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Entrevista com Anna Penido, Diretora do Inspirare
Por Humus
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Os alunos, clientes das instituições de ensino, já acordam com a tecnologia do celular e a utilizam por todo o dia. Porém, ao chegar à escola, eles não vivenciam as facilidades tecnológicas, pois não é apenas colocar aparelhos como um computador ou um tablete nas salas de aulas. É necessário primeiro um desenvolvimento e abertura dos gestores da instituição para implantar mudanças no modo de ensinar e também de agir. Esta mudança é apropriada para todas as organizações, já que a tecnologia alterou a vida pessoal e profissional do mundo inteiro.

Um grande receio é que alguns imaginam que a inovação eliminará os professores, entretanto, ela auxilia para complementar o ensino, facilitar o aprendizado e ajustar as necessidades de cada aluno. Os docentes serão guias que ensinarão sobre valores, atitudes, trabalho em equipe, liderança, negociação, entre outros assuntos. Esses valores, por mais que os alunos tenham acesso a várias informações e sejam Independent learning (no significado de aprender sozinho), só são absorvidos com o convívio com outros estudantes e com o professor.

A palestrante Anna Penido, Diretora do Inspirare (instituto que busca inspirar iniciativas empreendedoras, programas e investimentos que melhorem a qualidade da educação no Brasil) e participante do painel: Independent learning – uma estratégia educacional para preparar os alunos para a inovação”, no GEduc 2013 – XI Congresso Brasileiro de Gestão Educacional & III Congresso Internacional de Gestão Educacional*, fornece abaixo algumas informações sobre esta mudança nas instituições de ensino:

 

1 – O que é inovação e como ela pode interferir na educação?
Entendemos inovação com a busca de novas soluções para responder a novas necessidades ou velhos problemas. É usar a inteligência, o talento e a criatividade para pensar fora dos padrões ao que a gente está acostumado para visualizar caminhos que, no dia a dia, talvez não tivéssemos condição de encontrar. A educação é uma área cheia de grandes desafios: como formar bem o professor, como valorizar o magistério, como fazer com que a educação responda às demandas do mundo contemporâneo, como dar sentido ao que se aprende, como avaliar o aprendizado de forma a acompanhar o desenvolvimento de competências para a vida, como garantir que a escola e os sistemas de ensino tenham uma gestão eficiente e democrática. As alternativas apresentadas até o momento não deram conta de responder a essas questões. Precisamos, portanto, pensar em novas soluções. Não apenas trazer algo diferente do que já existe, mas assegurar que o novo tenha impacto suficiente para romper ciclos perniciosos.

 

2 – Como preparar as Instituições Educacionais para os novos métodos de ensino? Qual a importância da gestão nesse processo?

É preciso plantar sementes de inovação que consigam brotar no âmago dos sistemas de ensino. Os professores, os diretores, os coordenadores pedagógicos, a família e os alunos precisam participar desse processo. É fundamental que essas sementes possam ser adaptadas, aprimoradas e efetivamente incorporadas por esses atores, que são os agentes da educação no dia a dia. Por outro lado, é importante também trazer atores de fora do sistema para enriquecerem e aportarem ideias novas e um certo frescor para a discussão. Ou seja, ao mesmo tempo em que é necessário permitir que os atores internos participem, sejam coautores e se apropriem das inovações, o sistema de ensino precisa estar mais permeável às influências e às inspirações que vêm do mundo externo. O gestor tem papel fundamental porque geralmente é ele que lidera o processo de inovação ou cria as condições para que a inovação aconteça. Um gestor convencional, tradicionalista, burocrático, não vai criar as condições necessárias para que as pessoas encontrem novas maneiras de promover o aprendizado que sejam mais interessantes e gerem melhores resultados. Mas, se ele é um gestor informado, antenado, que traz novas ideias para dentro da sua rede ou da sua escola, se permite que as pessoas tenham ideias e as implementem, testem, consolidem e disseminem, é muito mais fácil as inovações acontecerem. Digamos que o gestor é como um jardineiro. Se estamos falando sobre a metáfora da semente, o gestor é aquele que ara o terreno para que a semente possa brotar.
3 – Quais as principais características dos alunos das novas gerações? 

O mais importante é considerar que não existe um único perfil de aluno. Existem muitas adolescências, muitas juventudes, muitos perfis, que estão tendo cada vez mais espaço para se individualizar. São várias tribos dentro de uma escola, e muitos processos de inovação na educação caminham no sentido de considerar essas individualidades, para que cada aluno possa ver sentido na escola, do seu jeito, da sua maneira, com o seu ritmo, sua personalidade e seus interesses. Se tentarmos criar um perfil muito enquadrado para os alunos de hoje, acabaremos reforçando a ideia de uma educação massificadora, que não responde nem ao aluno de hoje, muito menos ao de amanhã. Ainda assim, temos algumas coisas a observar. Os estudantes têm acesso a muitas outras fontes de informação para além da escola, como os meios de comunicação, a internet e até mesmo os saberes populares, que estão nas suas comunidades, que vêm das pessoas com quem se relacionam. É fundamental que a escola hoje considere seu papel muito mais como uma mediadora da aprendizagem, que ajuda esses alunos a articular todas essas fontes de informação que já estão disponíveis.
4 – Qual a importância da tecnologia hoje e no futuro da sala de aula?

