Ronaldo MotaRonaldo Mota
Reitor da Universidade Estácio de Sá
Diretor Executivo de Educação a Distância da Estácio
http://reitoronline.ig.com.br
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Inovar foi a grande marca do século XX. Ao longo da história, o significado de inovação nem sempre foi o mesmo. Certamente os tempos atuais e o contexto específico do Brasil demandam refinamentos e especificidades de seu significado.

No século passado, do conhecimento científico se fez a tecnologia, a qual chegou abundante ao mercado na forma de inovações. Estas, por sua vez, resolveram problemas e ganharam escalas compatíveis com um planeta cada vez mais globalizado. A mais comum e aceita definição clássica deste tipo de inovação foi cunhada por Joseph Schumpter como sendo qualquer novo produto ou processo, bem como uma nova funcionalidade de um produto já existente, que atendessem demandas.

Adotou-se também associar a capacidade de inovação como principal referência para estabelecer a competitividade entre os países, ao lado da qualidade da educação, taxa de poupança (se alta, baixa juros e barateia o crédito) e estabilidade macroeconômica. Especificamente sobre investimentos em pesquisa e desenvolvimento, matriz do processo de inovação, a título de exemplo, os Estados Unidos investem algo em torno de 2,7% do PIB, onde somente 0,7% vem diretamente do Governo e o restante do setor privado. O Brasil, além de investir menos, algo em torno de 1,2%, 0,7% vem do Governo. Ou seja, o setor privado nacional investe aproximadamente quatro vezes menos, em percentuais dos respectivos PIBs, do que aplicam as empresas americanas.

Novos tempos sugerem novas abordagens e a maior novidade contemporânea é a emergência de uma sociedade caracterizada pela inédita informação plenamente acessível, instantaneamente disponibilizada e progressivamente gratuita. Neste novo contexto, espaços de economias baseadas em compartilhamento passam a se apresentar como candidatas a se tornarem dominantes, em detrimento dos setores clássicos da economia. Mais do que possuir bens genéricos, comportamento típico do século passado, a população passa a almejar, prioritariamente, a garantia de acesso a serviços de qualidade.

Corremos o risco de permitir uma sociedade excludente sem precedentes, onde as diferenças entre os que têm total acesso, comparadas com os que nada têm, podem ser ampliadas ainda mais. Bem como temos a oportunidade de seu oposto, ou seja, fazer uso das tecnologias digitais  inovadoras e viabilizar comunidades mais inclusivas e sustentáveis, onde o acesso a produtos e serviços de qualidade é estendido a muitos.

O Brasil tem provado ser um país capaz de prestar atendimentos de qualidade, desde que para poucos, ou então para muitos, desde que sem garantias de qualidade. Não aprendemos, infelizmente, fazer as duas coisas, qualidade e quantidade, ao mesmo tempo.  Harmonizar bom nível e escala é a mais importante inovação que o país precisa. Em certo sentido, ainda somos arcaicos, avançamos pouco além do que há tempos atrás foi descrito por Gilberto Freyre em “Casa-Grande & Senzala”.

No campo da educação, bem como na saúde, houve avanços, mas eles seguiram a regra da não inovação. Universalizamos em grande escala com má qualidade, bem como registramos, como exceções,  localizados centros de excelências.

Propiciar qualidade para poucos ou então ofertar qualidade precária para muitos não é inovar, é repetir o passado sem graça. Inovar no Brasil de hoje é romper as barreiras que separam a Casa-Grande da Senzala, viabilizando qualidade para muitos.

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2 Respostas para “Inovar é garantir qualidade para muitos”

  • Welinton Baxto says:

    Complementarmente[…] Refletindo sobre o termo “INOVAÇÃO” no processo ensino-aprendizagem com o uso das TICs.

    Sabe-se que o uso das TICs, seja na educação básica ou superior, não acontece de forma tão simples, porquanto, interferem para o seu alcance a infraestrutura capaz de suportar as tecnologias digitais; ausência de curso de formação continuada para a docência online; falta de contratação de equipe multidisciplinar; baixa remuneração; descontinuidade do trabalho pedagógico; dificuldade dos professores para apropriação da teoria, da técnica e da prática voltada ao emprego das TICs como apoio pedagógico. Essas e outras, podem conspirar em desfavor da participação e interação no ambiente virtual de aprendizagem (AVA).
    Não obstante, a prática pedagógica está vinculada à aprendizagem por serem atos intrínsecos ao processo ensino-aprendizagem, dependendo da técnica utilizada o tipo de aprendizagem (individualizada, cooperativa ou colaborativa) se isola ou se complementa. Para essa expertise há necessidade da compreensão se determinada técnica contribuirá ou não para o processo ensino-aprendizagem.

     
  • Welinton Baxto says:

    O artigo suscitou o alerta de Darcy Ribeiro “É de matar de vergonha o descalabro de nossas universidades. Na maior parte delas, o professor simula ensinar e o aluno faz de conta que aprende, na fabricação mais ousada de diplomas que reproduz o papel de legitimadora do status social da classe média. Imensa é a gravidade desse problema, porque é através da educação superior que se domina e se cultiva o saber erudito de nossa civilização. É também através dela que se produzem e reproduzem quadros profissionais, técnicos e científicos de uma nação moderna”
    Numa sociedade abastecida por tecnologia a educação a distância poderá alcançar quantidade e qualidade desde que o modelo pedagógico esteja ajustado ao público específico sem reservas!

     

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