Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Prever o futuro não é tarefa realizável. Preparar-se para as mudanças, por outro lado, é atividade possível e recomendável. Principalmente na adversidade. E diante da pandemia, que está mudando as relações sociais e econômicas, especialistas projetam possíveis cenários para que governo e sociedade construam caminhos para sobreviver ao trauma.” (Luiz Calcagno, Correio Braziliense)

 Kannú é um garoto esperto que mora numa das favelas de Mumbai, na Índia. Mora com a mãe solteira e vive de pequenos bicos como a venda de preservativos masculinos. Deve ter no máximo 12 anos. Por necessidade de suas atividades, estando no apartamento da distribuidora do produto e precisando ir ao banheiro, ficou extasiado com as instalações, principalmente com o vaso sanitário, que não conhecia. Refletindo, incomodou-se por que sua mãe e as mulheres da favela precisavam sair cedo, para em grupos fazerem suas necessidades em algum terreno baldio.

Certa vez com seus amigos, observando ao longe os prédios da cidade, enquanto estes apontavam o número de andares dos edifícios, ele fazia contas diferentes: há centenas de prédios à sua frente de 50 andares, 4 apartamentos por andar e com 2 banheiros cada um. 100 prédios terão 40 mil vasos e na favela não há nenhum. E com os amigos foi ao administrador regional pedir que construísse ao menos um. Este, como bom burocrata, disse: não há recursos; para resolver, só levando uma “Carta para o primeiro ministro”, que é o nome do filme da Netflix que conta a história toda.

Kannú com mais dois meninos, depois de algumas peripécias, vão à capital Nova Delhi e conseguem entregar a carta ao ministro e após algum tempo a favela é contemplada com 6 banheiros coletivos, inaugurados com banda e festa. Letreiro final do filme: na Índia há 300 milhões de mulheres que não possuem vasos sanitários. (Mais uma sugestão de filme: “Toilet” – disponível no Netflix)

No Brasil proporcionalmente é a mesma coisa, embora na Índia preconceitos religiosos e machistas estabeleceram que as impurezas humanas não podem ficar em casa.

A pandemia da Covid-19 pegou-nos de surpresa e todos os nossos problemas ficaram escancarados. Falta de saneamento básico, de moradias dignas e de urbanização das favelas são apenas alguns deles.  E nada é mais imprevisível porque o país já não andava bem em economia onde acertos de toda ordem deveriam ter sido efetivados em todas as áreas, para poder deslanchar. A pandemia fará a economia brasileira encolher 5,2% neste ano, prevê a Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal). Segundo o órgão, a América Latina sofrerá a pior crise social em décadas, com milhões de pessoas passando por desemprego e pobreza. Impactos econômicos virão pelo aumento no valor das matérias-primas, das quais o Brasil depende ara as exportações, e devido à paralisação de setores como viagem de negócios, eventos e o turismo. Já tínhamos mais de 10 milhões de pessoas sem trabalho e se falava em investimentos em infraestrutura e construção pesada para abrir áreas de trabalho, o que já saiu do radar.

Os países em sua grande maioria não estavam preparados e nem tinham experiência para enfrentar a pandemia e todos viram o improviso com que aqui tudo foi realizado. Faltou liderança na área da Saúde para dar as diretrizes para vencer os desafios, embora no plano internacional a OMS – Organização Mundial da Saúde, com o agravamento da crise, promovesse a colaboração entre o institutos e universidades para incrementar a colaboração científica de acompanhamento da crise e outra frente com foco na solução da vacina imunizadora da Covid-19.

Apesar de o professor de relações internacionais de Harvard, Stephen M. Wal, afirmar que a pandemia criará um mundo “menos aberto, menos próspero e menos livre”, ele complementa que “não precisava ser desse jeito, mas a combinação de um vírus mortal, falta de planejamento e lideranças incompetentes colocou a humanidade em um caminho preocupante”.

Robin Niblett, diretor e chefe-executivo da Chatham House, organização britânica de análise de política internacional, disse ser pouco provável que o mundo retorne ao conceito de globalização de benefícios mútuos construídos no início do século XXI. “Sem incentivos para proteger o partilhamento de ganhos de uma economia global integrada, a arquitetura da governança econômica globalizada estabelecida no século XX vai rapidamente atrofiar. Será necessária uma grande autodisciplina de líderes políticos para sustentar a cooperação internacional e não retrair em uma competição geopolítica aberta”.

