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Ronaldo Mota
Diretor Científico da Digital Pages e membro da Academia Brasileira de Educação
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Vivemos atualmente no Brasil o risco efetivo de uma fuga em massa de cérebros, o que significaria cristalizar de vez nossa dificuldade extrema de competirmos, em termos de produtos e serviços, em escala global. Sem ciência, sem inovação e sem capacidade tecnológica instalada, estaríamos decretando nosso destino de sermos um país, na melhor das hipóteses, exportador de materiais primas e de alimentos sem valor agregado. Assim, em um mundo impregnado pelos avanços das tecnologias digitais e suas consequências na vida cotidiana, ocuparíamos, enquanto nação, o espaço de meros passivos e acríticos consumidores.  

Este êxodo em curso acelerado é fruto da queda nos investimentos em pesquisa, tanto pura como aplicada, e em inovação, seja ela tecnológica ou não. Na verdade, os dados apontam que as verbas destinadas às agências de fomento à pesquisa e à inovação têm caído nos últimos anos, mas,neste ano, a situação se agravou mais ainda. Em 2019, configura-se um contingenciamento de 30% no Ministério da Educação (MEC) e de 42% na pasta de Ciência e Tecnologia (MCTIC).

Um dos principais afetados é o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), que provê parte relevante dos recursos à pesquisa científica.A título de exemplo, um dos programas mais estratégicos do CNPq é o de Bolsa de Pesquisa e Produtividade. O Programa é de custo relativamente barato, mas de estímulo crucial àqueles que se dedicam à produção de conhecimento de ponta no país. São menos de uma centena de milhares de pesquisadores, os quais passam pelo exigente crivo de comitês de especialistas, que respondem pela maior parte do conhecimento de fronteira que é produzido no cenário acadêmico nacional.

Com os cortes recentes, as bolsas de pesquisa têm sido pagas por suplementações emergenciais, mas sem nenhuma garantia da continuidade do próprio Programa. Ou seja, mesmo que, esperançosamente, findem por receber, os cientistas já se sentem suficientemente frustrados ao ponto de procurarem, de imediato, oportunidades no exterior. São naturalmente atraídos por novos espaços onde possam, com maior tranquilidade, se dedicar às suas tarefas, que demandam condições adequadas de trabalho, persistência, concentração e respeito mínimo.

O Governo Federal prometeu, durante a campanha, elevar o investimento em ciência e tecnologia a 3% do PIB até o fim do mandato, mas a realidade, ao menos até aqui, tem sido bem diferente. O orçamento está em queda e distante de superarmos um percentual pouco acima de 1% do PIB, aqui considerando o total geral investido, tanto pela União como pelo setor privado. 

Um apagão de investimentos, somado a um estado geral de desalento espalhado pela comunidade científica, podem, na prática,quebrar a coluna vertebral do sistema de ciência e tecnologia. Este sistema, construído a duras penas desde a década de 1950, tem sido um processo longo e a sua destruição pode ser muito rápida. Se isso vier a ocorrer, sua futura reconstrução é uma possibilidade ainda distante e incerta.

Curiosamente é sim da natureza da ciência desejáveis processos migratórios de cientistas. É muito salutar que pesquisadores tenham experiências em muitos países. Portanto, não é necessariamente ruim que nossos talentos passem períodos fora, muito menos que possamos atrair cientistas dos demais países. Ao contrário, nada mais salutar do que esses intercâmbios, mas eles devem ser frutos de um processo estimulado e planejado; jamais motivados, unicamente,pela desesperança com a realidade local. Pior, muitas vezes, sem deixar laços que permitam compartilhar de forma multilateral os avanços futuros no conhecimento. 

Escrevo isso porque é preciso também ficar. Insisto porque é preciso, mais do que nunca, resistir. Tudo vale a pena, dado que há uma nação em construção que demanda ampliar seu nível de produtividade, que se reflita em produtos e serviços competitivos globalmente. Não temos como fazê-lo sem estarmos ancorados em profissionais preparados e fazendo uso e gerando produções científicas e tecnológicas no estado da arte. 

Em outras palavras, em nome de quem fica, dado que, voluntariamente, ficaremos, por favor: “não saiam sem nos dar tchau”.

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