A tecnologia é uma viagem sem volta. Ela entrou na vida dos indivíduos, da civilização, de uma maneira muito profunda. Desde quando vamos sacar dinheiro no caixa eletrônico até o momento em que respondemos ao nosso e-mail, a tecnologia faz parte do nosso cotidiano o tempo inteiro. Assim também tem que ser na escola, porque ela faz parte desta realidade. Então, não pode haver um momento isolado para lidar com a tecnologia no laboratório de informática. Esses recursos têm que permear todo o processo educacional e até mesmo a gestão da escola. Estamos falando de uma entrada da tecnologia que vai transformando modelos, paradigmas, padrões. A forma como lidávamos com as instituições financeiras mudou por conta das tecnologias. A forma como lidávamos com o conhecimento também mudou. A maneira de lidar com a escola também tem que mudar. A tecnologia facilita o acesso a essas novas fontes de informação. Antes era só o professor e o livro. Agora os alunos têm acesso ao Louvre, à Universidade de Harvard, à Nasa, está tudo à nossa disposição. Se hoje temos um sistema de ensino massificado, em que todo mundo aprende a mesma coisa, na mesma hora, do mesmo jeito, a tecnologia pode fazer com que cada um possa aprender de jeitos diferentes. Eu aprendo com vídeo, você aprende com game, o outro aprende com texto, com exercícios. Cada um vai encontrar sua maneira, uns mais intermediados pela tecnologia, outros menos. A tecnologia permite também que a escola se conecte com o mundo, facilitando suas interações nas redes sociais e nas redes presenciais. Ela facilita, por exemplo, a comunicação entre alunos, professores e gestores de escolas de diversos países ou estados, para que possam intercambiar conhecimentos, desafios, soluções. A tecnologia entra na escola como tem entrado na nossa vida, mudando a maneira com que estamos no mundo. Não muda os princípios, mas, se bem utilizada, ajuda até a fazer com que a educação seja ainda mais coerente com os nossos valores.
5 – Comente um pouco sobre Independent learning.

Se esse conceito tiver a ver com o aluno que é totalmente autônomo, que vai aprendendo sozinho, recebe as ferramentas e toma conta do seu aprendizado, eu diria que precisamos tomar cuidado com isso. Têm estudantes com perfil para absorver e aprender conteúdos e até desenvolver competências sozinhos, de forma bastante autossuficiente, outros não. Diferentes perfis pedem diferentes abordagens. Tem pessoas que aprendem melhor com o outro. Além disso, tem uma parte da educação que requer muito mais do que domínio de conteúdos ou habilidades específicas. Falo da educação que promove valores, atitudes, comportamentos. Para isso, será sempre necessária a participação do educador. Não falamos de um professor especialista em um determinado conteúdo, mas de um mediador de aprendizagens, experiências, um orientador, guia, tutor, que vai ajudando o aluno a encontrar caminhos mais positivos, mais interessantes, mais ricos para o seu processo de desenvolvimento. Então, as plataformas de educação podem gerar a autonomia, mas a partir de uma lógica de interdependência, em que o outro é também uma fonte muito rica de aprendizado. Algumas instituições que optam por modelos em que o aluno aprende sozinho perdem a oportunidade de desenvolver uma série de habilidades que só aprendemos na relação com o outro, como trabalhar em grupo, exercer liderança e negociação.

 

6 – A educação mundial tradicional está evoluindo para a chamada Educação 3.0. Qual o seu ponto de vista sobre as instituições de ensino no futuro?

A educação 3.0 tenta compatibilizar os sistemas de ensino com o mundo contemporâneo. Não pretende criar um mundo paralelo ou uma educação futurista, mas de fato fazer com que a educação responda tanto à cultura quanto às demandas do mundo moderno. No caso do Brasil, por exemplo, vivemos em uma sociedade cada vez mais democrática, e a educação tem que ajudar as pessoas a desenvolverem suas competências para lidarem com esse contexto. Ao mesmo tempo, a educação tem que responder às demandas voltadas para a sustentabilidade. Vários recursos naturais estão ameaçados de extinção ou escassez. Como educar as pessoas para viverem no mundo contemporâneo, que está ameaçado por essas questões? Existem hoje também muitas especificidades das próprias relações e processos de trabalho. Como preparar as pessoas para lidarem com o mundo do trabalho como ele está organizado neste momento? Essas são só algumas demandas do mundo atual que precisam estar contempladas pelo processo educativo. O Português e a Matemática ensinados de uma forma tradicional vão de fato ofertar aos alunos as oportunidades que eles precisam para desenvolver essas competências, para lidar com o mundo do jeito que ele está organizado hoje e com as tecnologias do jeito que elas estão postas? Eu não acredito nisso. Português e Matemática são ferramentas muito importantes, mas a maneira como elas são ensinadas tem que se articular com o mundo lá fora. Se eu domino bem o meu idioma, vou conseguir conviver em uma sociedade democrática de uma maneira muito melhor, porque terei condições de ler melhor o mundo, ter mais senso crítico e vou poder também me expressar melhor, para fazer com que o meu ponto de vista possa ser contemplado. O que hoje são considerados temas transversais nos nossos parâmetros curriculares talvez sejam as grandes competências que a gente precise desenvolver, e os conteúdos disciplinares, esses sim, deveriam ser transversais aos assuntos mais relevantes, a partir das oportunidades e desafios que o mundo de hoje nos oferece.

 

* O congresso será realizado nos dias 20, 21 e 22 de março de 2013, no Hotel Maksoud Plaza, em São Paulo/SP. Para mais informações acesse: www.humus.com.br/geduc/

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