Por outro lado, há um enorme potencial para que a humanidade, pela primeira vez na história, opere de forma verdadeiramente colaborativa entre todas as nações. Coisa que, há 50 anos, seria impossível em razão da falta de tecnologia de comunicação. Será que nós, como nação global, seremos capazes de colocar em prática esse potencial?

Todas estas colocações não são novas e são exaustivamente comentadas na mídia, mas na prática não passam disso, por que não há um Plano Nacional de Políticas Públicas para objetivar mudanças e ações para transformar o país. É desafio para décadas de trabalho. A solução interliga entendimento político, desenvolvimento econômico, oferta de trabalho, saúde e bem estar, urbanização de favelas, saneamento e, acima de tudo, educação que possibilite capacitação para a vida, pois precisamos estar preparados para enfrentar os desafios das transformações tecnológicas do mundo atual. Seria um projeto onde toda a nação pudesse estar unida para vencer seus gargalos políticos, econômicos e sociais.

Como enfrentar a desigualdade social, onde, desde Cabral, brancos, negros e índios são povos diferentes? Somos mais de 53 milhões de pobres e miseráveis. E grande parte da população brasileira não tem acesso à internet. Basta isso para romper com tudo. Sem conexões não iremos a lugar nenhum e tudo ficará bonito na teoria futurista.

Precisamos de uma agenda para fazer a educação ingressar noutro patamar, de igualdade de oportunidades. E sem o direito a ter acesso a conexões que permitam entrar no mundo virtual, nada vai acontecer.

Temos que romper as dificuldades, começando a nivelar por meio do oferecimento de  serviços públicos de internet para todos os alunos e famílias. Não adianta o aluno ter internet na sala de aula se não tiver em casa, como extensão da escola. Não adianta ter internet se tem apenas celular. Podemos construir computadores que podem ser distribuídos a todos com a verba que se gasta em publicidade e em campanhas políticas. Se isso  ocorresse, seria uma revolução, pois o aluno despertaria para um memorável mundo novo.

O que podemos fazer, observando outros países em situação idêntica ao Brasil, que em pouco mais de 12 anos conseguiram superar todas as barreiras na educação com atitudes proativas tais como:

Comprometimento público – não adianta continuar pregando para o vazio. Município, estado e união devem estar alinhados no objetivo de apoiar as ações educacionais e os profissionais da área, sem o que ficaremos marcando passo;

Comprometimento familiar – as famílias precisam ter consciência que ter o filho na escola é o único caminho para resolver seus problemas e construir seu futuro: só a escola transforma;

Comprometimento institucional – significa que nossas instituições de educação precisam ter consciência que não é mais possível conviver com essas desigualdades  e continuar a perpetua-las. Mudar de atitude frente ao problema: se você tem porque os outros teus irmãos não podem ter?

Comprometimento da sociedade – atitude coletiva – não adianta mais  falar, diagnosticar, fazer “papers” se não fizermos acontecer. Significa comprometimento – atitude – mãos à obra e guerra total pela educaçao. Vamos parar de falar em cidadania. Vamos lutar para que todos tenham as ferramentas para chegar a ser cidadadões brasileiros, senhoras e senhores de  seus destino. Solução existe, basta o querer político, econômico, social e mudança de comportamento de toda a socociedade.

A realidade é mais embaixo e nos causa vergonha. A culpa é de todos nós! Vamos mudar o cenário? Caso contrário, o que deixaremos para as próximas gerações?

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2 Respostas para “O que fazer depois que a pandemia terminar?”

  • valter stoiani says:

    Um exemplo fantástico de comprometimento e solidariedade está sendo dada pela comunidade científica em busca de uma VACINA de comprovada eficiência que possa dar fim a esta pandemia do Covid-19. Considerando como bem diz o Prof. Gabriel ” Se não tomarmos uma medida eficiente e rápida, o que deixaremos para as próximas gerações ? ” Poderemos seguir o exemplo da comunidade cientifica atual em busca de uma vacina par o Covid-19 , e criarmos um CONSELHO CIENTÍFICO em caracter de urgência para tratar do assunto ” EDUCAÇÃO “. Criarmos um projeto piloto e por mãos a obra enquanto há tempo.

     
  • Edson Franco says:

    Colocações muito pertinentes, e devemos começar pslas nossas IES

     

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