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Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Temos um sistema que instrui e usa de forma fraudulenta a palavra educação para designar o que é apenas a transmissão de informações. É um programa que rouba a infância e a juventude das pessoas, ocupando-as com um conteúdo pesado, transmitido de maneira catedrática e inadequada. (…) Como esse monte de informações pode ser mais importante que o autoconhecimento de cada um? (…) A criança é preparada, por anos, para funcionar num sistema alienante, e não para desenvolver suas potencialidades intelectuais, amorosas, naturais e espontâneas.”
(Claudio Naranjo[1])

Hoje, mais do que nunca na história da humanidade, vivemos tempos de mudanças agitadas produzidas pelos avanços da ciência e da tecnologia que, ao mesmo tempo que sinalizam um futuro promissor e admirável, geram a pergunta que nos faz pensar: estamos preparados para nos apropriar desse futuro?

Na maior parte da sua trajetória, o ser humano   teve uma experiência local e linear: tudo acontecia à sua volta e havia pouca mudança em sua vida ao longo dos séculos. Como consequência, esse homem desenvolveu uma visão de mundo baseada na previsibilidade.

Porém, com a velocidade das mudanças da revolução digital e das novas tecnologias, desde o final do século passado, vivemos num mundo global e exponencial, em que a informação se democratizou. Qualquer um, em qualquer parte, desde que tenha acesso à internet, tem conteúdos a um clique ou a um toque na tela e a possibilidade de interagir com pessoas e com o mundo do conhecimento.

Esse universo hiperacelerado e complexo é completamente diferente daquele para o qual nosso cérebro se preparou para entender. Nele a globalização não é mais a simples movimentação de contêineres pelo mundo afora, mas o complexo fluxo de dados e conhecimento. Estamos passando do mundo interconectado para o mundo interdependente.

A proposta para reflexão e discussão é o fato de que uma criança que nasceu hoje terá por volta de 30 anos em 2050 e viverá uma realidade inimaginável,  inventada por escritores e cineastas e construída por cientistas. O que ensinar a essa criança que a ajude a enfrentar e superar os vários desafios, como o desemprego estrutural e o colapso iminente do meio ambiente? Que habilidades e competências os jovens precisarão ter para conseguir um trabalho/emprego, ou compreender o que está acontecendo à sua volta e intervir criativa, crítica e colaborativamente para solução de problemas?

O mundo inteiro e Brasil passam por momentos de inquietação e os países acossados por suas redes sociais exprimem toda a desigualdade em que vivem suas populações, ansiosas por maior qualidade de vida e bem-estar social. São tantos os problemas, de todos os tamanhos e de todas as áreas, sem planejamento algum e que demandam ações imediatas.

Isso me faz lembrar um labirinto de mil salas, onde todos gritam e não encontram o caminho da solução. Segundo a mitologia grega, o Labirinto de Creta foi construído pelo brilhante arquiteto e artesão Dédalo, a pedido do Rei Minos, para prender o Minotauro, personagem com corpo humano e cabeça de touro. O labirinto tinha inúmeros corredores, salas e galerias, todos criados para nunca se achar a saída. O rei Minos, vitorioso em suas batalhas, exigia como tributo dos derrotados serem devorados pelo Minotauro. O herói ateniense Teseu foi para Creta para pôr fim a essa situação. Chegando a Creta, despertou a paixão de Ariadne, filha de Minos, que arrumou uma maneira de salvar o seu herói. Deu-lhe uma espada mágica e um novelo que ele deveria desenrolar conforme penetrasse no labirinto e assim, depois de matar o Minotauro, conseguir encontrar o caminho de volta.

Tenho a plena convicção de que a educação, se souber se reinventar, terá o poder de ser o fio de Ariadne, capaz de conduzir o indivíduo neste labiríntico mundo novo, volátil, complexo e cheio de incertezas. Nesse universo em constante mudança, ela tem o poder de formar pessoas capazes de pôr ordem nesse aparente caos. Assim, uma das tarefas da escola, em todos os níveis, será ensinar a pensar para entender essa nova ordem das coisas.

Nesse mundo novo, a última coisa que um professor precisa dar aos seus alunos é mais informação. Eles já têm muito disso a um toque na tela de seu celular. Em vez disso, eles precisam dar sentido a essa informação, transformá-la em conhecimento. Porém, se não tiverem uma visão abrangente do seu eu e do seu ambiente, seu futuro será decidido ao acaso, à sua revelia. A coisa mais preciosa de que essa geração precisa é a apropriação, ser responsável por suas ações, decisões e escolhas.

São muitos os pensadores, cientistas, empreendedores da educação, em todos os cantos do globo, debruçados em estudos sobre tecnologias, metodologias, ensino de competências versus conteúdos para dar sentido à escola e à educação do futuro. O que se vê, realisticamente, é que todo mundo fala, critica, mas nada e ninguém muda. E nisso reside a condição de ser a educação a propulsão poderosa da transformação, ou seja, inexistirá um futuro se não alicerçarmos o presente. Há mil fios de Ariadne emaranhados, parecendo não sinalizar um caminho único, já que ele não existe. Isso é a educação atual.

Cada vez mais, ganha extrema importância o projeto de ensino na escola atual, quando o ciclo do desenvolvimento científico é cada vez mais curto. O aprendizado de hoje pode estar inoperante amanhã. Por isso, o foco não pode ser no conteúdo, que se renova constantemente, mas nas competências que permitem operar o conhecimento e colocá-lo em ação. Uma competência fundamental é ter um pensamento flexível para a diversidade de contextos em que viveremos. Educar, no século XXI, está ligado a formar pessoas capazes de aprender a conhecer, a conviver, a fazer, a ser.

A educação é uma dimensão da vida em sociedade que impacta todas as demais: incide sobre a qualidade da representação política, a distribuição de renda, o desenvolvimento econômico e a justiça social. É preciso, pois, que, no atual momento político, econômico, social, cultural, ela saia do plano da retórica e circule nos vários gabinetes do governo, seja pauta de encontros empresariais e passe a integrar a agenda de todo cidadão. Que seja uma política de Estado e não de governo, situação em que se torna refém de quatro anos de mandato.

Agilidade de decisões é agora palavra de ordem. O que se pleiteia hoje das escolas é a mudança de abordagens e metodologias que propiciem o desenvolvimento integral do ser humano, a educação democrática, a educação por projetos, como principais tendências, dentre outras.

Há quem diga que o modelo tradicional resiste porque é um porto seguro, mas como está não sobreviverá, tem vida curta. Como se vê, corremos o sério risco, se não reagirmos prontamente, de não termos nenhum poder, nenhuma transformação e nenhuma educação.

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[1] O psiquiatra chileno Claudio Naranjo formou-se em medicina na Universidade do Chile, especializou-se em psiquiatria em Harvard e virou pesquisador e professor da Universidade de Berkeley, ambas nos EUA.

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