Gabriel Mario Rodrigues2

Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Ao redor do mundo a pandemia do coronavírus desafia estudantes, pais, professores, escolas, redes públicas e privadas. Neste momento há mais dúvidas que certezas em relação ao método mais adequado para garantir a aprendizagem por meio do ensino remoto, quando e como deverá ser realizado o retorno as aulas presenciais e o que deve ser feito para recuperar as aprendizagens dos alunos.” (Alexandre Schneider – Consultor em Educação e Políticas Públicas e ex-secretário municipal de educação de São Paulo)

Muitos dizem que passada a pandemia tudo voltará a ser como era, mas eu acredito que as transformações ocorrerão cada qual ao seu tempo. As cidades serão mais setorizadas, com melhores condições de moradia e infraestrutura sanitária, com mais espaços de convivência e de lazer. As empresas remodelarão a maneira de se relacionarem com seus colaboradores. O trabalho em casa vai ser rotina por mostrar-se mais produtivo. O trafego de veículos será menos intenso e o meio ambiente mais saudável. As escolas de todos os níveis reestruturarão seus ambientes de ensino e as aulas intermediadas pela tecnologia serão disputadas. A interface tela com todo o seu desenvolvimento futuro fará da aprendizagem um espetáculo lúdico e corriqueiro.

Esse panorama nos leva a refletir sobre como se dará o aprendizado ao longo da vida. Cada vez mais as pessoas de todas as idades precisarão estar aptas a se qualificarem para qualquer trabalho. Por esta razão questionei a professora Luciana Santos[1], uma expert em aprendizado digital com currículo expressivo sobre os desafios educacionais nos novos tempos.

Gabriel Mario Rodrigues – Com a atual crise, as escolas de grau médio precisaram se adaptar às circunstâncias e oferecer aulas remotas a seus alunos. Como você avalia o esforço e o resultado desta nova realidade?

Profa. Luciana Santos – Eu avalio de forma muito positiva. Todo desafio é também uma oportunidade. Com a necessidade do isolamento social, as instituições, tanto públicas como privadas, tiveram que migrar as aulas presenciais para aulas remotas online. Houve uma acelerada na adoção de tecnologias na educação que de fato chegaram lá na ponta, na aula, na interação com os alunos, mesmo que ainda reproduzindo a mesma dinâmica da aula expositiva.

Há muito tempo se fala da importância do uso de tecnologias no processo de ensino e aprendizagem, mas na prática em muitos contextos ela era periférica a sala aula. Mas a avaliação precisa observar alguns cenários:

As instituições que já estavam em um processo de adoção tecnológica e de formação continuada de professores tiveram melhores resultados, se adequando rapidamente ao contexto das aulas remotas, com resultados muito positivos.

Outras tiveram que se adaptar rapidamente, fazer algum investimento em alguma tecnologia e preparar rapidamente seus professores. Estão aprendendo e ampliando a sua percepção sobre a importância da educação do século 21 que é também uma educação digital. Estão se preparando para um novo contexto em que a tecnologia passa a ser parte do processo de ensino e aprendizagem. Existe um ganho muito positivo neste cenário.

Mas não podemos deixar de considerar que existem ainda um grande número de instituições que não conseguiram adequar sua operação no online. As implicações são muitas, infraestrutura e investimento em tecnologia, acesso à internet, a fluência digital de professores e alunos, entre outros, ou seja, é preciso considerar também esse importante contexto na avaliação, em que o impacto negativo em uma país tão desigual como o Brasil é ainda maior.

GMR – Com a atual crise ficou claro que o ensino digital se desenvolverá com o avanço da tecnologia e comunicação e mais ainda o ensino em todos os graus será menos presencial. Qual é a sua opinião a respeito?

LS – Sem dúvida, em todos os sentidos nada será como antes, estamos falando de uma realidade mundial, em que a educação digital passou a ser uma possibilidade real e presente no cotidiano de famílias, professores e alunos em todos os segmentos, desde a educação infantil até o ensino superior.

