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Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Se você não viver no futuro hoje, viverá no passado amanhã.” (Peter Ellyard – Diretor Executivo Preferred Futures Institute)

Não faz 20 anos que uma neta minha fez um curso a distância de Naturologia no American Institute of Holistic Theology. Dois anos de duração baseado em livros indicados, cujas lições e exercícios precisavam ser respondidos semanalmente pelos Correios. Hoje a interação estudante e professor é instantânea, mas na época levava semanas.

Entrevistando a profa. Wandy Cavalheiro[1], que trabalha na área há mais de 30 anos sobre o que virá na área educacional depois da pandemia, uma de suas respostas foi contundente: “Acabou a caixa preta da sala de aula e todos poderão saber via online o que lá está acontecendo”.  Serve para todos, diretor, família, alunos, empresas, sociedade e Governo avaliarem como está o ensino em todos os graus no país. Eis suas respostas.

Gabriel Mario Rodrigues – Com a atual crise, as escolas de grau médio precisaram se adaptar às circunstâncias e oferecer aulas remotas a seus alunos. Como você avalia o esforço e o resultado desta nova realidade?

Profa. Wandy Cavalheiro – O mundo virou a chave rápida e inesperadamente neste momento de crise. Muitas escolas de ensino fundamental e ensino médio tiveram que se adaptar, em um prazo muito curto, para oferecer ensino remoto aos seus alunos. Poucas estavam realmente preparadas para isso, A crise as pegou em diferentes estágios de amadurecimento tecnológico. Algumas estavam mais adaptadas outras não. Algumas tiveram excelentes resultados, diria que até surpreendentes. Outras tiveram muita dificuldade. O que ocorreu na prática, com varias escolas de todos os tipos, inclusive as de elite, é que passaram a oferecer as aulas presenciais no modo online, sem nenhuma adaptação a metodologia do ensino a distância. Passaram a aula presencial para a telinha.

GMR – Com a atual crise ficou claro que o ensino digital se desenvolverá com o avanço da tecnologia e comunicação e mais ainda o ensino em todos os graus será menos presencial. Qual é a sua opinião a respeito?

WC – É um avanço de alguns anos que estamos vendo acontecer em 2 e 3 meses. Apesar do mundo já ser digital, as pessoas se tornarão ainda mais tecnológicas. O digital ficará ainda mais forte com tecnologias como Inteligência Artificial e assistente virtual como Realidade Virtual e Realidade Aumentada.

As aulas não precisam ser exclusivamente presenciais. Estes aspectos nos levarão ao ensino hibrido, onde o EAD terá maior peso. Isto será muito bom porque todos sairão ganhando, principalmente o aprendizado do aluno.

Quando o isolamento social for flexibilizado para as escolas, com certeza, a continuidade do ensino remoto será uma solução para a impossibilidade de receber todos os alunos ao mesmo tempo. As escolas precisarão revezar os alunos que assistirão presencialmente a aula e os que acompanharão o conteúdo pelas plataformas digitais. Isto será o início da modalidade hibrida de ensino, mesclando presencial e a distância definitivamente.

GMR – Para aprender não se precisa de espaço e tempo e há momentos em que a presencialidade é importante e em outros não. Uma mídia apropriada poderá colaborar e viabilizar o intercâmbio de ambas. Qual a sua opinião?

WC – Com certeza, o aprendizado não precisa de presencilalidade.  Ouvi de um grande mestre, Eduardo Giannetti, “que as aulas presenciais continuarão existindo, mas serão mais valorizadas. Serão aulas onde o conteúdo será dado em uma aula/palestra com duração de no máximo 1h de exposição e perguntas”.

As aulas hoje ministradas nas faculdades de 4 horas por período não atendem mais a realidade do aluno. É a velha máxima: você finge que ensina e o aluno finge que aprende. A concentração de um aluno é no máximo de 60 minutos. O jovem nasce digital, ninguém pode supor que ele consiga assistir a uma aula tradicional com baixa interatividade.

Precisamos de um ensino a distância bem estruturado, usando vários recursos e metodologias que atraiam a atenção do aluno e levem ao aprendizado. Os professores estão vivenciando novas formas de ensinar, novas ferramentas de avaliação, e os estudantes entenderam que precisam de organização, dedicação e planejamento para aprender no mundo digital.

Sabemos também que, para criar, debater ideias, gerar insights, a participação presencial faz diferença. Portanto, os espaços físicos ficarão destinados para ideação e colaboração em momentos específicos. Creio que nenhuma mídia existente substituirá este tipo de interatividade, porem serão espaços presenciais esporádicos para Labs de criatividade e inovação.

GMR – Com a atual crise ficou claro que o ensino digital se desenvolverá e se aprimorará para colaborar com o ensino em todos os graus. Você concorda que a tela será a interface especial de qualquer aprendizado e assim a tecnologia será a parceira ideal para a democratização do conhecimento?

WC – O ensino será uma somatória de metodologias interativas, usando vários recursos online e presenciais, com predominância do online cada vez maior.  No mundo de hoje, onde a automação do trabalho é uma realidade irreversível, o mais valorizado no capital humano são as habilidades e competências, o que demanda novos modelos de aprendizagem e, estimulo para formação de pessoas abertas a experimentação de novidades e a usarem novas tecnologias os early adopters.

A tela de qualquer eletrônico é a grande interface que transmite informações e experiências de vida a qualquer hora e em qualquer lugar. Quem ensinar com o melhor conteúdo, a melhor tecnologia, melhor metodologia conseguirá interesse do estudante e conseguirá a melhor aprendizagem.

