Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)
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“É preciso criar um movimento de sensibilização social de que a educação é a chave que abre todas as portas – portas do conhecimento, portas da cultura, da ciência, da tecnologia, do bem-estar social, do trabalho e, principalmente, a porta da autodeterminação e da consciência cidadã.”

A ABMES está comemorando seu trigésimo oitavo aniversário dentro da maior crise de saúde que o mundo moderno já passou. No momento em que escrevemos, a Covid-19 já infectou mais de 18,3 milhões de pessoas no mundo e já ocasionou mais de 700 mil mortes. O mundo parou, os negócios das grandes e das pequenas empresas foram atingidos e a economia estagnou com números preocupantes. As pessoas acostumaram-se a trabalhar em casa e, incrédulas, refletiam sobre como um simples vírus podia fazer uma chacina dessas. No Brasil, os dados oficiais do Ministério da Saúde apontam quase 3 milhões de infectados e logo ultrapassaremos os 100 mil óbitos. Uma tragédia humana que alcançou nossa sociedade, suas organizações e a economia.

Nos artigos de aniversário da ABMES dos anos anteriores sempre enalteci o trabalho desempenhado por suas gestões, em razão de dar continuidade aos sonhos de seus fundadores, que é o de defender a causa da liberdade da iniciativa particular de ensinar e de formar cidadãos competentes. Mostrava sempre o trabalho dos presidentes e seus diretores, enfatizando os desempenhos de Candido Mendes, de Édson Franco, deste articulista quando presidente e de José Janguie Diniz em prol da ABMES.

E o cenário atual demonstrou que, para ser presidente, precisa estar vocacionado, motivo de relatar as principais atividades do atual presidente Celso Niskier e de sua administração, no período de março a julho deste ano, para enfrentar os problemas do ensino superior em meio à pandemia: somente no período de março a julho de 2020, foram mais de 1.100 atendimentos realizados, 383 ofícios enviados (entre órgãos do governo, autoridades do Executivo e Legislativo); 175 informes e comunicados; 15 vídeos explicativos sobre as normas publicadas neste cenário de pandemia; acompanhamento de mais de 115 normas publicadas pelos órgãos oficiais; mais de 380 horas em reuniões e atendimentos por videoconferência; realização de 4 coletivas de imprensa online; mais de 100 mil visualizações no YouTube, com 15,3 mil horas de tempo em exibição; condução e apoio ao manifesto #EducaçãoMaisForte, que alcançou quase 4 milhões de pessoas e teve cerca de 50 matérias divulgadas; participação no “Manifesto em defesa da Democracia e do Judiciário”, da Associação dos Magistrados Brasileiros; participação e apoio na campanha nacional “Movimento ar – #VidasNegrasImportam”, da Faculdade Zumbi dos Palmares, além de muitas outras atividades.

Ao acompanhar os canais de comunicação da Associação é possível constatar que não só a qualidade dos serviços prestados foi mantida como o volume de ações se intensificou, com a realização de atendimentos aos associados e a promoção de eventos virtuais de grande relevância para o debate.

Muitas oportunidades surgiram com as situações que todos nós nos vimos obrigados a enfrentar. Mas a pandemia da Covid-19 veio mostrar que nenhum país estava preparado para enfrentar uma situação como essa. E falta muito ainda para a doença ser dizimadas e, por isso, todos os esforços das nações devem estar orientados para vencer esse desafio. É o que estão fazendo a OMS – Organização Mundial da Saúde, as instituições científicas e universidades do mundo todo, de forma solidária, concentrando esforços para criar medicamentos para curar os infectados e vacinas inibidoras da ação da doença.

Mas uma questão ficou clara, como escreve Thomás Piketty no livro Capital e Ideologia, recém lançado, ao focar as razões do subdesenvolvimento:

“Inegavelmente, o mundo sofre de uma crise perversa de desigualdade econômica (de renda e patrimônio); de políticas (de poder em processo de decisão coletiva, públicas ou privadas) ou sociais (acesso de bens ou serviços como educação de saúde).”

E, infelizmente, isso está escandalosamente constatado e visível no Brasil, com a nossa secular e insensível diferenciação social que mostra a vida que levam nossas comunidades desassistidas. O coronavírus desnudou e apontou com mais realismo os problemas do nosso país: desigualdade social; desigualdade econômica; desigualdade política; desigualdade de qualidade de vida; desigualdade no saneamento; desigualdade na saúde e desigualdade na educação.

