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Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“A educação deve produzir mais do que indivíduos que consigam ler, escrever e contar. Ela deve empoderar cidadãos globais, que consigam enfrentar os desafios do século 21”. (Ban-Ki- Moon, Word of Education Forum, Incheon, Unesco, 2015)

 No livro os “Robôs e o futuro do emprego”, o autor Martin Ford relembra o último   sermão de Martin Luther King Jr, na Catedral Nacional de Washington, em 31 de março de 1968, cinco dias antes de ser assassinado. Falando dos tempos difíceis, Luther King Jr cita a “tríplice revolução”, destaque do relatório do químico Linus Pauling e do economista Gunnar Myrdal, ambos Prêmios Nobel, que versava sobre os problemas da época, salientava o movimento dos Direitos Civis, a causa pela qual lutava, a ameaça da guerra nuclear e a automação.

O último tópico não teve muita ênfase em sua fala, mas o relato do original mostrava que a automação logo resultaria numa economia na qual uma produção ilimitada poderia ser obtida por sistemas de máquinas que tinham pouca cooperação por parte dos seres humanos. A consequência seria o desemprego em massa, a diminuição do poder de compra das populações e a paralização do crescimento da economia.

Em suas ações, o Comitê da tríplice revolução defendia o aumento dos investimentos em educação e projetos de utilidade pública para criar empregos e construção de casas. Em síntese como a educação pode capacitar para o trabalho e desenvolver a economia.

O item 5 do livro é sobre a transformação da educação superior e sua análise é similar às ideias do Prof. Paulo Vadas, que descreve as forças que estão impactando os sistemas educacionais nos Estados Unidos e que, guardadas as proporções, são as mesmas na educação brasileira:

  1. O alto custo do modelo tradicional e o relativo baixo retorno sobre o investimento feito pelo estudante;
  2. As tecnologias digitais que permitem o acesso à informação 24 horas por dia, sete dias por semana, em qualquer lugar do mundo de forma relativamente barata (autoaprendizagem);
  3. A robotização dos empregos que requerem mão-de-obra intensiva e que minimizam a necessidade de seres humanos, tornando obsoletas várias profissões e necessitando a constante profissionalização para se manter no mercado de trabalho;
  4. A obsolescência no tempo do valor de um diploma de nível superior devido às constantes mudanças tecnológicas e dos ambientes de trabalho;
  5. A certeza que o avanço tecnológico continuará a “abortar as” várias profissões, incluindo aquelas que têm sido consideradas “intocáveis”, como as áreas do direito, da medicina, do ensino e, até, das artes;
  6. A percepção, cada vez maior, é que o aluno tem, é que não encontra relevância e/ou pertinência nos estudos tradicionais; e que o Diploma não tem mais a capacidade de abrir as portas do mercado de trabalho.

Todos sabem que as mudanças vão ocorrer brusca e rapidamente. Só não temos certeza quais serão essas transformações, nem seus impactos, o que torna o planejamento de médio e longo prazos extremamente difícil.

Movimentos socioeconômicos, geopolíticos, tecnológicos e demográficos terão impacto direto no mercado de trabalho, no aparecimento e desaparecimento de profissões no contexto da Quarta Revolução Industrial formada pela era da robótica da inteligência avançada, da automação das máquinas e da aprendizagem remota. Todas as atividades humanas, empresariais e ambientais estão sentindo as transformações da tecnologia da informação e comunicação. Em todas as áreas estas mudanças radicais afetam as vidas das pessoas e vão atingir a maneira delas aprenderem, de conviverem e trabalharem e este é o desafio do ensino superior, de adequar-se. Para continuar a empreender, o setor deverá se ajustar aos novos tempos, que exigem ações que a mais ou menos dias deverão ser realizadas.

