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Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Embora os desafios não tenham precedentes, e as discordâncias sejam intensas, o gênero humano pode-se mostrar â altura do momento se mantivermos nossos temores sob controle e formos um pouco mais humildes quanto a nossas opiniões”. (Yoval Noah Harari)

 No dia 30 de outubro o Estadão realizou o Summit BrasilO que é o poder? O evento inspirado na série de artigos e debates intitulados The Big Ideas, do jornal The New York Times. Lá estavam representantes do poder tradicional, um ministro de estado, dois ministros do STF, dois governadores, além de jornalistas, artistas, profissionais da tecnologia e da televisão, que falaram das modalidades de poder – o poder da sociedade civil; da iniciativa privada; das redes sociais; da tecnologia e do cidadão comum.

Nosso primeiro pensamento foi de lamentar a falta no evento do tema O poder transformador da Educação. Porém, pensando melhor, só se justificaria se tivéssemos público preocupado com isto. Sem políticas públicas orientadas para preparar gente para o mundo em transformação que estamos vivendo, a educação brasileira não irá a lugar algum e ficará na rabeira das nações em desenvolvimento.

Em razão disso fizemos a seguinte reflexão: No Brasil, hoje, segundo dados da Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), organizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) com base em dados de 2018, mais de 11,3 milhões de pessoas não sabem ler nem escrever, o que representa 6,8% da população.

Os números assustam quando se pensa em todos os avanços tecnológicos que os últimos anos trouxeram às mais diversas áreas, mas que não atingem o contingente de excluídos. E, se nada for feito, perpetuarão as condições de seus ascendentes, alimentando um círculo vicioso de pobreza, violência e doenças.

Nesse contexto, as desigualdades ameaçam fragmentar nossa sociedade, minando a coesão social e promovendo a erosão das instituições democráticas. Basta assistir aos programas jornalísticos “mundo-cão” dos finais de tarde (e que agora já migram para a hora do almoço) para ter uma fotografia da trágica realidade que vivemos: desigualdade, pobreza, violência, falta de trabalho, insegurança e, o pior de tudo, um país dividido politicamente.

Aliás, as preocupações com o trabalho no futuro são expressas nos livros que Yuval Harari e Domenico De Masi escreveram recentemente. O primeiro, no “21 lições para o século 21” (Companhia Das Letras), mostra sua apreensão sobre como a combinação entre o avanço da biotecnologia e da Inteligência Artificial pode ser desastrosa para a humanidade. Ele enfatiza “As consequências da atual inércia em relação ao futuro mostram o descompasso completo dos países que não conseguirão acompanhar a corrida protagonizada pelos algoritmos até a criação de humanos simplesmente dispensáveis e irrelevantes social e economicamente. Países inteiros poderão desmoronar e o caos. Violência e ondas de migração resultantes, desestabilizariam países inteiros”.

De Masi vai pelo mesmo caminho em seu “O mundo ainda é jovem”, da editora Vestígio. “Uma vez que não paramos de inventar novas tecnologias e novos desenvolvimentos organizacionais, é muito provável, quase certo, que a tendência continuará, talvez se acelerando também nos próximos anos. Se isso é concebível, então é preciso projetar nossa sociedade, antes de tudo, reduzindo-se a jornada de trabalho proporcionalmente ao aumento da produtividade e depois, redistribuindo a riqueza produzida.”

O que isso tem a ver com educação? Tudo.

A desigualdade não é inevitável. Ela é uma escolha política. As desigualdades extremas, no mundo inteiro, não são uma fatalidade implacável, tenho a plena convicção de que medidas concretas podem ser tomadas, senão para exterminá-las, para pelo menos mitigá-las.

O jornalista Carlos Rydlewski, em reportagem brilhante de capa do suplemento Eu & Fim de Semana, do jornal Valor Econômico de 18/10 (Com propostas e demografia a favor, é possível mudar ensino público no Brasil), expõe a realidade de como salvar a educação, citando diversos estudiosos do setor, dos quais registramos as visões:

