Roney SignoriniProf. Roney Signorini
Assessor e Consultor Educacional
roney.signorini@superig.com.br

***

Sempre me fascinou a ambiência do transporte aéreo. Como a instituição do momento são as startups, me ocorreu fazer uma analogia e analisar os dois setores.

Assim como um itinerário nasce com o “plano de voo”, montado com muita atenção, com rotas de fuga para eventuais necessidades, rotas alternativas, etc., também a startup deve nascer com um business plan muito bem estruturado porque nenhum investidor deseja correr riscos além dos inerentes ao negócio. Enquanto ao primeiro se somam muita tecnologia e inovação, ao segundo se agrega, sobretudo, criatividade.

A aeronave, do hangar, taxia pela pista procurando o terminal pelo qual embarcará seus passageiros e em seguida pela cabeceira. Lá se posiciona aguardando ordem da torre de comando para rolar pela pista e alçar voo. Por trás dessa ação milhares de dólares desde a concepção da aeronave na prancheta, passando por milhares de particularidades até colocar-se o avião no ar. E nem sempre o céu é de brigadeiro.

Conheci Bedy Yang pelo noticiário, entrevistas e reportagens que apontam a paranaense de 37 anos como a bola da vez, a musa das startups. Ela fez o curso médio em Foz do Iguaçu e Administração na FGV (ignoro em qual unidade do país). O fato é que alçou voo internacional, em tapete mágico, desembarcando no Vale do Silício, com pós-graduação na Pensilvânia. É para poucos.

De então para cá, absolutamente fora de questão um “voo cego”, mas, determinada e segura de si, Bedy viu com olhos de lince o mercado possível para americanos e, sobretudo, para brasileiros. Tanto que iniciou com prudência tratativas de colocação de materiais artesanais nacionais na terra do Tio Sam, pela Bazaar Brazil. E deu certo. Depois criou o Brazil Innovators, por meio do qual encontra parceiros em potencial e aproxima negócios. É realmente uma vencedora. Empreendedora, carrega muito preparo cultural/intelectual e profissional. Diria que a moça é antes de tudo uma promoter de primeira linha.

Tem lá suas avaliações sobre o empreendedorismo brasileiro – que reputa muito tímido – e naturalmente deve refletir sobre a nossa realidade porque Bedy não surgiu para perder nem empatar. Assim, todo cuidado é pouco no trato de posicionamentos.

Aliás, vale uma análise histórica do trabalho espetacular desenvolvido aqui no Brasil pelo Sebrae, que inaugurou de forma quase semelhante um sem-número de startups ao longo dessas últimas décadas, vitoriosamente e, destaque-se, com dinheiro exclusivamente nacional. Como é produto nosso, pouco ou nada se fala. O programa televisivo Pequenas Empresas Grandes Negócios, apresentado há décadas, aos domingos, é outro campeão com atributos de grande incentivador de startups. Ao Sebrae, pouco se lhe dá e ao programa de TV os “interessados” estão dormindo no horário.

Aqui vale refletir se Bedy Yang, mentora da incubadora “500 Startups” considera os “senões”, os prós e os contras de quaisquer tratativas na formulação e projeção de novos empreendimentos, que considerem DNAs, morfologias, estruturas celulares de negócios e com isso alavanquem, de fato, e não só no papel das ilusões, aquilo que pode e deve ser o eixo duro do comércio: o futuro negociável com reciprocidades.

Quando Bedy deu o seu “start pessoal”, os tempos eram outros: 2000, 2005-2010?

De lá pra cá muita coisa mudou, ou melhor, tudo mudou, a partir da proposta do Ministro Levy. E aí, como ficam as coisas, os cenários? Dá pra continuar a voar ou, vamos ter de arremeter e baixar o avião no cerrado? A biruta do aeroporto está maluca, girando pelos quatro pontos cardeais sem serenar.

Fala-se que Bedy é uma caçadora de investidores mediando entre empreendedores e empresas interessadas em investir, mas essa era uma notícia de outubro de 2013, portanto, desnecessários aqui comentários adicionais. É possível que não existam mais investidores na praça e, se houver, com certeza fugirão da cena. E certamente ela sabe disso.

Por aqui, a iniciativa particular em educação não tem como investir em ações fora do currículo porque a receita das graduações mal se sustenta e não há outra fonte de renda.

Enquanto isso, a universidade pública claudica e abandona o empreendedorismo, embora ciente de ser a única forma de alavancar negócios, posições e estaturas geomundiais. A Associação Brasileira de Startups indica em seu site a existência de 949 startups no estado de São Paulo, 298 em Minas Gerais e 260 No Rio de Janeiro.

Ao mesmo tempo, tudo conspirando contra, a cultura brasileira é contra o risco. Senão, vejamos, brasileiro pobre quer Bolsa Família, remediado quer emprego público e rico quer usufruir das benesses do BNDES.

Talvez tudo explicado porque nossos colonizadores, ao contrário dos demais na América, foram diferentes só objetivando exportar matéria-prima, de forma predatória e não reconstrutiva, enquanto os demais na América espanhola quiseram construir nações.

Mas há que se registrar: nossa geografia e clima são diferentes dos do Vale do Silício e, enquanto nossa indústria só copia, não arriscamos por medo do fracasso. Somos acovardados na perda. O americano não, aprende com os infortúnios. Santa Catarina quer conquistar o posto no Brasil de ser uma vanguarda, tipo Silício. Quem viver verá.