A educação será menos presencial, não somente pela flexibilidade do tempo, custo e comodidade, como estávamos habituados a considerar.

A educação digital passa a ser um componente de fato conectado ao contexto educacional, não parte, mas como, integralizado.

E aqui quero ressaltar a criatividade, comunicação, empatia, colaboração, engajamento e motivação, ou seja, o valor humano mediado por tecnologias. Existem experiências incríveis acontecendo em todos os segmentos, em que o protagonismo de alunos e professores estão ganhando as telas e inovando em novos formatos de ensino e aprendizagem. Na minha percepção esse processo é irreversível, pela relevância e valor conquistados.

GMR – Para aprender não se precisa de espaço e tempo e há momentos em que a presencialidade é importante e em outros não. Uma mídia apropriada poderá colaborar e viabilizar o intercâmbio de ambas. Qual a sua opinião?

LS – Tanto no presencial, como no online, existem características próprias que precisam ser exploradas, não pela natureza unilateral que os distinguem, mas pelo potencial que os faz convergir. Essa é uma grande aprendizagem conquistada neste momento.

GMR – Com a atual crise ficou claro que o ensino digital se desenvolverá e se aprimorará para colaborar com o ensino em todos os graus. Você concorda que a tela será a interface especial de qualquer aprendizado e assim a tecnologia será a parceira ideal para a democratização do conhecimento?

LS – O valor escalável das tecnologias é algo que sempre esteve muito claro no cenário educacional, a EAD é uma realidade com benefícios para a inclusão e equidade importantes na educação brasileira. Mas eu quero chamar a atenção para a palavra “parceria” que está na sua pergunta. Acredito que uma mudança importante é que o presencial tem se tornado parceiro do online. Estamos aprendendo que eles não são momentos distintos, mas convergentes.

Neste sentido, as interfaces mediadas e combinadas por tecnologias e pessoas se tornam fundamentais para democratização do conhecimento, no âmbito educacional. Na minha avaliação, elas são principalmente uma “ponte importante para a autonomia intelectual” que impacta a relevância atribuída ao contexto social, político e econômico, das informações tão disseminadas e acessíveis na sociedade. Em outras palavras, por isso o sentido de parceria é tão necessário entre interface, tecnologias, pessoas e democratização do conhecimento se tornam tão importantes para o contexto da comunicação, educação e o protagonismo social.

GMR – A senhora trabalha há mais de 10 anos com a EAD. Na sua análise, o que mudou e que está mudando com o processo de aprendizagem nestes novos tempos?

LS – Por muito tempo o conteúdo foi o grande   protagonista na EAD, a transmissão, o ensino, sem olhar de fato a aprendizagem. Esse modelo broadcast aos poucos tem se reorganizado em novas modelagens, priorizando o desenvolvimento de competências e habilidades. Boa parte dessa transformação está na acelerada das tecnologias.

O machine learning, a inteligência artificial, o learning analytics, se tornaram uma realidade em várias operações de grande escala no Brasil.

A automação do trabalho, a quarta revolução industrial, tem transformado praticamente todas as carreiras. Habilidades e competências são mais valorizadas do que o conhecimento específico, um cenário que tem impactado a composição dos currículos no ensino superior.

A mudança de perfil dos alunos, impulsionou também a necessidade de modelagens mais interativas, hipertextuais, gamificadas, que vão ganhando espaço na produção de conteúdos. Metodologias ativas como a aprendizagem por projetos, o PBL (Problem Based Learning), aprendizagem entre pares, estão mais presentes na experiência de aprendizagem.

A EAD está em processo de transformação. O modelo broadcast não atende mais às demandas atuais, apesar de ainda ser muito presente.

