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Gabriel Mario Rodrigues
Presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) e
Secretário Executivo do Fórum das Entidades representativas do Ensino Superior Particular
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Não há maior delito no mundo que o ser melhor
(Pe. Antonio Vieira no sermão do Advento.)

O publicitário Asdrúbal de Souza Galvão trabalhou comigo há uns 30 anos. Tendo passado por grandes agências, tinha uma experiência descomunal na área de comunicação e marketing: planejamento, pesquisa e redação. Um dos trabalhos de grande impacto que realizou foi a promoção da campanha “Diretas Já”, estopim do fim do regime de 1964.

Ele foi meu guru e tudo que aprendi do setor devo a ele. Quando o contratei para promover um vestibular, com o objetivo de conhecer melhor como pensavam os universitários, ele resolveu morar num trailer em pleno campus, com a justificativa de que isso era essencial para desenvolver a pesquisa que definiria o tema da campanha.

Galvão, no entanto, estava completamente desiludido com sua profissão e dizia não aguentar mais ter de inventar qualidade de produto para obter serviço. Tinha duas características marcantes: impossibilidade total de se relacionar com imbecis e, outro muito pior, enxergar o futuro na frente de todos no mínimo vinte anos.

Certa vez, Galvão fez um paper – “Pedagogia da Tela” – que eu apresentei aos professores e à coordenação pedagógica da faculdade que dirigia. Ele foi completamente execrado porque dizia, em 1983, que a tendência no futuro seria a fusão do computador com o telefone e a televisão e que nas telas estariam todas as informações para se produzir o conhecimento. Quem formatasse as melhores telas para ensinar substituiria o professor tradicional e seria um professor de sucesso no futuro. E dava a receita: “a tela deve ser tão persuasiva como uma mensagem publicitária, capaz de entreter e argumentar, de modo absoluto para que o consumidor seja convencido pelo seu conteúdo”. Repetia sempre que daqui pra frente quem iria ensinar seria a tela, aliás como sempre o fez, e citava exemplos: tela de papel, de barro, de madeira, de pedra e quadro negro.

Imagine se Galvão estivesse vivo e tomasse conhecimento da pesquisa feita pela Horizon Report 2013 que citei na semana passada em artigo publicado no blog da ABMES, abordando o tema tecnologias, tendências e desafios no ensino superior até 2018.

A utilização da estratégia do Massive open online courses (Mooc) muda completamente o estágio atual dos cursos a distância meramente expositivos, para uma relação de interatividade por meio da qual os alunos utilizam todos os programas da internet para trabalhar em conjunto, adquirir competências e habilidades.

A utilização da Gameificação (jogos) como desafio de aprendizagem para propor soluções de problemas educacionais de qualquer ordem já começa a acontecer em algumas escolas. O uso dos tablets e smartphones, pela sua portabilidade, será cada vez mais demandado pelos estudantes de todo o planeta bem como os programas analíticos que informam por meio de pesquisas as deficiências específicas de cada cidadão. Em breve, a impressora 3D e a tecnologia aplicada aos vestuários serão aperfeiçoadas para ajudar as pessoas a aprender.

Por mais inacreditável, nas tecnologias informacionais estão presentes a computação, a internet e a tela e tendem a se aprimorar cada vez mais, vencendo as barreiras do tempo, do espaço e da qualidade de imagem, além da possibilidade de serem aplicadas no ensino presencial e no ensino a distância. O que muda essencialmente são os papéis do professor e do aluno, porque o foco está “em aprender” no lugar de “em ensinar” e em distinguir informação de conhecimento.

José Armando Valente[1] diz: “Informação é o fato, é o dado que encontramos nas publicações, na Internet, ou trocando textos. O conhecimento é a informação interpretada, relacionada e processada”. Para ele, no paradigma antigo, o professor ensina quando transmite a informação ao aluno e este consegue memorizá‑la. No atual, o aluno aprende quando ele constrói o conhecimento interagindo no mundo dos objetos e das pessoas. Exemplificando: o professor é capaz de dizer como se faz uma parede. Isto não gera conhecimento se o aluno não souber como unir as paredes e fazer uma sala.  “Ensinar deixa de ser o ato de transmitir informações e passa a ser o de criar ambientes nos quais o aprendiz possa interagir com uma variedade de informações e problemas. Orientado pelo professor, ele consegue construir novos conhecimentos e relacioná‑los com o mundo real”.

Deixando claros esses conceitos e principalmente a mudança – não a extinção – do papel do professor, a transformação educacional vai ocorrer, não porque a escola assim o deseja, mas porque a atual geração de estudantes navega com inteira facilidade na tecnologia da informação. Bem orientados, os indivíduos de qualquer idade serão capazes de interpretar informações e aprender sozinhos.

O mais importante de tudo, seja com que denominação for – Ronaldo Mota chamou o novo professor de organizador e gestor de informação para fins de aprendizagem – é que por trás da tela estará um profissional com função múltipla muito mais importante que a transmissão oral de hoje, capaz de criar conteúdos interessantes, contar histórias e enredos, com o apoio de uma equipe de operadores: pedagogos, designers, consultores, filmadores, orientadores e monitores. A tela, seja ela de cinema, de TV, de celular, de notebook, de tablet, de computador ou de qualquer outra espécie, será a grande portadora de experiências, atividades e informações geradoras do conhecimento.

Evidentemente que no Brasil está tudo no início, embora diversas universidades já tenham obtido êxito com o uso de novas tecnologias em cursos de pós‑graduação e de especialização. Perguntas costumeiras sempre serão apresentadas: O aluno brasileiro será persistente para fazer um curso que não tenha contato pessoal? Ele será disciplinado para acompanhar um curso em que, diferentemente do presencial, a interatividade vai ser a estratégia principal e a cobrança vai ser diária? Por essas diferenças, o aluno será mais envolvido, mais avaliado e mais presente com a tela, por mais paradoxal que pareça.

É por isso que a “Pedagogia da Tela” ficará cada vez mais importante: quem conseguir ensinar por ela estará adiante de todos. Essas mudanças estão acontecendo agora e o futuro mostrará se valeu a pena crescer construindo paredes – o que todos sabem fazer – ou desenvolvendo as novas tecnologias para a modernização do ensino.



[1] Professor e Chefe do Departamento de Multimeios, Mídia e Comunicação do Instituto de Artes, e Pesquisador do Núcleo de Informática Aplicada à Educação (Nied) da Unicamp, e Professor colaborador do Programa de Pós-Graduação em Educação: Currículo, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (Puc-SP).

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