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Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Nosso grande desafio é promover a integração universidade-empresa no processo de apropriação do conhecimento científico, pois se não houver aplicação, não houve a demanda, ou seja, não há interesse empresarial e, consequentemente, qualquer inovação.” (Benedito Guimarães Aguiar Neto, Reitor da Universidade Presbiteriana Mackenzie)

No ano passado, a revista Isto É Dinheiro publicou uma matéria sobre “As startups mais promissoras do Brasil”, que relatou a história de empresas que valem no mercado mais de um bilhão de dólares, fruto de sacadas de empreendedores que criaram suas startups a partir de situações inusitadas, aproveitando oportunidades em mercados pouco explorados, com persistência e obstinação por uma ideia.

A Netshoes é uma dessas empresas. Dois primos, Marcio Kumruian e Hagop Chabab, nos idos de 2000, tinham uma lojinha de 49m2 perto da universidade Mackenzie, onde vendiam calçados esportivos a estudantes. O negócio ia vagarosamente até que tiveram a ideia de negociar artigos esportivos pela internet. O sucesso foi imediato e em pouco tempo conseguiram alcançar os países latino-americanos. Em 2015 já era considerada a maior loja de comercio eletrônico de artigos esportivos do mundo e hoje vende uma grande variedade de produtos.

É lógico que esses empresários precisaram de ajuda. Ter boas ideias é importante, mas só isso não resolve nada. As ideias precisam ser aceitas pelo mercado. Precisam de recursos humanos compatíveis além de recursos financeiros para crescer. É aí que surgem as aceleradoras para apoiar empresas iniciantes e, principalmente, trazer recursos de investidores em negócios que acreditam.

Aceleradoras são empresas geralmente com capacidade de investimento próprio, que ambientam em seu entorno empreendedores, investidores, pesquisadores, empresários, mentores de negócios e fundos de investimento. Oferecem programas orientados ao desenvolvimento de startups, como infraestrutura física, mentorias, assessoria jurídica e contábil e acesso a capital de risco, por meio de sua rede de relacionamentos.

Yuri Gitahy, fundador da Aceleradora (a primeira aceleradora de startups do Brasil) explica a distinção entre a incubadora e a aceleradora:

  1. As incubadoras buscam apoiar pequenas empresas de acordo com alguma orientação governamental ou regional. Por exemplo, incentivar projetos de biotecnologia devido à proximidade de algum centro de pesquisa nessa área, ou fomentar a indústria de telecomunicações em uma região que precisa de expansão nesse setor.
  2. As aceleradoras, são focadas não em uma necessidade prévia, mas sim em empresas que tenham o potencial para crescerem muito rápido. Justamente por isso, aceleradoras buscam startups escaláveis (e não somente uma pequena empresa promissora).
  3. As incubadoras pedirão seu plano de negócio, e as aceleradoras estudarão seu modelo de negócio. A verba pública que apoia as incubadoras pede maior formalidade e transparência na avaliação de projetos. As aceleradoras apostam somente em uma boa ideia.
  4. As aceleradoras usam capital privado e são lideradas por empreendedores ou investidores experientes, enquanto incubadoras, tem verbas do governo para mediar o poder público, as universidades e empresas.
  5. Enquanto aceleradoras são apoiadas por mentoria – seja em palestras ou conversas pessoais entre empreendedor e mentor – as incubadoras são baseadas no modelo tradicional de consultores contratados.

Diferenças entre as aceleradoras e incubadoras:

Aceleradora Incubadora
Negócio inovador Tradicional
Capital privado Verbas públicas
Modelo de Negócio Plano de Negócios
Mercado Editais
Empreendedores e investidores (Risco) Gestores (operacional)
Pensamento global Regional
Escalável Pequeno negócio
Mentoria Consultoria
Podem apostar um uma ideia Apostam em um negócio
Informalidade Formalidade
Sem necessidade de espaço físico Geralmente oferecem espaço físico

Todos sabem que o Brasil se destaca na pós-graduação pela participação em número de papers. O problema é que não sabemos transformar conhecimento em riqueza. A universidade não valoriza o empreendedorismo em suas atividades. Mas um fator é certo: não há como pensar em inovação sem universidades.

Citei no artigo anterior (As incubadoras e os empreendedores inovadores) a iniciativa instigante da Anhembi Morumbi, orientada pela aceleradora AmazonasCap. Mas nos EUA o empreendedorismo é a causa da inovação.

A Babson College, considerada uma das escolas mais empreendedoras do mundo, é um exemplo que demonstra isto. Há muitos anos que seus estudantes têm a maior parte do aprendizado baseado na ideia de negócio próprio. Usam a metodologia do Pensamento e Ação Empresarial® como proposta central do currículo. Os alunos ficam imersos no negócio desde o primeiro dia no campus.

Para tornar a metodologia empreendedora mais real e prática, estruturou o Babson College Fund (BCF), um fundo de investimentos de U$ 2 milhões baseado na captação com doadores, administrado pelos próprios estudantes, que financia laboratórios e aportes nas startups criadas por eles mesmos. Um ecossistema arrojado, criativo e inspirador para que outras instituições de ensino superior pelo mundo possam articular iniciativas nessa promissora linha de atuação.

No Brasil também é possível um modelo de ensino empreendedor no qual o aluno aprende, desde o primeiro dia de aula, a viabilizar um negócio próprio, participando de um ecossistema que conte com mentoria, orientação de gestão e tecnológica, acesso a uma rede de laboratórios de pesquisa e desenvolvimento, centros de inovação e parques tecnológicos, bem como a Fundos de Investimentos estruturados para oferecer fomento e financiamento.

Nosso objetivo aqui é sempre o de estimular novas ideias e provocar a reflexão sobre o papel das instituições de ensino superior no novo contexto global. Sabemos que, para a inovação acontecer e as “fábricas de empresas” surgirem, não basta escrever um artigo. É preciso vontade política e ousadia e que governo, empresas e universidades caminhem juntos.

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Uma resposta para “Não há como pensar em inovação sem universidades”

  • O papel das universidades em ecossistemas de empreendedorismo e inovação é indiscutível. Vale lembrar que os dois maiores unicórnios brasileiros nasceram dentro da USP e meu filho teve o orgulho de mentoriá-los. A primeira delas a 99 táxis, vendida para China em janeiro de 2018. A segunda a NuBank que obteve um aporte de capital extraordinário. Outras estão chegando e em breve as universidades privadas entenderão o poder e a necessidade de se investir em startups.

     

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