A inovação é sempre integrada e correlacionada com a pesquisa. No Brasil, errado ou certo, o apoio à pesquisa acontece através do Ministério da Ciência e Tecnologia, que se volta mais ao academicismo do que à visão empresarial.
Para bem ou para o mal, isto se reflete no foco do financiamento dirigido mais para pesquisadores das universidades federais.

Por um lado, as IES privadas dão pouco ou quase nenhum apoio à área de pesquisa, particularmente no campo tecnológico, porque custa muito caro e com as receitas das mensalidades não é possível “encarar” essa criatura que insiste em se alojar nos laboratórios, sem o caça-fantasma do Estado. Financiar ou subsidiar a iniciativa particular sempre foi mais “negócio”, mas o corporativismo que todas as brasas atraem para as únicas sardinhas do cesto chegam a “fritar” ideias como se “pouco resultassem e não tivessem efetiva aplicabilidade ao mundo industrial”: é um aborto, um infanticídio de boas iniciativas, sempre presente e identificado o risco. Não por acaso, uma modesta dona de casa de Batatais inventou uma peça de plástico para lavar o arroz com patente mundial, sem contar com qualquer investidor, senão, mais tarde, ter o apoio da empresa Trol. É assim que tem que ser?

Por outro lado, as empresas privadas também pouco investem em pesquisa que levem a novas tecnologias, por paradoxal, porque inexiste pesquisa de fonte que possa embasar a(s) necessidade(s) de dita(s) pesquisa(s), para essa ou aquela finalidade/objetivo. Com isso, vamos surfando no tempo sem superar mazelas localizadas que dão péssimo significado ao cenário, pra não dizer que o resultado é um fracasso administrativo e mais, um desastre em todos os sentidos.

Como romper este círculo vicioso? Através de um novo papel governamental quando não há comunicação entre Ministérios, entre agentes de governança que deveriam nortear projetos, não de partidos, mas de governo?
Arriscamos alguns palpites pontuais:
a) mudando a cultura do governo de apoiar um foco mais acadêmico para um foco mais empresarial;
b) oferecendo incentivos às IES particulares para apoiarem mais pesquisa tecnológica;
c) criando estímulos para os alunos se envolverem mais em processos criativos que levem ao desenvolvimento de novos negócios, em especial utilizando tecnologia de ponta;
d) incentivando fundos de investimento a apoiarem o desenvolvimento de startups;
e) difundindo e apoiando programas de intercâmbio no ensino superior entre o Brasil e países na vanguarda desta área (USA, Grã Bretanha, Alemanha, etc.);
f) oferecendo bolsas de estudo para formação complementar no exterior, tanto para professores quanto para alunos.

O clima é confuso, há divergências, há contraposições a que a maior cena de startups brasileiras, localizadas em São Paulo, está marcada por pulverização.
É o que diz Ligia Aguilhar, constatando alguns dados e informações que ao mesmo tempo desestimulam e desvanecem quaisquer projetos diante da realidade econômica do país, mas se mostram contraditórios com atitudes como as do empreendedor Marco Gomes, que, no fim de 2006, teve a ideia que culminou na criação da Ad Network (como são chamadas as plataformas que fazem uma ponte entre sites segmentados e anunciantes) Boo-Box. Sem um protótipo funcional, ele cadastrou no site de tecnologia americano TechCrunch a proposta de criar um sistema no qual blogueiros e donos de perfis famosos na web poderiam ganhar dinheiro veiculando publicidade, ao mesmo tempo que anunciantes ganhavam escala nas mídias sociais. Ele caiu nas graças dos editores e o artigo sobre o seu projeto logo atraiu investidores como o fundo Monashees. Foi quando ele largou uma carreira como funcionário público em Brasília para empreender em São Paulo.

Hoje referência no mercado brasileiro como um dos empreendedores mais bem-sucedidos da atualidade – sua empresa tem 1,5 mil clientes e foi considerada uma das mais inovadoras do mundo pelas revistas Fast Company e Forbes –, Gomes escolheu São Paulo como base de seu negócio por ser o local onde há concentração de dinheiro, clientes e investidores. Ele crê que muita coisa avançou na cidade, hoje com muito mais empreendedores de startups, mas aponta que a falta de informações continua.

Embora a Universidade de São Paulo (USP) tenha se esforçado para se tornar um polo de startups e embora abrigue há 20 anos centros de excelência como a incubadora Cietec, faltava à universidade um currículo mais “empreendedor”. Essa realidade começou a mudar nos últimos anos com a inclusão de disciplinas abertas para alunos de diversos cursos e a criação de um mestrado em empreendedorismo.

Nesse cenário ganhou força o Núcleo de Empreendedorismo da USP (NEU), que funciona dentro de um espaço equipado com computadores, mesas e impressoras 3D contando com 20 membros que organizam eventos para ensinar empreendedorismo e ajudar as startups no dia a dia. “Antes não falávamos a palavra empreendedorismo em voz alta. Hoje, a inovação é um dos eixos do nosso plano de metas”, diz o professor Guilherme Ary Plonski.

É muito importante analisar por que outras culturas – americana, europeia e asiática – carregam o empreendedorismo mais a fundo e a brasileira parece não dar valor/atenção a isso. Enquanto algumas universidades particulares falam um pouco sobre startups, as públicas parece se voltam mais para a Academia e menos para negócios, na contramão da estrada planetária.

Avaliar

Deixe uma resposta

Números do Ensino Superior
Categorias
Autores
Arquivos
Visitantes
wordpress analytics