O Ensino a Distância evoluiu muito nos últimos anos, as aulas são oferecidas nos mais diversos formatos usando inúmeros recursos. O mais interessante é que com o Ensino a Distancia tudo que for oferecido ao aluno será de conhecimento público, ou seja, o diretor da escola poderá saber o que seu professor está dando, a família saberá o que o filho está aprendendo e como está apreendendo. A famosa caixa preta foi aberta. O conteúdo passa a estar disponível para todos. Veja-se o bom exemplo de Setubinha, publicado no Estado de S.Paulo deste domingo.

Os professores cada vez mais terão que se preparar para esta nova realidade que requer mais habilidades tecnológicas e mais domínio da comunicação. Este novo momento da educação está mostrando que o professor precisa mudar como também a família que deve participar mais do processo de educação dos filhos. Neste tempo de pandemia a família entendeu que pode e deve participar da educação dos filhos. É possível acompanhar uma aula de seu filho, de qualquer nível em que esteja, em qualquer lugar e a qualquer hora e saber a metodologia utilizada e o conteúdo que é dado. É possível participar efetivamente da educação dos filhos. Ninguém engana mais ninguém.

Todos terão que ser tecnológicos: professores e alunos. As pessoas terão que estar mais abertas à experimentação de novidades.

GMR – A senhora trabalha há mais de 30 anos com a Educação. Na sua análise, o que mudou e que está mudando com o processo de aprendizagem nestes novos tempos?

WC – Durante todo este tempo que trabalho na área educacional, posso dizer que todas as mudanças que ocorreram e, sem dúvida, ainda acontecerão no ensino-aprendizagem, advêm do desenvolvimento tecnológico, do mercado de trabalho e envolve todos os atores do ambiente escolar, desde os estudantes que adquiriram novos hábitos até os profissionais que se adaptaram as mais diversas práticas pedagógicas.

Os alunos do presente e do futuro próximo terão cada vez mais liberdade para escolher o que irão estudar. A interdisciplinaridade é uma ferramenta essencial para uma formação que desenvolva o pensamento critico. A PUC de SP criou uma Faculdade de Estudos Interdisciplinares que cruza diferentes áreas do conhecimento, outras IES planejam utilizar o modelo de interdisciplinaridade, quando o aluno faz um conjunto único de disciplinas (humanas ou exatas) e só depois opta por um bacharelado, cabendo ao aluno montar sua própria grade curricular. Os departamentos já estão sendo substituídos por Centros Multidisciplinares.

GMR – Quem pode pagar escola tem condições de superar os desafios desta nova era. Como o estado deveria se utilizar do ensino digital para oferecer bom ensino e contribuir para a diminuição da desigualdade social?

WC – O cenário atual escancarou as enormes desigualdades sociais e geopolíticas. Pensando no futuro, entendo que, além do Estado oferecer acesso a equipamentos e serviços de internet a esta população sem recursos, acima de tudo, deve preparar os professores e alunos para utilização das ferramentas e métodos de ensino digital.

Sem dúvida a inclusão digital leva à ascensão social, mas a inclusão dos alunos com maior vulnerabilidade socioeconômica está relacionada à capacidade cognitiva deste público. Para que haja uma verdadeira democratização das oportunidades de acesso e compreensão das informações, o Estado deve disponibilizar não apenas investimentos em bens materiais e acesso à internet, mas também investir numa continua melhoria das condições do ensino básico, que possam dotar os alunos de habilidades relacionadas ao desenvolvimento do pensamento, raciocínio, linguagem, memória, abstração para que consigam transformar informações em conhecimento.

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[1] Wandy Cavalheiro é especialista em Branding pela Fundação Getúlio Vargas-SP. Atua há mais de 30 anos na área educacional. Exerceu cargos de coordenação de cursos, gerência de unidade, gerência de planejamento acadêmico e diretoria de Marketing e gestão de Marcas Corporativas da Universidade Anhembi Morumbi. Sócia-fundadora da Per Creare, consultoria de branding e hunting educacional, onde atua desde 2002 como diretora executiva.

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4 Respostas para “O que serão as escolas passada a pandemia do coronavírus – parte II”

  • valter stoiani says:

    Se você não viver(prever-se preparar)para o futuro HOJE, viverá( arcará com as consequências )do passado AMANHÃ.
    Aproveitando o pensamento de Peter Ellyard, quero dizer que HOJE portanto é a nossa “vacina” a oportunidade existencial. É no HOJE que poderemos construir o nosso futuro.
    Assim, alem de denunciar o passado e o presente da falência educacional brasileira, nos voltemos para o futuro, propondo uma solução construtiva, para o problema. Tendo em vista o impasse da superioridade indiscutível da presença dos educadores, no “ato educativo” e a contingência sanitária e tecnológica da IA e dos algoritmos que apontam para o EAD e robotização, sugerimos a exemplo das grandes lideranças mundiais:
    Criação de um conselho de especialistas , patrocinado por iniciativas particulares e empresariais que apontem soluções para o futuro. Não só na área de educação, mas físicos, economistas, neurocientistas, historiadores ,religiosos, biólogos , ecologistas, médicos, psicólogos e outros,que poderiam dar suas contribuições para a reconstrução saudável da educação das nossas crianças , jovens e adultos. Para que elas voltem a pensar, brincar e criar com alegria e saúde.

     
  • Achei muito interessantes as colocações dos entrevistados.

     
  • Maria Helena Krüger says:

    Dois profissionais que admiro e que estão presentes em minha caminhada profissional,neste excelente “bate papo”: Gabriel Mário Rodrigues e Wandy Cavalheiro. Muito bom

     
  • Edson Franco says:

    Sinto que as escolas vão se tornando “lojas de conveniência” e as famílias não mais precisarão “morar” junto das escolas, dos supermercados e das igrejas, Édson Franco

     

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