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Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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“Educar não se limita a repassar informações ou mostrar apenas um caminho, mas é ajudar a pessoa a tomar consciência de si mesmo, dos outros e da sociedade. É oferecer várias ferramentas para que a pessoa possa escolher, entre muitos caminhos, aquele que for compatível com os seus valores, sua visão de mundo e com circunstâncias adversas que cada um irá encontrar.”¹

No taxi, dias atrás, o motorista se mostrava inconformado porque que seu filho de 14 anos disse que se atrasaria para volta para casa porque ele e um colega iam ficar treinando a professora a usar o Power Point. Disse-lhe ser interessante os meninos ensinarem a professora, por ser o intercâmbio de conhecimentos uma das características do atual aprendizado. Ressaltei que não há mais idade para nada e o importante é aprender. O “azedo” taxista retrucou que se a professora tivesse 40 anos ele até concordaria, mas que ela nem tem 30 e teria obrigação de dominar a informática.

O grande “problemão” da BNCC é GENTE, tanto os que ensinam quanto aqueles que aprendem. Tudo está mudando: os estudantes, as famílias e a sociedade. É preciso encontrar novas formas de relacionamento e vou tratar um pouco sobre isso no artigo de hoje, dando sequência aos temas abordados nas publicações anteriores, especialmente no texto “Os desafios para implantar a BNCC: vontade política, gestão escolar e qualificação docente”.

Qualquer boa ideia, qualquer plano de viabilidade ou de ação só acontece se o consumidor quiser, se houver recursos para implantar, mas, principalmente, se tiver gente capacitada, entusiasmada e reconhecida para executar. É aí que existe o calcanhar de Aquiles da BNCC, pensamos nós. O profissional docente de hoje ainda tem muitas carências, e não vale aqui buscar as razões e motivos que sabidamente existem e que tanto prejudicam a performance de muitos deles. A realidade é que agora as demandas são outras e muito mais exigência dos participantes. A colocação de Mozart Neves Ramos, do Instituto Ayrton Senna, é lapidar: ” Sem preparar bem o docente, a Base não sairá do papel”.

Também para o projeto dar certo a cobrança deve ser feita rapidamente às Universidades que, salvo engano, ainda não sabem como formar o novo profissional do magistério. Certamente, haverá uma revolução no quadro docente das instituições, revitalizando-se o espírito que domina a sala dos professores. E mais, é impensável assumir que a profissão exige formação continuada e os atuais docentes, embora queiram participar, sob rigorosa avaliação de desempenho, podem quedar-se diante da lousa com o giz na boca a não se capacitarem diante das atuais exigências.

Isto ficou claro no ciclo de debates “Gestão educacional: a formação de professores no contexto da BNCC”, promovido pela Fundação Itaú Social e pelo Instituto Ayrton Senna, em São Paulo, no dia 8 de maio. O evento reuniu mais de 500 pessoas, entre especialistas brasileiros e internacionais, gestores públicos, acadêmicos, educadores e organizações do terceiro setor, para debater a nova realidade.

Os debatedores falaram sobre a formação de professores diante da necessidade das inovações curriculares, destacando que o desafio de ensinar crianças nos dias atuais deve ter um foco na aprendizagem que permita que elas entendam o mundo futuro. O mais importante de tudo é que os estudantes precisam ter a habilidade de continuar aprendendo a vida inteira.

Sem uma boa universidade não teremos boa educação de base, por falta de bons professores, único causador do círculo vicioso da hemorragia intelectual da qual padecemos. Ainda haveremos de ter a Universidade do Magistério na qual o aluno terá acesso gratuito e ainda receberá um salário no correr do curso.

Chegou a hora de acender os spotlights e iluminar o cenário atribuindo responsabilidades e protagonismos, atacando de frente os equívocos nas formações das licenciaturas, propostas eficazes e eficientes nas ofertas dos seletivos que haverão de mudar radicalmente, para uma realidade avaliativa
que nunca se propôs, descartando o velho e assumindo o novo. Aí está um ponto nevrálgico, pois, até que a BNCC cumpra seu ciclo integral, as licenciaturas continuarão a receber os mesmos alunos, as mesmas formações de um fundamental e médio combalidos. Na outra ponta, que mudanças ocorrerão
nos currículos e conteúdos universitários dos licenciandos?

A revolução tecnológica precisa ser encarada como grande facilitadora da escola, pois transformará a maneira pela qual iremos aprender e ensinar e o exemplo real é o filho do taxista com qual iniciei este artigo. A tecnologia permite que os alunos se tornem mais independentes na sala de aula. A mudança de professor para mediador ou designer da aprendizagem é um movimento cada vez mais importante para a profissão. Neste sentido, é preciso investir no desenvolvimento de habilidades do professor como a: criatividade, a comunicação, a fluência digital, o trabalho em equipe e o gerenciamento de projetos. Esse processo muda significativamente o modelo atual da sala de aula, em que a entrega de conteúdos é privilegiada, para um modelo em que a experimentação, a descoberta e a inovação são valorizadas como base da construção da aprendizagem e transformados em portfólios transportados para diferentes dimensões da vida.

“O mais importante será repensar o papel e a função da educação escolar – seu foco, sua finalidade, seus valores. A tecnologia será importante principalmente porque irá nos forçar a fazer coisas novas, e não porque irá permitir que façamos melhor as coisas velhas”, dizia o mestre Cristovam Buarque.

Um outro desafio é o engajamento da família na escola. Como as histórias culturais e a vivência das famílias e comunidades podem ser identificados e integrados ao currículo e aumentar o sentimento de pertencimento da escola como uma extensão da vida ou como lugar em que os projetos de vida são inicialmente planejados?

A certeza, porém, é que não vai dar para voltar aos anos 40 e 50, quando pais e mães se debruçavam com os filhos sobre “Caminho Suave”, da professora Branca Alves de Lima².

Hoje, os pais vivem em mundos diferentes e com seus problemas do dia a dia, pouco tempo têm para contribuir com os filhos. O grande desiderato vai ser preparar bem o docente e estimular a universidade a estabelecer os vínculos dos cinco pontos de uma educação ideal: aluno/escola/professor/família e sociedade, os verdadeiros sustentáculos do desenvolvimento do país. Afinal de contas, educação não é tarefa para amadores, tema com que concluirei esta série sobre a BNCC.


[1] Profa Rosa Maria Gasparini Nazar – coordenadora do curso de Pedagogia da Unicastelo.

[2] Caminho Suave é uma obra didática, uma cartilha de alfabetização, concebida pela educadora brasileira Branca Alves de Lima (1911-2001), que se tornou um fenômeno editorial. De acordo com o Centro de Referência em Educação Mário Covas, calcula-se que, desde 1948 quando teve sua primeira edição, até meados da década de 1990, foram vendidos 40 milhões de exemplares dessa cartilha. Em 1995, Caminho Suave foi retirada do catálogo do Ministério da Educação (portanto, não é mais avaliada), em favor da alfabetização baseada no construtivismo. Apesar de não ser mais o método “oficial” de alfabetização dos brasileiros, a cartilha de Branca Alves de Lima ainda vende cerca de 10 mil exemplares por ano.

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