Destaques
Facebook
Twitter

    Sorry, no Tweets were found.

Print Friendly, PDF & Email

Gabriel Mario Rodrigues2Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da ABMES
***

“Somos um país de pelo menos dois Brasis, e na educação não é diferente. Somos um pais em que interesses particulares e corporativistas dominam setores inteiros do estado nacional, obstruindo qualquer possibilidade de gestão e funcionamento eficientes, o que também ocorre na educação.” (João Batista Araújo e Oliveira)

O primo pobre e o primo rico faziam parte do programa humorístico “Balança, mas não Cai”, que era um sucesso estrondoso na televisão da década de sessenta. O primo pobre (Brandão Filho) ia sempre ao apartamento luxuoso de seu primo rico (Paulo Gracindo), buscando solução para algum problema de ordem financeira e saía sempre desacorçoado e com as mãos abanando.

O quadro, bem ao gosto dos espectadores, mostrava as incongruências e incoerências das classes sociais. O pobre, como sempre, vitimizado, que sofria da “coitadice” nacional, e o rico, reverenciado pelas lantejoulas douradas e levando vantagem.

Estou contando esta história porque há semanas os jornais estão publicando o anúncio de lançamento no ano que vem de majestosa instituição educacional americana, que vai oferecer cursos nos níveis fundamental e médio por R$ 8 mil reais mensais (Escola com mensalidade de R$ 8.000 já tem 2.000 pais interessados em SP). Com bons gestores e os melhores professores de São Paulo, certamente ofertará bom ensino. Seus diplomados cursarão as melhores faculdades do mundo e se tornarão profissionais cobiçados pelas maiores empresas globais. Advém de famílias do extrato social e econômico mais elevado do país, que puderam investir em educação para o bem de seus filhos. É o nosso primão rico.

Na outra ponta, o primo pobre, a escola da comunidade quilombola de Vão das Almas, na zona rural de Cavalcante, em Goiás, representando as milhares de escolas distribuídas pelo país. Não têm sanitários, não têm uma latrina, mas um paupérrimo “boi” em linguagem de presídios – um buraco numa lajota de cimento.

Vejam o campo de esportes e a sala para pesquisas. Não há bibliotecas, nem laboratórios, sem falar da clamorosa falta de giz, carteiras, lousas, iluminação. Internet então, nem pensar.

Enquanto o exemplo mostrado é desestimulante, a burocracia do estado continua discutindo os currículos, como se fossem a salvação nacional e, hoje, depois de milhares de palpites, tudo continua na mesma. Em relação ao Plano Nacional de Educação, as dificuldades de implantação continuam.

A escola rica e a escola pobre mostram que nosso país tem desigualdades tão distantes que fica muito difícil fazer uma comparação entre elas.

Por ninguém estar satisfeito com esta situação, trouxe para reflexão o livro “Repensando a educação brasileira”, do prof. João Batista Araújo de Oliveira (editora Atlas), que indica as seguintes causas responsáveis pelos problemas:

 

  • Falta de pressão para mudar

De forma geral, a sociedade está acomodada com a situação. As famílias classes A e B contratam para seus filhos as escolas da moda, que melhor preparam para o Vestibular das Públicas. Da mesma maneira, as da classe média se contentam com o ensino médio público. O problema está com as restantes, de nível igual ou pouco melhor do que o mostrado.

  • A vala comum “o Brasil é assim”

Para a população mais desinformada e conformada, a educação, o transporte, a saúde, a segurança e os serviços públicos em geral são o que estão disponíveis. Poucos têm a percepção que um país com gente mais instruída será melhor e mais viável.

  • Manutenção da estratégia expansionista

A implementação do sistema educacional brasileiro começou com 200 anos de atraso. A industrialização iniciada em 1950 pressionou a educação pública com os fluxos emigratórios que vinham para as cidades e que demandava educação. Só para se ter uma ideia, o Brasil tem mais gente na escola hoje, do que sua população nos anos cinquenta.

  • O clientelismo político

Na educação nada é planejado, principalmente por estes interiores afora. O crescimento atende aos interesses eleitorais, com jeito para tudo no troca-troca dos gabinetes. Professores são nomeados pelo compadrio com as autoridades. A merenda se arruma, o transporte escolar se consegue e escolas são construídas para atender os políticos.

  • A burocracia

Da mesma forma que o clientelismo, a burocracia afeta o cidadão, a empresa e a sociedade. Tudo funciona na base de criar-se dificuldades para conseguir facilidades.

