Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
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Se é verdadeira a premissa de que parques tecnológicos precisam das universidades, é um tanto estranho que essa aproximação seja tão lenta, quando não inexistente.

Em nosso artigo da semana passada demonstramos que os resultados de patentes e inovações no âmbito da pesquisa científica e de tecnologias de ponta no Brasil estão muito aquém do potencial de um país com mais de 200 milhões de habitantes. Nosso desenvolvimento tecnológico não condiz com uma economia que, medida pelo PIB nominal, é uma das dez maiores do mundo. A universidade pública não consegue transformar conhecimento em riqueza e a particular dedica-se apenas ao ensino.

Mesmo assim, existem iniciativas que, se não promovem a disrupção tecnológica em escala internacional, conseguem gerar novos negócios de base tecnológica, desenvolvimento econômico, geração de renda e de empregos. São elas os parques tecnológicos e as incubadoras de empresas.

Trataremos aqui do parque tecnológico, que é uma concentração geográfica de empresas, instituições de ensino, incubadoras de negócios, centros de pesquisa e laboratórios que criam um ambiente favorável à inovação tecnológica. À medida que passam a compartilhar do mesmo ambiente, empresas, universidades, centros de pesquisa e investidores geram benefícios econômicos em comum e para a comunidade. São ambientes que, quando consolidados, oferecem excepcional qualidade de desenvolvimento urbano, permitindo a geração de polos de desenvolvimento social e econômico.

Os parques tecnológicos constituem um complexo produtivo industrial e de serviços de base científico-tecnológica. Planejados, têm caráter formal, concentrado e cooperativo, agregando empresas cuja produção se baseia em Pesquisa e Desenvolvimento (P&D). Assim, os parques atuam como promotores da cultura da inovação, da competitividade e da capacitação empresarial, fundamentados na transferência de conhecimento e tecnologia, com o objetivo de incrementar a produção de riqueza de uma determinada região.

Segundo a Anprotec (Associação Nacional de Entidades Promotoras de Empreendimentos Inovadores), pode-se identificar 94 iniciativas de parques tecnológicos no Brasil. Estudo realizado pela instituição com 28 parques que se consideram em estágio de operação, nos quais foram contabilizados 32,2 mil empregos qualificados, em geral de nível superior, nas empresas e institutos de pesquisas residentes, dá noção da importância deste mecanismo para a economia do país.

Entre os parques tecnológicos identificados, podemos destacar:

Parque Tecnológico do Rio – Rio de Janeiro
Localizado no campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o parque de 350 mil metros quadrados abriga, atualmente, 66 instituições. Estão instalados na Ilha do Fundão centros de pesquisa de 16 empresas de grande porte, nacionais e multinacionais, nove pequenas e médias, sete startups do programa CrowdRio, além de nove laboratórios da própria UFRJ. Está em fase de construção o Centro de Referência Nacional em Farmoquímica, do Instituto de Tecnologia em Fármacos (Farmanguinhos/Fiocruz), fortalecendo ainda mais as diferentes interações com a UFRJ. Na unidade de pesquisa da Petrobras funciona o mais moderno simulador de perfuração de poços de petróleo do país. O segredo para se manter evoluindo, segundo o diretor do Parque Tecnológico da UFRJ, José Carlos Pinto, é não depender de verba pública.

Nessa linha, o parque acaba de captar investimentos que chegam a R$ 160 milhões. O novo centro de pesquisas da L’Oréal, na vizinha Ilha de Bom Jesus, foi criado para acelerar o desenvolvimento de produtos que atendam ao mercado brasileiro. Um dos sete centros do grupo francês no mundo e o único na América Latina, a unidade tem 15 mil metros quadrados e conta com mais de cem pesquisadores com a missão de satisfazer o consumidor nacional.

Fonte: https://oglobo.globo.com/rio/bairros/parque-tecnologico-da-ufrj-ganha-centro-de-pesquisa-da-loreal-prepara-novidades-para-2018-22112469#ixzz5BJ2sAUHW

Florianópolis – Santa Catarina
O setor de inovação da grande Florianópolis gera 17 mil empregos e fatura R$ 4,9 bilhões. Formado por centenas de empresas locais, é resultado de programas de fomento e desenvolvimento, como o Sinapse da Inovação (gerido pela Fundação Certi), StartupSC (do Sebrae), além das incubadoras Celta e MIDI.

Fonte: https://ndonline.com.br/florianopolis/noticias/tecnologia-em-florianopolis-setor-fatura-r-4-3-bi-e-emprega-mais-de-17-mil

Santa Rita do Sapucaí – Minas Gerais
Quase um quarto dos moradores de Santa Rita do Sapucaí, a 400 km de Belo Horizonte, têm envolvimento na produção de artigos eletrônicos, o principal destaque da economia da região. Com menos de 40 mil habitantes, a pequena cidade do sul de Minas Gerais soma 142 empresas e exporta produtos para países como Estados Unidos, Alemanha e Japão. São apenas 265 habitantes para cada empresa localizada ali.

