Maria Carmen TavaresMaria Carmen Tavares Christóvão
Mestre em Gestão da Inovação e Gestora Educacional
Consultora em Inovação Educacional da Revista Linha Direta
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O país vive uma combinação de crises sem precedentes – políticas, econômicas e institucionais. O crescimento econômico no segmento educacional pode voltar a crescer, para tanto a inovação é fundamental.

As instituições de ensino do século XXI devem adquirir novas competências para inovação através de um processo de formação de profissionais que sejam capazes de responder aos desafios e demandas globais do mercado e da sociedade. As novas configurações e natureza do conhecimento encontram na criatividade, mola mestra para a inovação, um modelo eficaz onde o trabalho multidisciplinar, empreendedorismo, autonomia e formação holística são pressupostos indispensáveis.

Para a formação de indivíduos criativos e inovadores é imprescindível a formação de uma equipe de docentes e gestores performáticos, que se se empenhem para aprenderem a construir não apenas instituições de sucesso, mas uma cultura criativa sustentável. Isso requer a revisão de um modelo mental onde o importante é focar não apenas na solução de problemas técnicos, mas realizar um mergulho nos pressupostos da gestão da inovação percorrendo as trilhas do pensamento criativo em busca se soluções e práticas que não sejam comodities.

Estratégias de inovação são capazes de levar pessoas e sociedades a se adaptarem as transformações que caminham rumo a economias baseadas no conhecimento e em descobertas. No âmbito de inovação das instituições de ensino existem as inovações que advém de cooperações externas e outras oriundas de processos internos. Inovações internas modificam e transformam campo, áreas, setores, currículos e disciplinas. Uma informação em um dos campos enseja ruptura em outro. Foi o que ocorreu com a criação dos   Bacharelados Interdisciplinares no Brasil quando o mundo deu sinais de que a natureza do conhecimento se tornou interdisciplinar. Várias instituições de Ensino Superior romperam com as linhas de orientação clássica entendendo que o conhecimento possui outra estrutura na atualidade. O Instituto de Pesquisa Helmwoltz, considerada a maior organização científica da Alemanha, organiza o conhecimento de forma muito semelhante ao que fizeram no Brasil. Seu trabalho está dividido em seis áreas estratégicas de investigação. São elas: Energia, Ciências da Terra e Meio Ambiente, Saúde, Princípios Tecnológicos, Estrutura da Matéria, Aeronáutica, Espaço e Transportes. O fato nos comprova que, além de ser uma tendência global, traz sustentabilidade para as instituições de médio e grande porte. A estrutura interdisciplinar aliada às pesquisas científicas relevantes e amplamente reconhecidas é um grande diferencial para a IES. Consequentemente, toda estrutura para suportar um design interdisciplinar do conhecimento, que rompe com departamentos e se reorganiza pela natureza do conhecimento leva a universidade a ter toda uma prática diferenciada, desde o ingresso do aluno na universidade até a conclusão do curso.

Com inovações que rompem com o modelo de serviço ofertado anteriormente, semelhantes a descrita acima, o segmento educacional criará inovações disruptivas, ou ficaremos continuamente na experiência tímida de aprimoramento e melhoria de processos. A inovação disruptiva gera impactos e precipita mudanças, geralmente visualizadas ao longo do tempo, considerando que são construções sociais. Estamos diante de algumas delas, como o novo marco regulatório de EaD e precisamos aproveitar ao máximo a oportunidade de extrair as melhores práticas inovativas para nossas instituições.

Uma das questões fundamentais para que a inovação aconteça é a qualidade da formação universitária e estratégias que resolvam o gap existente oriundo da formação básica que forma um aluno totalmente acrítico. A outra é tornar o Ensino Superior mais atrativo e com modelos promotores de um pensamento criativo. Tecnologia não basta. Ambas as soluções dependem de parceiros externos para inovação. A busca e atuação com outros setores da sociedade é indispensável como preconizava Henry Etzkowitz (pesquisador da Universidade de Stanford), autor da teoria da tríplice hélice, que vem sendo tão apresentado nos seminários e congressos de educação no Brasil, apesar do grande desconhecimento sobre o tema até mesmo dos gestores educacionais. A prática de exercitar esse diálogo entre mercado e governo trazendo para dentro da academia potencial de inovação já vem ocorrendo nas instituições mais ousadas. Um dos desafios pode ser o de investir em gestores de inovação capazes de desenvolver essa cultura tanto externamente quanto internamente. As instituições educacionais são muito formais e quando existem barreiras para inovação mesmo solucionando o problema principal as consequências do problema não desaparecem de imediato. Desembaraçá-los não é tão simples quanto a correção do problema original. Encontrar uma solução inovadora é um processo de várias etapas.

A Pixar, empresa líder em inovação no mercado de animações e que teve Steve Jobs como um de seus fundadores, possui como princípio uma máxima citada por seu presidente Ed Catmull : (Criatividade S.A, 2014)

Mesmo depois de todos esses anos, muitas vezes sou surpreendido por problemas que existiam bem na minha frente. Para mim, o segedo para resolvê-los é encontrar formas de ver o que está e o que não está funcionando, o que parece ser muito mais simples do que é na realidade. Hoje a Pixar é gerenciada de acordo com esse princípio, mas de certa forma passei toda minha vida buscando melhores maneiras de ver. Isso começou a décadas, antes da Pixar existir.