  • O corporativismo crescente e seus reflexos

O corporativismo é legítimo para defender interesses comuns dos membros de uma entidade e mesmo sua sobrevivência. Mas tem limites, quando sobrepõe os direitos dos outros e do bem comum. Pior ainda quando envolve ideologias políticas que visam se eternizar no poder.

  • As distorções do federalismo brasileiro

O grande e complexo problema de como distinguir melhor entre responsabilidades de atuação e recursos financeiros, dentro do balaio dos órgãos federal, estaduais e municipais.

  • O despreparo de lidar com novas clientelas

A população mais expressiva da escola hoje advém das classes sociais de menor poder econômico e de cultura. Os sistemas de ensino e professores não estão preparados para trabalhar com estes estudantes, tanto sob o ponto de vista de vencer os desafios cognitivos e os comportamentais.

  • Dificuldades crescentes na gestão escolar

Vivemos numa sociedade em transformação em todos os seus segmentos e latitudes. E os problemas se materializam na escola que não formou gestores para os novos tempos.

  • A escola sob suspeita

Com todas estas preocupações e por centralizar não só as questões educacionais, a escola está sendo requisitada para solucionar tudo que a sociedade não consegue suprir. E ela tem de resolver os desafios ligados a segurança, conforto, consolo, assistência religiosa e psicológica, orientação para o trabalho e até apoio a família.

  • Corrupção secular

Não está no livro, mas ontem no evento do Criança Esperança os economistas da Globo calcularam que o país perdeu com a corrupção um trilhão e seis bilhões de reais que poderiam estar servindo, no mínimo, para não termos 13 milhões de desempregados.

Em resumo, lembro de artigo que li há algum tempo, no qual o autor testemunhava que no mundo inteiro há um desencanto com projetos educacionais. Em todos os países, por maiores que fossem os investimentos em equipe de profissionais especializados e com seus altíssimos custos, ninguém está satisfeito com os resultados. Mas uma coisa o prof. João Batista tem razão: no Brasil falta por parte de todos uma consciência pública sobre o valor da educação como promotora de recursos humanos para o desenvolvimento. Educação não é prioridade para o estado brasileiro. As famílias ricas e de classe média consolam-se com as escolas particulares, pois classificarão seus filhos para as melhores universidades. Portanto, não há massa crítica para pressionar o ensino público para uma melhor efetividade.

O que é de pasmar é com a elite empresarial, pois sentem no dia a dia o efeito da má educação. Eles têm em suas mãos dados de pesquisas que mostram a relação entre educação e produtividade e sabem que seus clientes estão sempre exigindo inovação, o que só acontece com pessoal preparado. Gastam fortunas com recrutamento, demissões por desajustes e treinamento de pessoal. Mas, como diz o prof. João Batista, não reclamam, não pressionam e não cobram.

Por todos estes motivos, se desejarmos vencer o desafio de consolidarmos uma melhor educação para enfrentar o século 21, precisamos enfatizar que a solução não pode depender só do governo, mas também de pessoas mais lúcidas e profissionalmente realizadas. Conhecemos uma série de instituições preocupadas com esta questão, como exemplo, a Fundação Lemann que está disponibilizando recursos para melhorar a educação.

Mas são esforços dispersos e, mesmo por parte dos mantenedores das instituições de ensino superior brasileiras, não conheço alguma realização mais expressiva. Por isto, não posso deixar de registrar novamente o exemplo de Sebastião Pereira Duque, que mencionei em artigo anterior (Um furacão de “Sebastiões” para melhorar o Brasil).

Com 72 anos e profissão de catador de papel, Sebastião Pereira Duque dá exemplo de solidariedade ao construir uma escola para 75 crianças. A escola Nova Esperança mexe com os brios de todos nós, principalmente com aqueles que acham que escola boa para melhorar o desempenho dos brasileiros é um problema só do governo. O que seu Sebastião está fazendo é um tapa na cara de todos que pensam que milhares de horas discutindo currículos em congressos resolve alguma coisa. Temos 150 mil escolas de ensino fundamental que não vão bem. O que cada um de nós pode fazer, dentro de suas possibilidades, tendo como exemplo o cidadão Sebastião Pereira Duque? Este sim que é um desafio para valer, unir milhares de Sebastiões para dar um jeito na educação do Brasil. Mãos à obra, minha gente.

Avaliar

Uma resposta para “Primos pobres e primo rico na educação”

  • Excelente artigo prof. Gabriel, o descaso com a educação em nosso país é revoltante, e com certeza deve ser prioridade em qualquer ação pública ou privada. Tudo começa com a educação. Por um país mais justo, solidário e cidadão.

     

Deixe uma resposta

Números do Ensino Superior
Categorias
Autores
Arquivos
Visitantes
wordpress analytics