Fundado há 25 anos, o complexo de indústrias conhecido como Vale da Eletrônica gera 10 mil empregos diretos, resultando em 13,7 mil produtos eletroeletrônicos fabricados e um faturamento anual de R$ 1,7 bilhão, segundo números do Sindicato das Indústrias de Aparelhos Elétricos, Eletrônicos e Similares do Vale da Eletrônica (Sindvel).

Fonte: http://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2012/04/cidade-do-sul-de-minas-produz-mais-de-13-mil-equipamentos-eletronicos.html

Porto Digital, Recife – Pernambuco
Parque tecnológico com atuação nas áreas de games, multimídia, animação, música e design, segundo seu presidente, Francisco Saboya relatou durante apresentação no Congresso Latino-americano de Parques Tecnológicos, no Peru, em maio de 2017. “O Porto Digital é um case que chama a atenção dos parceiros internacionais por suas particularidades. Nossos números, como o faturamento anual de R$ 1,3 bilhão, as mais de 270 empresas e instituições e os cerca de 8 mil colaboradores são números sólidos, mas também nos destacamos na área de patrimônio, com mais de 80 mil metros quadrados de prédios históricos restaurados”, explicou Saboya.

Fonte: http://portodigital.org/119/37643

Tecnopuc, Porto Alegre – Rio Grande do Sul
Administrado pela PUCRS, segundo seu diretor Rafael Prikladnicki, em entrevista ao Jornal do Comércio de Porto Alegre, em 2015, “o Tecnopuc possui 124 empresas instaladas e tem 6,3 mil empregos gerados. São mais de 50 mil m2 de área construída em Porto Alegre e 33 mil m2 em Viamão. Na unidade da capital gaúcha, há dois prédios que serão modelos. Um deles é o Condomínio InovaPuc, destinado às empresas em graduação e com perfil de aceleração. O outro é o Global Tecnopuc, que será um prédio de convivência e de estímulo às ações de inovação aberta e cocriação. A meta é estimular a criatividade. O parque passa a ter um espaço no qual não teremos empresas instaladas e, sim, onde todas poderão se reunir com a universidade para criar conexões”.

Fonte: http://jcrs.uol.com.br/site/noticia.php?codn=184840

Parque Tecnológico de São José dos Campos – São Paulo
Desde a sua criação, o parque já recebeu R$ 2,10 bilhões em investimentos. Cerca de 6 mil pessoas transitam diariamente na sua área, cujo núcleo possui 188 mil metros quadrados. A área da Zona Especial do Parque Tecnológico (Zeptec) soma 25 milhões de metros quadrados. Há quatro auditórios e três salas de eventos para locação. O estacionamento tem 830 vagas para veículos, inclusive ônibus. Também há um heliporto.

Atualmente, são quase 300 empresas e instituições vinculadas ao parque com faturamento estimado em R$ 7 bilhões ao ano. Mais informações estão no site http://www.pqtec.org.br/conheca-o-parque/o-parque-em-numeros.php.

Existem, ainda, outros parques tecnológicos de grande evidência, como os de Campinas e São Carlos que não foram relacionados porque terão suas atividades mostradas oportunamente.

Porém, um fato é inconteste: não existe a menor integração entre as universidades, as empresas e o governo com o ecossistema da inovação. Esta, inclusive, é a questão que será abordada no próximo artigo, aliando as aceleradoras e incubadoras de empresas.

Estar atento e focar neste tipo de ação consiste em uma excelente oportunidade para colocar o Brasil na trilha de países como a China, a Coreia do Sul e outros que tantos benefícios tiveram ao fazer da inovação a âncora para o desenvolvimento.

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Uma resposta para “Parques tecnológicos: ambientes de cultura, inovação e competitividade”

  • Parabéns por trazer ao debate um aspecto tão importante para o desenvolvimento científico e tecnológico. Infelizmente os estudos brasileiros sobre o tema só foram iniciados na década de 1980.
    Os parques tecnológicos colaboram para geração de postos de trabalho de mão de obra com maior qualificação, basta observar o que ocorreu na Universidade de Stanford com o Stanford Research Park.
    Além da ANPROTEC, estudos realizados pelo Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação são fundamentais para ancorar com precisão a criação de PT, tanto por parte da iniciativa privada quanto pública. O documento Estratégia Nacional de Ciência , Tecnologia e Inovação 2016-2019 encontra se disponível em minha página.
    A Conferência SciBiz (Science meets Busines) realizada pela FEA-USP nos dias 22 e 23 é um marco para o ecossistema de inovação que une academia, startups, venture capital e grandes empresas brasileiras deixou claro que o caminho para a inovação no Brasil, inclusive com a criação de Parques Tecnológicos está muito distante das crenças da academia. Com a presença de Henry Etzkowitz da Universidade de Stanford e
    Instituto Presidente do International Triple Helix, criador do conceito da aproximação de todos os players necessários para o desenvolvimento científico e tecnológico do país o evento não atraiu a liderança das universidades privadas. Mesmo um texto tão importante como esse não tem eco entre os mantenedores. Lamentável!

     

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