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Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
***

“Como será o amanhã?
Responda quem puder.
O que irá me acontecer?
O meu destino será como Deus quiser.”
(João Sérgio[1])

Eles acordam cedo e vestem quase roupas idênticas. Passam o dia cercados por muros altos e compartilham as mesmas quatro paredes com mais outras 30 pessoas (quando não há superlotação), sempre obedientes às ordens de superiores. Quando soa um sinal, podem ir ao pátio divertir-se, tomar alguns minutos de sol e comer alguma coisa. Não, essa não é a descrição do dia a dia de presidiários. É assim que vivem milhares de alunos por este mundo afora, do maternal à universidade.

Esse modelo não tem mais lugar num ambiente onde a globalização, os avanços científicos e tecnológicos e a intercomunicação sob várias formas tornam o ritmo do ambiente frenético, dificultando a clareza e o entendimento da situação e prejudicando a identificação de ameaças para neutralizar, ou pelo menos minimizar, riscos e desafios para preparar as pessoas para o futuro.

Viviane Senna, há algum tempo, em entrevista à News Brasil, da BBC, foi taxativa:

“Se pudéssemos transportar um cirurgião do século 19 para um hospital de hoje, ele não teria ideia do que fazer. O mesmo vale para um operador da bolsa ou até para um piloto de avião do século passado. Não saberiam que botão apertar. Mas se o indivíduo transportado fosse um professor, encontraria na sala de aula deste século a mesma lousa, os mesmos alunos enfileirados. Saberia exatamente o que fazer. A escola ficou parada no tempo, preparando os alunos para um mundo que não existe mais”.

Lendo a tese do professor Antônio Luis Aulicino[2], da Faculdade de Economia, Administração e Atuária da Universidade de São Paulo (FEA-USP), que discorre sobre processo prospectivo, como a antecipação para orientar a ação, com apropriação, que implica ver longe, com amplitude, com profundidade e de maneira diferente. Ele explicava:

“As organizações estão num ambiente turbulento, que exige mudanças rápidas e algumas rupturas para gerar inovação de valor. Porém os modelos de previsão utilizam, somente, projeções de tendências, verificando-se não ser a melhor forma de enfrentar o futuro, porque as pessoas e as organizações não se preparam para isso, pela simples razão de acreditarem nas projeções que efetuam, quando enfrentar o futuro é gerir as incertezas e preparar as pessoas, da organização, para construir um futuro com base em reflexões, em conjunto e com apropriação” (grifo meu).

O que não é diferente para as instituições de ensino.

Para esse mundo turbulento em que vivemos hoje, teóricos do processo prospectivo criaram o termo VUCA[3], acrônimo originado nos anos 1990 no US Army War College, dos Estados Unidos, a partir das palavras volatility, uncertainty, complexity e ambiguity.

Em outras palavras, o novo cenário deste milênio traz diversos impactos por ser muito fluido e líquido, onde tudo muda muito rápido (volatilidade/volatility), temos dificuldade em enxergar e prever o futuro (incerteza/uncertainty). Além disso, fica cada vez mais difícil compreender o resultado das situações, pois não existe uma regra apenas (complexidade/complexity) e os problemas podem ter múltiplas saídas e respostas (ambiguidade/ambiguity).

Há alguns anos o escritor e palestrante Bob Johansen, do Instituto para o Futuro, no Vale do Silício, desenvolveu outro acrônimo – VUCA Prime – como antídoto ou caminho para lidar com os impactos do mundo VUCA e tentar superá-los. Para tanto, segundo ele, são necessários quatro atributos (que também se iniciam com as letras VUCA: Vision (Visão), Understanding (Entendimento), Clarity (Clareza) e Agility (Agilidade).

Assim, de acordo com Johansen, a Volatilidade pode ser combatida com a Visão, que exige uma resposta explícita a três perguntas: Por que estamos aqui? Como seremos bem-sucedidos? Quais são as nossas medidas de sucesso? Ainda que impactos sejam sentidos e alterações no planejamento aconteçam, a resiliência é o norte em meio à volatilidade: cada desafio encontrado pode ser uma nova oportunidade para aprender, construir ou inovar.

A Incerteza deve ser transformada em Entendimento para todos os participantes de um processo, a fim de proporcionar uma mentalidade compartilhada e compreensão de como eles podem contribuir para o sucesso de qualquer empreendimento.

