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Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)
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“Em ambientes de alta incerteza, geralmente, buscamos minimizar as perdas. Mas as reais perdas, agora, não são econômicas apenas. As perdas irrecuperáveis e irreversíveis são as vidas. Nós podemos reconstruir a economia. Já fizemos no passado e vamos fazer novamente”. (Leonardo Augusto de Vasconcelos Gomes, Adriana Marotti de Mello e Ana Carolina de Aguiar Rodrigues, professores do Departamento de Administração da FEA/USP)

Semana passada comentei, em artigo, sobre o ensino básico e nesta escrevo sobre o ensino superior, onde as reflexões que faço não são nenhuma novidade. Há tempos, a demografia prevê a diminuição dos estudantes em função do menor número de filhos dos casais e as famílias de menor recursos não têm condições de pagar as mensalidades. Além disso, não há mais financiamento público significativo e aumentou sensivelmente a oferta de cursos a distância, que concorrem com quem oferecia cursos presenciais.

Não só no Brasil, a formação universitária perdeu prestígio nas empresas empregadoras e há o sentimento nas famílias da inutilidade de investir em educação. Por outro lado, ao meu ver, houve acomodação das instituições em repetir modelos antigos de planos curriculares, sem percepção nítida dos novos modelos de ensino. Os docentes repetiam as mesmas aulas durante infindáveis anos e os alunos não mais se conformavam em apenas de serem ouvintes. A universidade não saiu da segunda revolução industrial e não se adequou às transformações do mundo competitivo que muda a cada instante e não são acompanhados pela renovação de regulamentos e diretrizes curriculares. Em português claro, o sistema universitário está parado no tempo.

A realidade é que as tecnologias digitais permitem o acesso à informação 24 horas por dia, sete dias por semana, em qualquer lugar do mundo e oferecem, de forma relativamente barata, a autoaprendizagem. As ocupações são apoiadas pela inteligência artificial e exigem menos mão de obra. Novas profissões necessitam de preparação adequada e o retreinamento e o aprendizado por toda a vida será o novo normal. O que quer dizer que a busca por aprendizado constante exigirá outros modelos de transmissão de conhecimentos e treinamento.

Mas é no ensino superior que temos também o nosso maior gargalo, como ficou evidente na pandemia. Nossas instituições federais não estavam preparadas para ofertar educação não presencial (a chamada de aula remota) e, nesse cenário, o segmento particular mostrou mais agilidade e experiência.

Mas o que devemos observar é que nosso modelo já deu suficientes demonstrações de estar sem sintonia com a sociedade e está defasado, mesmo onde é financiado com recursos públicos. A realidade é que o sistema universitário está cercado por um estado regulador, que determina normas, indicadores, formulários e enquadramentos que nos induz a seguir esse formato, que traz como perversa consequência uma acomodação em todas as áreas e setores. Claro que temos ilhas de excelência na saúde, nas engenharias e nas ciências agrarias, entre outras, mas isso não serve de consolo, ao analisar o conjunto onde elas estatisticamente representam pouco. Devemos levar em conta que hoje o sistema formador não atende mais as exigências da sociedade que precisa se voltar para outros canais até mais ágeis no processo de aprendizagem. E nessa esteira que surgem todos os dias mais universidades corporativas e milhares de cursos são oferecidos nas diversas plataformas, objetivando dar ao indivíduo a formação necessária. Isso deveria ascender uma luz vermelha para o sistema formador, pois ou ele se transforma saindo da zona de conforto, se moderniza, se atualiza, se transforma ou perde a validade e credibilidade – e não será o Ministério da Educação que irá certificar ou não, mas sim as organizações sociais que sabem quais competências e habilidades que o ambiente laboral necessita.

Será que nosso modelo está superado? Talvez. Não foi a educação que ficou defasada, mas sim a forma como oferecemos os serviços que não mudaram. Ficamos na zona   de   conforto, ofertando cursos tradicionais, que o mercado ocupacional já deu sinais claros que não mais se adequam às suas necessidades e os remendos no processo de formação não resolvem. Precisamos sim fazer uma transformação, talvez uma remodelação completa a começar pelo sistema regulatório em parte responsável por isso. A burocracia é um dragão que cospe fogo no controle e é lenta na adequação às novas mudanças necessárias, urgentes e que estão atrasadas.

Precisamos colocar nossos olhos nos últimos dados do Enade para que nossas afirmações possam ser confirmadas e repensarmos para que serve avaliação para processos em extinção.

Na avaliação tradicional, os dados são irrefutáveis sem discutir instrumentos, informações e indicadores. Na escala medida os números mostram que estatisticamente a nota 5 ainda é modesta diante do número de cursos ofertados. A nota 4 subiu um pouco o que é positivo. Mas o que exige reflexão é a nota 3, onde centenas de cursos não conseguem avançar em uma, duas, três avaliações o que mostra a acomodação. Mas pior ainda é que temos centenas de cursos com nota 2 e mais de 240 com nota 1. O que isso significa? Sem discutir modelos de avaliação e se eles podem expressar qualidade, é sintoma que o sistema particular não vai bem.

Vimos nos últimos anos o aumento do número de diplomados no ensino universitário a mercê da educação não presencial. Todos querem um diploma e não há como negar que é um direito, mas temos que reconhecer que podemos estar banalizando o diploma universitário como se este fosse a única saída possível. Há um tipo de curso que seguramente seria muito importante para o momento de desenvolvimento brasileiro que são os cursos superiores de tecnologias com menor duração, o que não significa menor qualidade, menos informação, menos competências, habilidades e conhecimentos. E por quê? Porque nossos cursos universitários são longos demais em sua maioria com currículos excessivos, apesar de que, nos últimos anos, vimos começar a acontecer uma mudança saudável, talvez não pelo motivo desejado, mas para garantir a sustentabilidade.

E aí vem outro problema detectado pelos setores produtivos que empregam nossos diplomados. Eles não têm os requisitos necessários. Isso significa que o aluno frequentou, não aprendeu e de posse de um papel pensa que pode se candidatar a um posto de trabalho com boa expectativa salarial. Sabemos que, na média, quanto mais escolarizada a população há um aumento da renda e melhor qualidade de vida local.

2021 está chegando, os cenários são nebulosos e, fora a problemática do país estar há mais de 6 anos em grave crise econômica-social, há a acrescida pela pandemia. Embora tudo isto, as instituições educacionais estão se planejando para ultrapassar um dos maiores desafios de suas existências. Como vem fazendo neste 2020, a ABMES estará atuando em sua parte, trabalhando para apoiar seus associados em tudo que estiver ao seu alcance. E que os astros celestes iluminem o mundo político para encontrarem os mecanismos inteligentes para sairmos desse mundo de incertezas.

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Uma resposta para “O mundo muda a cada momento e a educação brasileira fica sempre na mesma – parte 2”

  • Edson Franco says:

    A ABMES se transformou numa entidade líder que tem contribuído para o crescimento qualitativo do ensino superior, empurrada por grandes mestres, como é o caso do Professor Gabriel Rodrigues e de Celso Niskier que comanda a ABMES.

     

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