Sem falar da falta de oportunidades de trabalho. Está evidente que não temos uma educação condizente para preparar os profissionais para enfrentar os desafios do futuro. Para as instituições educacionais, agora mais do que nunca, ficaram mais evidentes os grandes desafios que surgem pela frente:

  • Como preparar nossos estudantes para viverem num mundo repleto de transformações radicais e de incertezas?
  • O que devemos ensinar aos nossos alunos para poderem sobreviver num ambiente caótico como o nosso?
  • Que tipo de habilidades vão precisar ter para conseguir trabalho e para empreender?
  • E, principalmente, como aprender num mundo onde tudo muda a cada instante?

Antes mesmo da pandemia, em diversos países já eram feitas críticas aos sistemas universitários, alertando que o mercado de trabalho colocava restrições ao processo formativo, pois ele não atendia ao perfil de competências exigidas para o desempenho profissional. A maior evidência é que a universidade não saiu da segunda revolução industrial e não se adequou às transformações do mundo moderno. O mais sintomático de tudo é a obsolescência do valor do diploma superior, devido às constantes mudanças tecnológicas e dos ambientes de trabalho.

Por outro lado, no plano real foi um dos setores mais atingidos em sua estrutura econômica pela pandemia. Todos os níveis, do fundamental ao superior, estão sofrendo com as adaptações necessárias e os reflexos da crise atingem os profissionais, os alunos e suas famílias. E tudo isso só vai ser resolvido quando tivermos uma vacina que imunize toda a população. Mas um fato e incontestável: nada mais será como antes.

A escola padrão século XX está com os dias contados. O aluno está mudando, o mundo se transformando a cada momento. As estruturas físicas existentes não se adequam   mais aos novos desafios educacionais, porque as novas formas de trabalho exigem aprendizado contínuo para a vida.

Nesse cenário tornou-se uma verdade o que já vinha sendo sinalizado de que os profissionais do aprendizado deverão dominar não só os conteúdos, mas as práticas de como seus aprendizes podem resolver problemas. Está claro que a tecnologia (que é apenas um meio facilitador), hoje cada vez mais presente, deverá ser encarada como parceira e não como adversária.

Além disso, é forçoso reconhecer que precisamos criar políticas públicas para o país se desenvolver com sustentabilidade e com oportunidade de trabalho para todos terem melhor qualidade de vida. Estamos sem norte e sem um projeto de estado. São desafios extraordinários de transformação do país que podem levar décadas para serem resolvidos, se agora todos criarem consciência de que devem ser parte da solução e não do problema.

Porém, a chave de tudo é a educação. E é dentro dessa perspectiva que vejo o importante papel desempenhado pela ABMES e a necessidade que adveio da crise em promover o Movimento de conscientização da sociedade brasileira pelo valor da educação como única forma de dar possibilidade para que as pessoas tenham melhor expectativas de futuro para os seus familiares e de promover o desenvolvimento para o país. O projeto teria os seguintes objetivos:

