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Antonio OliveiraAntônio de Oliveira
Professor universitário e consultor de legislação do ensino superior da ABMES (1996 a 2001)
antonioliveira2011@live.com
***

Márcio Almeida, natural de Oliveira MG, escreve poesia e ficção. Minha Escola é Sopa, Editora Comunicação, é uma história, senão real, realista; um relato sem metáforas, emoldurado de lirismo, denso e tenso. Comovente. No relacionamento do menino rico com o garoto pobre, para quem a escola é sopa, há um retrato de quantas crianças brasileiras que vão à escola por causa da sopa, da merenda. Haveria, também, outro retrato, esse apenas insinuado, de que a escola é sopa, isto é, também para os que têm condições normais de cursá-la, a escola brasileira, de modo geral, é empreendimento que se pode realizar e vencer com relativa facilidade, dado o baixo nível de desempenho. A aprendizagem é progressiva, mas não dá saltos.

O livro relata a história de dois garotos amigos, um rico, Mateus, e um pobre, Carlinhos. Narrativa em estilo coloquial, simples, na primeira pessoa, e em que predominam os diálogos.

Era dia de prova de Matemática em um Grupo Escolar. A professora anunciou que iria dar zero a todo mundo que não comparecesse à prova. E Carlinhos, o menino pobre, não compareceu.

Mateus quedou pensativo, lembrando-se das conversas que mantivera com Carlinhos e do dia em que fora visitar o seu barraco, no bairro Cristo Redentor.

Carlinhos era órfão. Seu pai morrera soterrado, quando do desabamento do Conjunto da Gameleira, em Belo Horizonte, em 1971. Sua mãe era lavadeira. Não conseguiram receber do INPS, pela morte do pai. O dinheiro mal dava para a comida.

O menino pobre, além de perder a prova, deixou de assistir à aula, dois dias seguidos. Quando apareceu, estava com o pé inchado. Contraíra bicho-do-pé; extraíra-o com agulha velha, provocando infecção.

Apesar da intervenção de Mateus, a professora, sem considerar a possibilidade de dar nova chance, sentenciou:

– Carlos Pio da Silva, nota z-e-r-o!

Como Carlinhos se decidisse a deixar a escola, a professora também se decidiu a marcar prova para ele noutro dia.

Chegou o dia da prova e Carlinhos não estava…

O final, deixo-o à surpresa do leitor.

A tragédia não é contada aqui para não desestimular o leitor a ler o livro todo, antecipando o final da história. Em todo caso, impressiona, comove, sensibiliza constatar que, para Carlinhos, como para tantas crianças brasileiras, de barriga vazia, a escola é sopa.

A leitura do livro de Márcio Almeida vale como apelo. Dar de comer a quem tem fome é obra de caridade, até de misericórdia e, no plano político, a grande prioridade social, num país onde a escola é sopa, e a fome não é zero. – Ou é nota z-e-r-o!

Para que isso não aconteça: “É preciso sempre praticar a justiça antes de exercer a caridade” (Malebranche).

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