Lucy Kellaway
Valor Econômico, publicado em 29/10/2012
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Na semana passada, fiz uma palestra para um grupo de trainees de um banco bastante conhecido da City de Londres. Faz exatamente três décadas que eu mesma comecei um programa de treinamento de recém-formados em outro banco que fica na mesma rua, uns cem metros adiante. Assim como os trainees modernos, passei um outono sentada ouvindo educadamente pessoas que davam palestras sobre isso e aquilo.

Mas agora, sendo a pessoa que está falando, comecei a pensar em como eu era anteriormente e algo estranho me ocorreu. O mundo do trabalho deveria ter mudado demais de lá para cá, mas isso não aconteceu. Para os trainees, nada importante mudou.

É claro que nem tudo continua igual. Uma fotografia dos recém-admitidos no Morgan Guaranty de Londres em 1981, mostrava oito homens e uma mulher – eu. Éramos todos brancos e o único que não havia estudado em Oxford cursara Cambridge. No grupo da semana passada, metade era do sexo feminino, nem todos eram brancos e nem todos eram de Oxford ou Cambridge.

A tecnologia também mudou muito. Atrás de mim, na semana passada, havia uma tela preparada para exibições em PowerPoint que eu acabei não usando. Todos na plateia tinham um celular ou um BlackBerry para se distrair. Em 1982, sentamos diante de gráficos desenhados em folhas de papel e nos distraíamos rabiscando observações em pedaços de papel. Lembro de ouvir com espanto um homem nos dizendo que o banco havia comprado algo extraordinário: uma máquina de fax.

Até mesmo a forma de palestra que eu dei – uma conversa informal durante o almoço – seria impensável no começo dos anos 1980. Na época, a pausa para o almoço era mesmo uma pausa: a menos que estivesse com clientes, tinha exatamente uma hora para comer. Até mesmo as coisas que mastigamos mudaram (em 1982, eu não conhecia comidas exóticas como bagel e samosa).

O ritmo das coisas também mudou muito de lá para cá. Os recém-formados modernos estavam passando por um programa de apresentação de três semanas. O nosso durou um ano inteiro: pensava-se na época que não havia sentido em apressar o processo de doutrinamento, uma vez que a expectativa era de que ficaríamos na firma pela vida toda. Mas hoje ninguém espera isso dos rapazes. Uma pesquisa recente sugere que jovens brilhantes estão o tempo todo buscando oportunidades de emprego melhores e passam em média 28 meses com um empregador (o que é mais tempo do que eu durei no Morgan Guaranty, embora isso seja outra história).

Mas, apesar de todas essas mudanças – a maior presença da mulher, a ascensão das comidas exóticas e as mudanças tecnológicas, e a queda da formalidade e o pouco valor à segurança no trabalho -, eu ainda poderia fechar os olhos e me imaginar em 1982, aparecendo para trabalhar com uma inoportuna roupa de marinheiro, que acreditava ser o que os banqueiros usavam.

O que não mudou é a mais poderosa de todas as coisas. O clima na semana passada era exatamente igual: uma mistura potente de ambição e ansiedade, de rivalidade e camaradagem. Era tão poderoso que era quase possível cheirá-lo.
As coisas que incomodam os trainees para quem falei são as mesmas coisas que nos incomodavam. Sei que a geração Y deveria ser obcecada com todos os tipos de coisas para as quais não tínhamos tempo. Eles deveriam querer um significado para seu trabalho, aspirar um equilíbrio entre a vida profissional e a vida particular e se preocupar com a sustentabilidade.

Mas nenhum dos trainees perguntou nada do tipo. Em vez disso, o que eles queriam saber era totalmente familiar: como ser promovido? Trata-se de sorte, capacidade ou política? Essa pergunta não mudou, assim como a resposta: você precisa ter uma certa dose de capacidade para ser até mesmo considerado; além disso, é sorte e política em medidas iguais.
Eles também queriam saber como fazer política. É sábio discordar do seu chefe? A resposta a isso deveria ter mudado muito. Costumávamos ser ultraconservadores, mas agora as hierarquias foram varridas e todo funcionário dos escalões inferiores é encorajado a manifestar seus pontos de vista. Mas esta não é a resposta. Vai depender da natureza do chefe, como sempre foi. Alguns estão abertos a discussões e outros não.

Acho que há algo reconfortante nesses princípios universais que moldam a vida nos escritórios. Ou o trabalho é interessante, ou é chato. Os colegas são divertidos ou maçantes. Os chefes são agradáveis ou detestáveis. Todos queremos a primeira opção e não a segunda. É assim que era, é e será quando a geração Y estiver em programas de trainee em 2042.

 

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