Luli Radfahrer
Folha, publicado em 2 de janeiro de 2012
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É incrível como o ambiente se transformou nas últimas décadas. Não é preciso ter cabelos brancos para lembrar da infância como um lugar distante, remoto, caipira. Entre os mais novos é comum a surpresa com a vida pacata de seus pais e avós em comunidades cuja maior rede de comunicação era a fofoca e a realidade mais próxima da Virtual era o Paraíso. Mesmo com eletricidade, TV e telefones, o mundo de 1982 ainda seria compreendido por alguém vindo de 1482.

Não mais. O Futuro, tão anunciado na segunda metade do século passado, parece que finalmente chegou. Presente e imprescindível, ainda que mal-distribuído, ele parece mágica. As inovações cotidianas, de Skype em celulares a chocolates belgas em pleno sertão, são tão rápidas que atordoam. Muitos cultuam Bill Gates, Steve Jobs ou Jeff Bezos, acreditando que a mudança seja invenção deles. Bobagem. Ninguém inventou a confusão, todos são cúmplices.

Alfabetizados à base de Aplicativos, Bluetooth e Compartilhamento Digital, as crianças que nasceram depois de 2005 são a maior evidência dessa transformação. Bem diferentes de seus pais e irmãos mais velhos, são incapazes de imaginar o mundo desconectado e têm dificuldade em diferenciar Deus do Google. Acima de tudo, não entendem o apego de seus pais a títulos, atitudes, relacionamentos, empregos, instituições e hierarquias que, para eles, não fazem o menor sentido.

No mundo que vem por aí não há lugar para absolutos. Tudo se torna cada vez mais relativo, medido por comparações. A ordem foi substituída por um Caos administrado, cheio de variáveis como um videogame. Originais foram trocados por pastiches, o coletivo perdeu importância para o personalizado, a contenção deu lugar ao hedonismo e o comportamento passivo e coletivo parece ter sido substituído por uma postura ativa, egocêntrica, insolente. O mundo offline está cada vez mais parecido com seu equivalente online. A vida continua a imitar a arte.

Sem alarde, a sociedade estática se tornou dinâmica, sujeitando praticamente todas as regras à experimentação. Não existe mais coisa de homem, de mulher, de criança ou de velho. A sexualidade se tornou apenas uma dentre as várias manifestações de uma identidade maleável, que se adapta a cada ocasião. As antigas correntes de pensamento foram combinadas em um ecletismo transmídia, em que hipsters meio intelectuais fazem Yoga em sessões de Pilates, assistem a Missa do Galo, se vestem de branco e atiram flores para Iemanjá.

Não há mais espaço para rótulos ou categorias. Blogs, Twitter, Facebook, YouTube e tantos outros não são revoluções: são a válvula de escape daqueles que, pela primeira vez, passaram a ter voz e influência. A Primavera Árabe e a ocupação de Wall Street mostram que há interesse em participação política, mas não da velha forma. Hoje que Direita e Esquerda fazem parte de um Centrão insosso e desinteressante, a manifestação social mudou de forma.

A Internet e o Celular aceleraram a transformação, ao eliminarem a crença no “amanhã” e colocarem todos em um presente contínuo, hermético, controlado por processos cada vez mais complicados, em que tudo parece mais próximo e transparente. Marshall McLuhan chamaria esse mundo pequeno de Aldeia Global, mas vilarejos são ambientes restritos e limitados, não há aldeia que comporte tantas tribos. Em comunidades fechadas todos queriam pertencer, hoje a regra é se diferenciar. Não há mais tempo para rituais e históricos, a identidade passou a ser externa e baseada em símbolos que mudam rápido. As credenciais são medidas pela informação consumida e exibida em atualizações em mídias sociais.

A mudança é grande e o trabalho para compreendê-la é exaustivo. Como nem todos estão dispostos a esse aprendizado, muitos criam rótulos. Chamam a nova conjuntura de pós-modernidade, de web 2.0, de sociedade do espetáculo, de realidade líquida. Nenhum desses rótulos consegue explicá-la a contento.

Vivemos hoje uma espécie de adolescência, fase turbulenta e necessária, característica de uma mudança de fase. Como a puberdade, não adianta criticá-la, ignorá-la ou classificá-la. É preciso assimilar suas mudanças para reconfigurar a forma de se comportar perante o mundo. Caso contrário a angústia, o estresse e o consumo só aumentarão. E as respostas não virão.

Feliz ano novo. Na beira do abismo que chamamos de Futuro, nada mais será como antes. O homem dos próximos séculos será, provavelmente, bem parecido conosco. Mas falará uma língua intraduzível. Para compreendê-lo é preciso entender a adolescência das interações. E aproveitar o máximo dessa fase para se preparar para o que virá pela frente. 

Luli Radfahrer é professor-doutor de Comunicação Digital da ECA (Escola de Comunicações e Artes) da USP há 19 anos. Trabalha com internet desde 1994 e já foi diretor de algumas das maiores agências de publicidade do país. Hoje é consultor em inovação digital, com clientes no Brasil, EUA, Europa e Oriente Médio. Mantém o blog www.luli.com.br, em que discute e analisa as principais tendências da tecnologia. Escreve a cada duas semanas no caderno “Tec” e na Folha.com.

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