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Arthur Roquete1Arthur Roquete de Macedo
Membro do Conselho Nacional da Educação (CNE)
Chanceler da Laureate São Paulo
Ex. Reitor da UNESP
***

Para poder tecer conjecturas sobre o futuro da Educação Superior no Brasil, é indispensável olhar pelo retrovisor. Adotando este procedimento, constatamos que o Ensino Superior no Brasil apresentou uma expansão sem precedentes nas últimas 4 décadas. Entretanto, este crescimento exponencial se deu em termos numéricos sem que fosse acompanhado pelo aprimoramento da qualidade do ensino e da manutenção do equilíbrio entre os cursos de graduação nas diferentes áreas de conhecimento. Esta realidade ocorreu em função da ausência de regulação pelo MEC e CNE no acompanhamento do processo expansivo. É importante destacar alguns aspectos desse desequilíbrio:

1 – Diferença quantitativa entre os cursos criados. A oferta cresceu principalmente nas áreas de Ciências Sociais Aplicadas, Educação e da Saúde, e nesta em cursos que necessitam de menor investimento. Não foram autorizados até o início do século XXI em número razoável e de acordo com as necessidades do país cursos como o de Medicina e nas áreas de Exatas e Engenharias;

2 – Não foram levadas em consideração a distribuição e as diversidades regionais;

3 – Predominância absoluta de oferta de cursos noturnos;

4 – Desproporção enorme entre o crescimento do setor público (mais antigo e consolidado) quando comparado com a grande expansão do setor particular de ensino;

5 – Ausência de corpo docente qualificado e de infraestrutura em algumas regiões brasileiras;

6 – Não houve por parte do MEC e do CNE um acompanhamento do processo de expansão de modo a evitar a concentração dos cursos em áreas de conhecimento ou de regiões do país.

Algumas dessas deficiências foram sanadas principalmente nos últimos 15 anos. E isso correu por conta de significativa evolução do setor privado. Em contrapartida ao setor público, que permaneceu estagnado, o setor privado avançou apresentando melhora significativa da qualidade do corpo docente devido ao aumento de mestres e doutores; na elevação de investimentos em infraestrutura; no aperfeiçoamento do processo de autoavaliação e na realização de considerável esforço no desenvolvimento de projetos de extensão e atendimento a comunidade.

O processo de expansão do sistema particular de ensino promoveu a inclusão social, com o aumento de matrículas de estudantes provenientes dos extratos socioeconômico menos favorecidos. Esta ampliação ficou longe de melhorar substantivamente o percentual de jovens de faixa de 21 a 25 anos de idade cursando o ensino superior. Hoje, o percentual de 18% no Brasil continua sendo menor que na maioria dos países latino-americanos.

Deve ser ressaltado ainda que embora o ProUni e o FIES tenham sido importantes para o crescimento das matrículas, a expansão seria maior se a implementação desses programas de financiamento tivesse obedecido a critérios mais adequados, sem interrupção de continuidade e em escala crescente. Também não se pode evitar de registrar aqui que atualmente o ProUni e o FIES apresentam dificuldades para prosseguirem nos mesmos níveis já alcançados no país.

Não obstante, o cenário da Educação Superior no Brasil está mudando em razão:

1 – Dos Processos de aquisição, associação e incorporações que ocorreram nos últimos anos com a formação de conglomerados educacionais de maior porte e com mais recursos para investimentos;

2 – Da implantação e desenvolvimento da EAD nos grandes centros e nas mais remotas regiões do país;

3 – Do crescimento da oferta da pós-graduação lato sensu;

4 – Da maior competitividade entre as IES’s;

5 – Do Processo de Regulação do MEC exigindo corpo docente mais qualificado, com formação mínima de especialista, e com o crescimento do número de mestres e doutores contratados pelas IES;

6 – Processo de Internacionalização promovido pelo crescimento de convênios, do ensino a distância e de estágios no exterior.

Não considero o futuro sombrio, pelo contrário, haverá um amadurecimento do setor da Educação Superior brasileira. Entretanto, é necessário avançar em alguns aspectos econômicos e acadêmicos.

Um ponto crucial é o financiamento do estudante numa realidade em que o crescimento econômico é seletivo e desigual o que vai promover o aumento menor das matrículas de estudantes das classes C e D. Nesse contexto, considerando que o financiamento público nunca será o suficiente, será vital a criação de possibilidades do financiamento privado.

Outro desafio está na busca de qualidade acadêmica que deverá ser a responsável pelo fornecimento de quadros para promover o desenvolvimento sustentado do país. Para isto serão necessárias:

a) A modernização das diretrizes curriculares e da metodologia de ensino, priorizando uma formação em consonância com as necessidades do país, a competitividade internacional e o avanço tecnológico.

b) A formação global do aluno que lhe garanta potencial para acompanhar as transformações sociais e o estado da arte.

c) A ampliação dos cenários de ensino aprendizagem, o domínio de procedimentos de TI, de Computação e o desenvolvimento das competências socioemocionais dando condições ao aluno para adaptar-se às exigências do crescimento e do desenvolvimento do país, e de fortalecer a auto estima, a liderança, a iniciativa, o trabalho em equipe e o exercício da cidadania e da ética. Ampliação e aprimoramento da educação a distância.

d) Capacitação do corpo docente, responsável direto pela formação adequada para o portador de diploma de curso superior atuar no século XXI. É necessário romper a equação métodos pedagógicos do século XIX, professor do século XX e aluno do século XXI.

e) Desenvolvimento dos programas de capacitação discente como por exemplo as atividades de monitoria, e a implantação dos Programas: Pet; Ciência sem fronteira; e a Iniciação Científica, além do estímulo a monitoria.

Embora esses programas possam ser responsáveis pela inclusão do aluno e redução da evasão os objetivos principais são: a conquista de autonomia profissional, da autoestima e do crescimento intelectual do estudante.

Para consecução dos objetivos citados é fundamental o aprimoramento da qualidade acadêmica, com formação de quadros mais competentes. E necessariamente, terá que ser sustentado por uma gestão administrativa capaz de assegurar a boa situação econômica- financeira das Instituições.

Este futuro vai exigir uma gestão inovadora, ágil e flexível com a quebra de paradigmas tanto economico-administrativos, como acadêmicos atualmente em prática.

No geral, considero que deverá ser mantida a diversidade das IES’s, com o avanço dos grandes conglomerados educacionais, ao lado do aprimoramento de Instituições de menor porte, mas com elevada qualidade de ensino e pesquisa em áreas específicas de conhecimento. É necessária ainda a preservação das Faculdades e Institutos de Educação localizados em municípios de médio e pequeno porte, fundamentais para assegurar a capilaridade do ensino presencial a diversificação e o atendimento a demandas regionais.

O cenário é complexo e nada fácil, mas os agentes públicos e privados da educação brasileira, têm a experiência, o discernimento e a vontade para vencer mais esse desafio.

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Uma resposta para “O Futuro da Educação Superior no Brasil”

  • Angelo Palmisano says:

    Parabéns Prof. Dr. Arthur Roquete pelo excelente artigo publicado. Sua visão da educação superior brasileira, aliada a sua experiência e atuação na área, tem contribuído sobremaneira para que possamos atingir os índices de qualidade tão necessários no segmento.
    Suas ações propositivas representam a sinalização dos caminhos a serem trilhados em busca de uma formação adequada de nossos jovens em um país tão sofrido e maltratado como o nosso. Meus mais sinceros agradecimentos pelo seu trabalho e por apontar as reais possibilidades de enfrentamento aos desafios que se impõem. Forte Abraço.

     

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