta internacionalização será a nossa condição intermediária na dinâmica mundial da educação superior. A capacidade de inovação, de produzir novos conhecimentos e de repensarmos a IES será menor.
Espero que os gestores façam a opção pela internacionalização. Fazer essa opção não significa que serão necessários grandes investimentos. Uma IES pode iniciar o processo de internacionalização com a busca de informações na internet, com a busca de contatos pontuais e bilaterais, com parcerias efetivas, ou mesmo com o desejo de conhecer o que está acontecendo no mundo, e, a partir daí, buscar informações.
Provavelmente, há dirigentes que não estão interessados em conhecer o mundo universitário, pois “o seu mundo basta, o mundo da própria IES é o suficiente”. Qual será o futuro desse gestor e dessa IES?
As universidades brasileiras precisam participar da dinâmica econômica
mundial. É necessário entender que vivenciamos um processo de consolidação do mercado educacional. Devemos, se considerarmos necessário, buscar investimentos internacionais e fazer negócios com os serviços educacionais.
Que pensemos no futuro. O mundo é uma grande rede. Que possamos seguir as recomendações de Manuel Castells: sejamos um dos nós da rede internacional. Fazer parte da rede não significa copiar outro modelo ou “ser colonizado pelos novos imperialistas do século XXI”. Philip Altbach tem razão: é preciso participar do processo de globalização e internacionalização, combater seus aspectos negativos e aproveitar ao máximo as oportunidades.

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