Esse olhar é o que gera também inovação interna. Sabe-se que a aprendizagem criativa pode criar um ambiente de inovação, desde a Educação Infantil ao Ensino Superior. As metodologias utilizadas para input criativo existentes dão ênfase ao “Hands on” ou situação concretamente vivida, com a implantação de espaços e práticas que trabalhem o pensamento criativo, tecnologias e metodologias que auxiliam no domínio das competências para o século XXI, onde a ênfase está na articulação e construções criativas do conhecimento. Formam alunos mais autônomos, interativos, colaborativos e capazes de solucionar problemas de forma original.

Para terminar o artigo gostaria de descrever a rica oportunidade para a Educação Básica criada através da Resolução nº 2, de 10 de maio de 2016, que define as Diretrizes Nacionais para a operacionalização do ensino de Música na Educação Básica. Através de projetos musicais bem construídos consegue-se criar um ambiente fértil, como ocorre em outros campos das artes e inspirar alunos para a aprendizagem interdisciplinar. Pouquíssimas escolas se utilizaram desta resolução para trazer diferencial competitivo e inovar em sua prática. Incentivar projetos dessa natureza é algo nobre, pois propicia espaços oxigenados e estimuladores. A presente resolução deve ser utilizada para respaldar ações promotoras de inovação, se houver a capacidade para conhecê-la e analisá-la. O simples fato de não aplicarmos a própria legislação ao nosso favor demonstra que se faz necessário a mudança da cultura de inovação nas instituições onde emoção e lógica não sejam conflitantes e sim complementares.

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9 Respostas para “Inovação: um território onde emoção e lógica não se excluem”

  • Paulo Urbano Avila says:

    “…A outra é tornar o Ensino Superior mais atrativo e com modelos promotores de um pensamento criativo. Tecnologia não basta…”
    Boa análise Profa.Carmen !

    Estou fazendo um estudo paralelo da Inovação e a Economia Criativa :

    ” O Astrônomo Fred Hoyle diz que, quando Albert Einstein expôs sua Teoria da Relatividade, “Ele colocou uma questão de ESTILO antes de toda a confusão dos detalhes….. Obviamente, os físicos jamais se rendem ao estilo, pois a palavra faz lembrar Beau Bummell. Mas estilo é isso ”

    Extraído do livro Economia Criativa – John Howkins

    Obrigado pela motivação Profa. Carmen

     
  • Denyse Guedes says:

    Parabéns Carmen!!! Artigo muito bem elaborado e elucidativo, ressaltando pontos importantíssimos a serem divulgados e trabalhados. Ao que se refere à legislação cabe aqui destacar que, infelizmente algumas IES estão deixando a desejar no que diz respeito à atualização das mesmas bem como a devida aplicabilidade. bjss

     
  • Jaime Stabel says:

    Artigo muito interessante e sobre um tema de extrema importância. Atualizar todos os processos educacionais para adaptar-se às realidades do mundo que se comunica instantaneamente é um desafio e tanto.
    Parabéns.

     
  • Carlos Ferrara Junior says:

    Parabéns. O Artigo traduz a real necessidade de renovação educacional.
    Para o alcance da tão sonhada inovação se faz razoável dprimorar uma verdadeira mudança do conceito de gestão educacional que, acredito eu, pode ser conquistada a partir de uma visão Bioética em que é possível encontrar soluções novas para os problemas emergentes.
    O modelo conhecido por “Economia de Comunhão” é uma das principais possibilidades que a administração moderna nos apresenta para alcançar essa necessidade.
    Gostei muito Profa. Maria Carmen.
    Parabéns!

     
  • Eduardo Câmara says:

    Prezada Carmem.

    Parabéns pelo excelente e inspirador texto. Realmente faz-se necessário uma abordagem disruptiva inovadora para o nosso modelo educacional, um desafio gigante diante do conservadorismo da maior parte das nossas instituições de ensino. Compartilho profundamente as suas ideias e percebo também o grande espaço que há nessa frente de trabalho da inovação na educação. Apenas para complementar gostaria de trazer a relevância dos processos de criatividade na comunicação digital, como um dos instrumentos de que transformação e suporte para esse avanço, ou seja criatividade e comunicação em prol da inovação na educação.

     
  • Sem dúvida, a inovação é necessária; mas quem inova são pessoas, logo o investimento nos professores precisa acontecer.
    É certo que uma instituição privada precisa de lucros, mas seu lucro virá com um corpo docente referendado e assim teremos alunos que possam se desenvolver.

     
  • Jonatas Turcato Syrayama says:

    PROF. Carmem, sempre é bom aprender contigo. Realmente faz necessário diversas mudanças, porém mudanças na cultura e no pensamento já enraizado é primordial. Parabéns!

     
  • Norberto Paul says:

    O artigo da Profa. Ma. Carmem indica os caminhos que as IE´s devem seguir. Inovação, disrupção criativa, metodologias ativas, design thinking devem ser consideradas ferramentas que levem os alunos a desenvolver as competências necessárias para sua atuação profissional e, ao mesmo tempo, façam com que as Instituições estejam mais próximas ao que as organização desejam dos egressos.
    Parabéns à autora pela visão e compartilhamento.

     
  • Parabéns, Carmen. Mais um artigo da sua lavra, substancioso e com foco bem definido. Ressalto a parte em que você escreve que para a formação de indivíduos criativos e inovadores é imprescindível a formação de uma equipe de docentes e gestores performáticos. Considero que a palavra “equipe” define, de forma bem assertiva, uma das principais características de um corpo docente/diretivo eficiente e eficaz.

     

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