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Gabriel Mario Rodrigues
Presidente do Conselho de Administração da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)
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“A Educação sozinha não faz grandes mudanças, mas nenhuma grande mudança se faz sem educação”. Bernardo Toro (1)

Fim do ano passado tive um amigo hospitalizado no Albert Einstein durante as festas natalinas devido a uma cirurgia complicada. Falando comigo depois do susto dizia eufórico que nos hospitais época de Natal e Ano Novo são dias comuns; todo mundo trabalhando, médicos, enfermeiros, atendentes, segurança, limpeza e mais de milhares de funcionários, todos atuando em seus setores, enquanto a população comemora o as festas de fim de ano. O mesmo acontece na cidade onde há gente festejando e outros em suas tarefas habituais. Lembrei-me desde fato pelo que foi trazido pela mídia sobre o feriado da independência, informando que “o governo está flexibilizando tudo, menos a escola”, obrigada a permanecer fechada. Dedução equivocada dela: “a praia foi valorizada e a escola não”. Esquecendo que na mesma data deveriam estar trabalhando pelo Brasil afora muito mais gente que os amantes da praia.

Por essas constatações, o desafio que temos pela frente, além de outros, é de fazer o aprendizado ser tão prazeroso como o lazer, a praia e o futebol. Trabalho e lazer são complementares e, bem distribuídos, fazem bem à qualidade de vida.

Mas o problema maior não é esse, e sim o fato das nossas desigualdades sociais serem tão alarmantes, o que só pode ser abatido por uma boa educação, num contexto em que as mesmas oportunidades sejam oferecidas a todos. Única estratégia de desenvolver a nação de maneira inteligente. Mas nem Estado, nem famílias, nem empresas, nem sociedade pensam assim e ainda não perceberam que pandemia mais assustadora vai ser a de não termos gente devidamente qualificada e capacitada para enfrentar os desafios profissionais das próximas décadas.

A classe mais privilegiada e a classe média sabem disso, mas ensino para pobre não lhe dizem respeito, ou pelo menos fingem que não. É problema de governo. Como mostrar para o brasileiro de forma geral que uma boa educação é importante, necessária e fundamental para as pessoas e para o desenvolvimento do país e que deveria estar na cabeça de todos? Deve ser meta da família, do estado, das empresas e de toda a sociedade. Nessa direção, nada tão oportuno como o artigo A escola pública dos nossos Sonhos, do articulista do Estadão Nicolau Rocha Cavalcanti que escreveu:

“O ideal de uma escola pública de qualidade é uma aspiração compartilhada pelos brasileiros. Sabemos que o desenvolvimento social do País passa pela melhoria do ensino público, no qual 82% das crianças e dos adolescentes brasileiros cursam a educação básica. A melhoria é vista como elemento social relevantíssimo, mas seria precisamente isto: uma questão social para os menos favorecidos. A escola pública de qualidade não é o local que se deseja para o próprio filho”.

Os mais ricos pensam igualmente que a escola pública é para pobre. Porque além de poderem enviar os seus para as melhores escolas do país e do exterior, já têm capital reservado para três gerações.

A classe média, sabendo da importância dos estudos, investe tudo o que pode na educação dos filhos, pela importância da ascensão social que representa. Qual a mãe ou o pai que não faz hora extra para poder pagar escola particular para o filho (“meus filhos não vão estudar com favelados”)? Não faz parte do anseio da classe média ter uma boa escola pública. Os afortunados e a classe média, embora invistam nas melhores escolas para os seus, acham que escola pública é com o governo. As famílias de menos recursos, com problemas, mesmo de subsistência, em sua maioria não possuem condições de dar assistência educacional aos filhos, e estes ficam na dependência das escolas públicas. Nas classes menos privilegiadas – D e E – não é aspiração da família os filhos fazerem um curso superior. Se fizerem um técnico está bom. A educação é pouco vista como meio de melhorar a vida pelos mais necessitados e nem de grande importância para o desenvolvimento.

País em crescimento com problemas em todas as áreas e com poucos recursos para investimento, a educação nunca foi pensada nacionalmente como solução e não teve a atenção devida dos governantes. Para transformar a educação levar-se-ia dezenas de anos e, não havendo plano de estado, os governos que dependem de eleições para se manterem no poder optam por projetos imediatistas para mostrar seu trabalho. E mesmo o MEC não tem foco no ensino básico porque é coisa para município e estados.

Conclusão é o que escreveu Rocha Cavalcanti, “todos torcem pela construção de uma boa educação pública, uma estrada que não desejam trafegar”. E assim não saímos do círculo vicioso: sem educação a desigualdade social entrava o progresso e sem progresso o país não vai para frente.

Já abordei em diversos artigos as mudanças exponenciais que as tecnologias estão criando nos ambientes em que vivemos e trabalhamos.

Ensinar aos estudantes daqui para frente a fazer o que as máquinas não sabem é um desafio pequeno face ao retreinamento que as dezenas de milhares de pessoas precisarão fazer devido à mudança do perfil dos novos trabalhadores exigidos pelo mercado.

Tenho certeza de que precisa ter alguém no governo pensando nisso e não tem. Por isso quando idealizamos o Movimento Brasileiro de Conscientização da Educação um dos primeiros trabalhos a serem feitos será o de pesquisar o que os Institutos, as ONGs e as universidades estão planejando em torno do tema. Mas como precisamos ter foco, o desafio a vencer será o de fomentar uma Consciência Nacional de longo prazo, que aceite tratar a educação de base como prioridade central com três metas:

  • estar entre os países de melhor educação,
  • não perder nenhum cérebro por falta de escola e
  • fazer do aprendizado um ambiente alegre e prazeroso que todos gostem de participar.

Tenho alguns amigos pensando em como viabilizar o projeto e colocá-lo em pé e como construir uma massa crítica de educadores, que pensam da mesma forma e que acreditam que não se trata de uma utopia. A melhor estratégia é pensar fora da caixa e contar com as novas tecnologias para viabilizar ideias jamais pensadas. Mas o primeiro passo será a questão da Comunicação para formar as redes colaborativas que possam atuar e levantar a autoestima para quem acha que nada sabe (já escrevi sobre o pastor que por via Whatsapp trocava mensagens com trabalhadoras domésticas de como melhorar de vida) e já entramos em contato com clube de aposentados que estão dispostos a ensinar em suas disponibilidades. Pensamos num projeto piloto para colocar em prática e logo começar a treinar os jogadores para os campeonatos que virão.

É hora de pôr a mão na massa e fazer acontecer!

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Uma resposta para “Quando será que o Brasil vai concorrer ao campeonato mundial de educação?”

  • PAUL IVAN VADAS says:

    Havia uma época, nas decadas de 50 e 60, quando em São Paulo a escola pública Caetano de Campos era tão disputada quanto é hoje cursar a USP. As famílias das classes mais favorecidas faziam questão de ver seus filhos cursarem essas escolas. O que comprova: escola pública de qualidade é questão de políticas públicas de qualidade.

     

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