Ronaldo Mota
Diretor Científico da Digital Pages
Membro da Academia Brasileira de Educação
***

Em tempos difíceis de interpretar o presente, muito mais complexo palpitar sobre o futuro. Mesmo assim, inevitável pensar sobre a aprendizagem que as experiências em curso nos deixarão, enquanto legado, para o amanhã.

Um sumário abreviado, imaginariamente feito no futuro, ressaltará que desprezamos alertas claros sobre a irresponsabilidade do consumo de animais exóticos, reservatórios de vírus, cujos resultados no organismo humano desconhecemos.  Para quem não sabe, em 2007, um grupo de cientistas chineses fez um grave alerta sobre o tema em artigo publicado na American Society for Microbiology.

Da mesma forma, haverá uma consciência bem mais ampla sobre a loucura de elegermos governantes que claramente desprezam ciência, educação e cultura. Trata-se, em qualquer lugar do mundo, de um tiro no pé, na perna, no corpo e, especialmente, na alma. Portanto, terá ficado evidente não comer pangolins ou eleger despreparados.

No futuro, saberemos que, ao longo da crise, aprendemos muito mais acerca de coisas que afetam nosso cotidiano. Crises, particularmente crises severas como a atual, nos obrigam a absorver ensinamentos mais rapidamente. Como dito, em 2003, por William Gibson: “O futuro já chegou, somente não está igualmente distribuído”. Após a crise, teremos aprendido mais uniformemente.

A modalidade educação a distância não chega a ser uma novidade, dado que ela já demonstrara antes da crise seu enorme potencial. Porém, ao final da crise, educação digital terá se consolidado num patamar inimaginável. Aquilo que alguns já sabiam, todos saberão. Todos aprendemos o tempo todo e em qualquer contexto, com cada um podendo optar sob que condições aprende mais e melhor (educação híbrida flexível e personalizada).

Obviamente não será o fim das atividades presenciais. Ao contrário, será o começo da exploração racional daqueles momentos. Naquilo que eles têm de mais especial e maduro e enriquecedor.  A assimilação preliminar de conteúdo se dará, geralmente, via as ferramentas digitais disponíveis, com ganhos evidentes sobre a educação tradicional presencial.

Sobre trabalho remoto, o que alguns vanguardistas pioneiros já o faziam antes da crise terá se disseminado na mesma proporção do vírus. Todos terão aprendido que é mais do que plenamente razoável trabalhar (também) de casa. É mais produtivo, obrigando os momentos presenciais na empresa serem muito bem justificados. Aquilo que moldou nossa organização para o trabalho remonta aos séculos anteriores, em função dos modelos de desenvolvimento econômico da época. Por tradição mantivemos a rotina, ainda que a ampla maioria chegue aos seus postos de trabalho, com flutuações em função de peculiaridades de cada ofício, liguem um computador, ali passem o dia e, na hora acordada, desliguem as máquinas e retornem para casa. Teremos percebido o absurdo desses procedimentos.

Sobre o tema mais candente, a saúde, a telemedicina hoje é parcialmente aceita e ainda com várias restrições. No futuro, muito próximo, acelerado pelo intenso uso durante a pandemia, a telemedicina será adotada consensualmente. Mais do que isso, será praticamente obrigatória, antecedendo qualquer procedimento médico. Aquilo que era tolerado e suspeito passará a ser compulsório e naturalmente incorporado. Por fim, teremos vaga memória de como teria sido a saúde sem seu uso generalizado.

Sobre a telejustiça, impossível delimitar suas possibilidades, mas as cerimônias de casamento ocorridas durante a crise são evidências das possibilidades imensas de desburocratizarmos todas as instâncias de recursos, debates e decisões legais.

Sobre a telepolítica, a aprovação do estado emergência pelas duas Casas, Senado e Câmara dos Deputados, terá sido o embrião de uma riqueza de oportunidades. Não somente de decidir, no caso emergencialmente, mas de promover uma participação permanente, consciente e esclarecida, sem precedentes na história da democracia.

Sobre compras online, ainda que seja há anos a área da economia de varejo que mais cresce em vários países, o hábito de compras de supermercados terá se espalhado como pólvora, sem condições de regredirmos para os atuais corredores apertados dos supermercados, sem nenhum glamour ou atrativo. Além disso, em tempos normais, poderemos saber para cada produto em qual dos fornecedores o melhor preço está sendo ofertado. Isso já existe, mas aquilo que era embrionário será rotina generalizada.

Outra relevante transformação será de outra escala. Vivemos, no passado que ainda invade o presente, em diferentes níveis, a ilusão da possibilidade de um mercado que se autorregule, dispensando, total ou parcialmente, o Estado. Descobriremos que o que desejamos é um Estado racional e competente, no tamanho adequado (nem maior e nem menor) capaz de fazer frente às maiores necessidades, especialmente nas áreas de saúde, educação, infraestrutura e ciência & tecnologia.

As maiores mudanças serão de natureza subjetiva e, certamente, muito complexo descrevê-las, mas teremos aprendido, especialmente, o valor da solidariedade. Não somente por motivos caridosos ou religiosos (ambos respeitáveis), mas também por necessidade racional de sobrevivência. Nossos ancestrais não abandonavam um indivíduo que quebrava o fêmur, não o deixando à própria sorte, constituindo uma das marcas do início de nossa civilização. Aprenderemos, uma vez mais, o valor da vida em comunidade.

Em suma, passaremos tempos muito difíceis, ainda que, lá ao final, as aprendizagens terão sido de grande valia. Que possamos todos cruzar essa ponte, sendo que do lado de lá um futuro melhor nos aguarda. Haverá sim um mundo de pessoas mais felizes e esclarecidas.

Avaliar

Deixe uma resposta

Números do Ensino Superior
Categorias
Autores
Arquivos
Visitantes
wordpress analytics