Para gerar uma inteligência coletiva, Bob Johansen aposta nos relacionamentos, nas práticas de interação e na comunicação ativa (destacando a necessidade da escuta num mundo cada vez mais surdo ao outro), pois opiniões diferentes e construções colaborativas são cada vez mais valorizadas como forma de solução de problemas.

A flexibilidade é uma competência essencial para a adaptação constante a cenários imprevisíveis. O primeiro passo para ser mais flexível é buscar a aceitação e compreender que existem muitas formas de resolver o mesmo problema.

A Complexidade pode ser minimizada pela Clareza que vem da construção de estratégias focadas e transparentes para tomar decisões claras, baseadas na disponibilidade de informações e integridade. Ter clareza do propósito e dos resultados esperados como direcionadores é a forma mais eficaz de lidar com as mudanças, pois atualmente não existe mais um caminho estruturado e único para alcançar os objetivos.

Em contextos complexos, quanto mais ampla a visão, maior a probabilidade de encontrar soluções eficazes. Assim, é imperativo estudar diferentes assuntos, de áreas de conhecimento distintas. Equipes multidisciplinares são mais propensas a obter sucesso, pois aprendem a lidar com as diferenças.

Finalmente, a Ambiguidade pode ser combatida pela Agilidade, capacidade de responder de forma rápida, eficaz e sustentável quando as circunstâncias de mudança assim exigirem.

Estar aberto a cometer erros pode ser um excelente caminho para um ambiente de aprendizagem e bons resultados. Na escola, nosso esforço deve ser para que o processo de aprendizagem seja menos conteudista e mais focado no desenvolvimento e na preparação dos estudantes para os desafios do mundo atual. Ou seja, experiência a partir do desenvolvimento de competências e habilidades socioemocionais.

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[1] João Sérgio é compositor do samba-enredo “O amanhã”, de 1978, da G.R.E.S. União da Ilha do Governador.

[2] Veja também entrevista com Antonio Luiz Aulicino, que é presidente do Instituto para o Desenvolvimento Sustentável, sobre Práticas e Gestão de Sustentabilidade: www.youtube.com/watch?v=aMrfAOA0Lis

[3] Para quem quiser entender mais sobre o conceito VUCA, consultem as referências:
www.youtube.com/watch?v=ZuEF76Xs_Mw
www.youtube.com/watch?v=PRqaNB2E1P0

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Uma resposta para “O mundo mudou (e continuará mudando…)”

  • Há 11 anos participei de um grupo de professores que implantou a Incubadora de empresas e a área de Inovação em uma grande universidade. Um de nossos objetivos era promover um ambiente que resultasse na geração de novas empresas, produtos e patentes. Na época os professores de engenharia da IES foram categóricos em afirmar que desenvolver uma patente era uma missão quase impossível, e eu como o maior entusiasta era um sonhador. Esse exemplo pode confirmar a necessidade de mudança de mentalidade, pois o Brasil gera cerca de 40 mil patentes por anos enquanto os EUA 800 mil, e a China mais de 1 milhão. O Brasil precisa acordar urgente do berço explêndido, e implantar um sistema de ensino para e pela Inovação, baseado e aplicar os conhecimentos conteudistas na resolução de desafios reais, treinando os 4Cs: Pensamento Critico, Comunicação, Colaboração e Criatividade, em Laboratórios de alta tecnologia digital com aplicações nas verticais dos setores mais relevantes para o desenvolvimento econômico internacional do país: Agricultura, Alimentação, Economia Criativa, Eduação (Edutechs), Energias Renováveis, Finanças (Fintechs), Negócios de Impacto Social e Economia Compartilhada/ Colaborativa (para minimizar a alta concentração de renda) e TICs em geral. Se tivermos uma agenda nacional público e privada com engajamento da sociedade civil organizada com um planejamento estratégico de 10 anos para mudar o mind set de uma geração de brasileiros, que hoje econtram-se no ensino fundamental, daqui 20 anos poderemos assistir a uma significativa melhora.
    Seu artigo me provocou a refletir e me motivou a escrever aqui essas considerações, com intenção de provocar o senhor e os Mantendores do Ensino Superior a entenderem que esse desafio é do vosso setor, por favor, vamos colocar em prática.
    Atenciosamente
    Ricardo S. Zanotta
    Instituto Zanotta

     

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