Também, o crescimento e a competitividade entre instituições, requer profissionais capazes pensar no currículo, como uma jornada de experiência da aprendizagem, convergindo a construção de competências e habilidades em conteúdos, interações, tecnologias, mediações, avaliações e feedbacks, tudo isso, de forma escalável na entrega do produto educacional. Quem não trabalhar nessa perspectiva, muito provavelmente não sobreviverá. A EAD não é mais a segunda linha da educação brasileira, mas um produto que pode ter qualidade, custo acessível, escala e alta eficácia na formação dos alunos.

GMR – Quem pode pagar escola tem condições de superar os desafios desta nova era. Como o estado deveria se utilizar do ensino digital para oferecer bom ensino e contribuir para a diminuição da desigualdade social?

LS – Esta é uma pergunta bastante difícil. Sabemos que existe uma grande disparidade entre as escolas públicas de todo Brasil. A crise da Covid-19 acentuou as desigualdades em vários contextos e o seu impacto é de longo prazo. Temos milhares de estudantes que ainda estão sem aula. É difícil falar de ensino digital quando boa parte dos alunos contam com a escola para se alimentar. Em muitas comunidades, a escola é ainda a única presença do estado e de seguridade social.

Para o Brasil a equidade é ainda muito mais difícil do que o acesso às tecnologias. Precisamos de um estado e sociedade que priorize de fato a educação pública.

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[1] Luciana Santos é coordenadora de qualidade e inovação na Rede Senac EAD e de projetos na Foreducation EdTEch. Especialista em Avaliação por Competências e Habilidades, Learning Analytics e Sistemas Personalizados de Aprendizagem. Certificada pelo programa Google Certified Innovator do Google. Pesquisadora na área de Processos Cognitivos, Machine Learning e Ambientes Digitais. Mestre em Gerontologia pela PUC-SP. Pedagoga, com MBA em Inteligência Artificial, Data Science e Big Data.

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6 Respostas para “O que serão as escolas passada a pandemia do coronavírus”

  • valter stoiani says:

    Caro prof. Gabriel interessante reflexão sua e da Prof. Luciana sobre o futuro do EAD , aprendizagem e ensinagem.
    A educação sempre foi tarefa familiar embora não cumprida e delegada às escolas. A ensinagem e aprendizagem, tarefas e propósitos de professores e alunos. Sem dúvida o propósito tanto da educação, quanto do ensino e aprendizagem de conteúdos visam desenvolver uma personalidade ética , verdadeira com competências e habilidades para viver feliz e ser auto-suficiente.
    O EAD , é uma via de predominância Professor>aluno des -humanizando a relação e o vínculo emocional. E o presencial insuficiente frente às realidades tecnológicas de conteúdo.
    A nosso ver, tentando responder à pergunta do A. Schneider “O que deve ser feito então ? “ Diria que somente a humanização do EAD, poderá , associada com sabedoria ao ensino presencial , humanizar alunos e professores, em um casamento capaz de gerar pessoas competentes , habilidosas e emocionalmente equilibradas.
    Sem esta associação inteligente, teremos uma geração de seres humanos robotizados pelas telas e tecnologias.

     
  • Edson Franco says:

    Bom demais. Não está sendo indicada a possibilidade de imprimir como no passado: havia um print e pronto. Grato. Édson Franco, mas quero repetir pelo belo esforço do Gabriel.

     
  • MAria do CArmo FAgundes says:

    Excelente entrevista, quer pela sagacidade das perguntas, quer pela clareza e inteligência com que foram construídas as respostas!

     
  • Marcelo Lopes says:

    Excelente entrevista, perguntas sábias e pertinentes com respostas inteligentes que desencadeiam importantes reflexões. Esse momento exige a lucidez desse artigo. Parabéns!

     
  • WANDY CAVALHEIRO says:

    Excelente entrevista , bastante objetiva e realista.
    Muito importante a visão de que o presencial é parceiro do online não são momentos distintos, mas convergentes,
    Isto entendido é meio caminha andado.

    E o que foi andado, agilizado, antecipado não tem volta.

     
  • ZILDA ALVES says:

    Excelente Artigo.PARABÉNS AOS ENVOLVIDOS.

     

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