O título deste artigo foi baseado em publicação do seminário feito pelo Conselho Federal de Educação em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Ciência e Cultura (UNESCO), de 8 a 9 de dezembro de 2010, com vistas à década de 2011- 2020. Realizado, portanto, há nove anos. A intenção era entender a complexidade das mudanças na economia, na sociedade e na cultura e assimilar o que os sistemas de educação dos países estão planejando para desenvolver novas formas de aprendizagem, produção, gestão e aplicação do conhecimento. O desafio era analisar como a formação de capital humano poderia enfrentar estas transformações globais e viabilizar um mundo que possibilitasse trabalho a todos e construir sociedades mais justas e igualitárias

Estamos próximos à década 2021-2030 e, no lugar de tentarmos adivinhar o futuro, será melhor frente às realidades que vivenciamos analisar o que foi proposto pelo CNE e nos debruçarmos sobre a publicação das 162 páginas que retratam as ações recomendadas para ver o que foi viabilizado e deu certo. Não adianta ficar só no discurso.

Já é hora de irmos às práticas, à efetividade, pois os temas até debatidos em congressos, fóruns e outros eventos parecem consolidados, exigem, agora, ação e enfrentamento. Eles apontam para a complexidade dos desafios e indicam novas perspectivas de atuação. Descortina-se um cenário multifacetado, com tendências diversas, divergentes e contraditórias. Esses aspectos representam oportunidades de consolidar metas e estratégias que contribuam para atingir o objetivo de expansão da educação superior com qualidade e a mostrarmos comparativamente frente a modelos comprovados.

Para enfrentar os desafios da expansão qualificada nos próximos anos, precisamos de uma revisão e de uma discussão profunda do atual modelo de educação, considerando sua repercussão, tanto no setor público quanto no privado, reconhecendo particularmente o papel e a capacidade de as instituições de se reinventarem por meio da reflexão coletiva e do debate qualificado. Isso cabe não somente às IES, às empresas, mas também às organizações que regulam a educação no Brasil.

Eis o fato: não é mais admissível continuarmos todos nessa mesmice crítica sem que se deem ouvidos e aplicações práticas. Não adianta mais escalar o time e torcer para ganhar. Precisamos entrar em campo, disputar o jogo, usar as melhores estratégias e marcar os gols para vencer.

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Uma resposta para “O futuro da educação: desafios e perspectivas da educação brasileira para a próxima década”

  • valter stoiani says:

    O futuro da educação depende do valor que possamos dar a ela. E consequentemente do empenho para a sua implantação.
    No século XX , foram feitas descobertas revolucionárias.
    Freud com o inconsciente. Einstein com a relatividade . Darvin com a teoria da evolução.
    As descobertas esclareceram muitas dúvidas , mas principalmente deram origem a muitas outras.
    Mas a revolução que todas proporcionaram foi na área do pensamento e da lógica. A dúvida e as perguntas passaram a ser o principal meio de progresso.
    A lógica cartesiana que foi tão útil nas teorias Newtonianas para a era industrial , não mais se tornou suficiente , diante da nova realidade da física quântica e do principio de incerteza de Einsemberg. Se tornou necessário um pensamento baseado numa lógica para-consistente , que desse suporte ao pensamento sistemico ou no dizer de E.Morin complexo.
    Estas descobertas tiveram consequências imediatas no século XXI, nas diversas invenções alcançadas pela Inteligência humana .
    A economia passou de nacional à global.
    A ciência Newtoniana, para a ciência da relatividade de Einstein e da física quantica de M. Plank
    A tecnologia de manufaturados(hardware) para a de alta tecnologia ( sofware)
    A sociedade baseada na industria, passou a ser na de informação.
    Do imperativo da escolha única à possibilidade de escolhas múltiplas. Pela nova lógica.
    E do desconhecimento dos afetos e emoções , pela possibilidade do melhor conhecimento , consciência e controle emocional, pelo conhecimento do inconsciente.
    À resposta de COMO e QUEM implementar este novo paradigma educacional , tudo indica que não poderá ser feito por uma idéia , um lider , uma teoria mas pela união das forças das comunidades científicas.
    E das ccomunidade urbanas, onde se instala uma escola , na formação basica ou das pessoas pertencentes às comunidades universitárias , no que diz respeito às IES. Mas tudo indica que a grande trasnformação necessária tanto na educação básica e também nas IES , será da maneira de pensar. Não somente para obter respostas, mas para suscitar mais dúvidas e perguntas, que são as forças propulsoras do progresso.

     

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