  1. Criar um movimento de sensibilização social de que a educação é a chave que abre todas as portas – portas do conhecimento, portas da cultura, da ciência, da tecnologia, do bem estar social, do trabalho e, principalmente, a porta da autodeterminação e da consciência cidadã;
  2. Organizar um grupo de trabalho para propor ações concretas de como as associações da sociedade civil podem contribuir, através de seus associados, para, em suas comunidades, trabalhar pela melhoria da educação através de ações de voluntariado, como mutirões da “Essa Escola é Nossa”, visando que em cada comunidade se crie a consciência de que a melhoria da educação depende de cada um, de cada família, de cada empresa, de cada associação;
  3. Promover ações concretas com vistas a monitorar os estados e municípios onde a educação apresenta os maiores problemas de infraestrutura quanto a  construções, equipamentos, matérias de ensino-aprendizagem e, a partir dos resultados, promover mutirões de arrecadação de livros, computadores, materiais de limpeza, visitas de apoio às famílias, alunos e professores para dizer “estamos juntos na luta pela causa da educação”;
  4. Promover o programa de incentivo à “adoção” de uma escola de seu bairro, de sua cidade, de sua comunidade e para monitorar seu funcionamento e sentir seus problemas de modo a juntar esforços para resolve-los. A escola deve ser um ambiente agradável. Você pode fiscalizar para que nada falte à escola, desde pintura, água, sanitários, ambiente de lazer, sala de professores, acesso a internet, apoio aos professores na produção de matérias didáticos e outros;
  5. Criar uma agenda permanente que permita ter acesso a informações da realidade de cada sistema, seus componentes seu funcionamento e, assim, permitir que as associações direcionem seus esforços;
  6. Juntar-se a organismos como “Todos pela Educação” de forma concreta perguntando a cada um: O que você pode fazer pela educação onde você mora? Pode contribuir com o caixa escolar? Pode doar um pouco de seu tempo semanalmente? Pode dedicar tempo para dar assistência a alunos e professores? Pode conhecer as famílias dos alunos e sentir suas necessidades? Enfim, passar o recado de que juntos seremos mais fortes pela educação;
  7. Fomentar a ABMES como uma associação promotora da educação, criando uma agenda positiva e concreta, para colaborar com o estado, com as empresas, com a sociedade e com as famílias para que de fato a educação seja um bem perseguido por todos;
  8. Tornar a ABMES um espaço aberto para a reflexão contínua da realidade brasileira, propondo ações e articulando-se com as demais organizações da sociedade civil e com o Estado para, juntos, todos lutarem pela educação como única saída para resolver os problemas e criar um país onde não exista a palavra desigualdade.

Evidentemente são temas que precisam ser aperfeiçoados e viabilizados, mas tenho convicção de que se a iniciativa particular não pensar grande e não valorizar os seus serviços, com novas propostas educacionais, nenhum organismo governamental será capaz de fazê-lo. E tenho certeza de que, dando certo, nunca mais faltarão alunos para nossas instituições.

Feliz 38º Aniversario!

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3 Respostas para “Movimento de conscientização da sociedade brasileira pelo valor da educação”

  • Carmen Maia says:

    Muito bom seu artigo. muito lucido e achei boa a ideia do movimento, mas talvez, no momento, precise ser alguma coisa mais concreta ou pontual, tentando salvar o ano de muitas criancas que nao tiveram aulas on line, ou talvez fazendo um mutirao para arrecadar computadores velhos, celulares (vi uma ong que faz isso, acho que chama “tira da gaveta”), mas ‘e uma situacao muito dificil, e muito desigual. vendo os estudantes falarem sobre o enem que nao tinham nem aulas online, nem computador , nem acesso a tecnologia. ou seja, como podem competir com estudantes de classe alta com acesso a aulas, computadores e comida!!!
    Muito difícil essa situação, muito desigual, porém importante como vc disse de conscientizar que “So Educação Salva (“SES) . Aliás, bom nome pro mutirão!!

     
  • WANDY CAVALHEIRO says:

    Caro Gabriel,
    Tendo acompanhado a ABMES ha tantos anos sei que este seu desejo é antigo, mas neste momento onde todas as mazelas do Brasil foram tão escancaradas,talvez seja o melhor momento para que a ABMES mobilize empresários,sociedade(famílias,alunos, professores) a doarem recursos de todos os tipos em prol da educação. A educação precisa de recursos financeiros e recursos humanos (prestação de serviços voluntários).Se todos forem sensibilizados a dar sua contribuição quem sabe a educação do Brasil avance.

     
  • O COVID-19 atingiu o sistema de ensino como um tsunami, alterando regras, hábitos e normas estabelecidas há muito tempo. Membros do corpo docente, administradores e estudantes se esforçaram para reajustar rapidamente e encontrar seu rumo dentro de um cenário educacional alterado. Fato é, que as fragilidades das instituições públicas foram evidenciadas, bem como foi evidenciada a rapidez com que boa parte das instituições privadas se reajustaram às circunstâncias sem precedentes da pandemia, concentrando-se na transição para o aprendizado on-line.
    Como acontece após todas as crises sociais, a pandemia do COVID-19 certamente levará muitas instituições de ensino superior a fazerem um balanço de suas missões, estruturas existentes e currículo. O fato é que colaborou para uma inovação realmente disruptiva e tirou a todos da zona de conforto.

     

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