  • Pesquisa “Excelência com Equidade no Ensino Médio”, feita em parceria pelo Interdisciplinaridade e Evidências no Debate Educacional (Iede), Fundação Lemann, Instituto Unibanco e Itaú BBA, mostra que estudantes da rede pública têm apenas 34% de nível adequado em português e 15% em Matemática;
  • Mais da metade (55%) das crianças no fim do 3ºano do ensino fundamental, com idade de 8 a 9 anos, não sabem ler palavras com mais de uma sílaba e contar objetos;
  • É falsa a visão de que investimento em educação é pouco para o setor. Em proporção ao PIB, o aporte é elevado. Conforme valores de 2014, ficou em 5,4 % (soma União, estados e municípios) ante a média de 4,8% dos países da OCDE;
  • Hoje atingimos 98,6% das crianças de 6 e 10 anos em salas de aulas apinhadas e com qualidade mínima. O resultado é pior do que em países de gasto similar. O Brasil gasta US$ 3,8 mil por estudante ano e obtém 377 pontos em matemática no Pisa. Enquanto isto, a Turquia gasta US$ 3,3 mil e alcança 420 pontos;
  • João Batista Oliveira, do Instituto Alfa e Beta, fez um levantamento que mostra que o nível de ineficiência da rede é de 36,6%. Isso quer dizer que mais de 1/3 dos municípios brasileiros poderiam fazer mais e melhor;
  • Não há dúvida que a melhoria da qualidade da educação básica depende de mudança radical na política de atrair, formar e reter professores. É o que indicam pesquisas de consultorias internacionais como a McKinsey. O ideal seria que os professores fossem recrutados entre os 30% melhores candidatos de cada geração, enquanto ela é feita entre os 10% piores;
  • Mas existem casos de sucesso, para não termos uma visão pessimista de tudo. Na cidade Sobral, no Ceará, o Ideb (Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de 4 pontos em 2001, alcançou 9,1 pontos em 2017. Boa gestão, foco na orientação dos professores, formação adequada dos alfabetizadores e bom material didático;
  • Alterações expressivas na educação básica, teriam repercussão na cadeia do sistema. Somente 18% dos brasileiros adultos atingem ao ensino superior. Menor que a Argentina 36%; Chile 25%, Colômbia 23% e Costa Rica 23%. Na OCDE o percentual médio é de39%;
  • Mudanças radicais no sistema educacional dependem de fatores externos à escola, como o nível econômico das famílias e a escolaridade dos pais. Estudo do Banco Central mostra a valorização da formação em seus diversos graus por hora de trabalho em reação aos sem instrução. Apenas com ensino fundamental, uma pessoa tem em média 38% a mais, com ensino médio 66% e com nível superior 243%;
  • Promover um salto na educação não é tarefa fácil, mas agora a demografia joga a favor do país. A expectativa entre 2010 e 2060 é que o grupo de faixa etária entre 0 e 20 anos passe de 64,9 milhões para 45,5 milhões, o que representa uma diminuição de 43%.

Outra matéria do Valor Econômico (Jovens fora da escola são 12%; um terço sai por desinteresse) aponta que dos 9,75 milhões de jovens brasileiros com 15 a 17 anos, 1,15 milhão estavam fora da escola no ano passado, segundo números obtidos pelo IDados a partir de dados do IBGE levantados em 2018. Desse total,33% apontam o desinteresse para ter desistido dos estudos. Entre os meninos o percentual chega a 39,7% e entre as meninas é de 25,53.

Nos últimos anos, nossos sucessivos governos têm dado ênfase ao ensino superior em detrimento do ensino fundamental. Segundo o estudo “Um Olhar sobre a Educação”, publicado pela OCDE em 2016, o Brasil é um dos países com menores investimentos em educação básica, mas com gastos semelhantes ao de países europeus no ensino superior, distorção que a BNCC promete corrigir. Outros autores realçaram a primeira infância e o capital humano

James Heckman, professor emérito da Universidade de Chicago, ganhador do Nobel de Economia em 2000 e especialista em economia do desenvolvimento humano, sustenta que a qualidade do desenvolvimento na primeira infância influencia de forma decisiva os resultados econômicos, sociais e na saúde para o indivíduo e para a sociedade.

Theodore W. Shultz (que também venceu o prêmio Nobel de Economia, em 1979) é o “pai” da teoria do capital humano, segundo a qual investimentos em educação e saúde podem aprimorar as aptidões e habilidades dos indivíduos, tornando-os mais produtivos, o que em larga escala pode influenciar positivamente as taxas de crescimento dos países.

Os organizadores do “O que é poder” foram sábios em não pautarem este tema no Summit Brasil devido à sua complexidade. Acredito que deve haver milhares de teses em papel nas prateleiras das universidades e mais de 100 Tbytes   nos arquivos das nuvens propondo soluções.

Enquanto estado, sociedade, estudiosos e os melhores cérebros não encontrarem o caminho que o país precisa tomar, estaremos condenados a nação de terceira categoria. Para isso, deverá haver união de propósitos e, acima de tudo, um conselho: não se resolvem problemas velhos com soluções antigas.

Porque não pensar como estratégia de mediação educacional a telinha que ensina tudo e está na mão de todo mundo?

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