Celso Niskier
Diretor presidente da Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES)
Reitor do Centro Universitário UniCarioca
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No atual cenário da Covid-19, vivemos várias pandemias. Especialmente em um país nas dimensões do Brasil, cada região apresenta uma realidade e suas particularidades. Aos poucos, governos locais e representantes do setor de Educação se reúnem para definir protocolos e diretrizes para o retorno das aulas presenciais. O foco das soluções deve ser a segurança sanitária e a saúde de alunos, professores e demais profissionais.

A Associação Brasileira de Mantenedoras de Ensino Superior (ABMES) fez um trabalho de sensibilização no Ministério da Educação (MEC) que resultou na edição da Portaria nº 544, publicada no Diário Oficial da União em 17 de junho. A norma permite que as aulas remotas sigam até o final do ano, medida que deu mais segurança para que as instituições de ensino superior (IES) façam a programação da volta de acordo com a situação local e as necessidades particulares.

Algumas IES vão começar com as atividades práticas, que são as mais difíceis de migrar para o formato remoto. Outras vão manter apenas aulas remotas e esperar o final do ano para reavaliar o planejamento. E há ainda aquelas que preferem optar pelo modelo híbrido, combinando parte presencial – revezando os alunos – com atividades remotas. Para auxiliar nossos associados na retomada gradativa, elaboramos uma cartilha com orientações de como adaptar a estrutura física e padronizar os procedimentos.

Cada instituição tem autonomia para aplicar o plano de retomada e deve seguir as orientações dos governos locais. O importante, neste momento, é ter as regras claras para que o empreendedor educacional possa se programar com todos os cuidados de proteção da comunidade acadêmica, em especial dos que fazem parte do grupo de risco.

Independentemente de qual seja o plano de adaptação de volta às aulas presenciais, dois aspectos merecem destaque. O primeiro é a vitória diante de uma barreira: tanto alunos quanto professores entenderam que é possível aprender (e ensinar) usando a tecnologia, o que, até então, era um debate ideológico. Na avaliação dos docentes da UniCarioca no final do semestre, por exemplo, não houve diferença em comparação com a realizada anteriormente. Aqueles que foram bem avaliados em sala de aula continuaram com bom índice, independentemente dos recursos tecnológicos utilizados. O valor que o aluno enxerga está no professor e não no meio usado para transmitir o conhecimento.

Outro ponto relevante é a constatação de que o futuro da educação é o modelo híbrido. Ainda que 67% dos estudantes estejam satisfeitos com a migração para aulas remotas, 78% preferem continuar frequentando a graduação presencialmente, como demonstrou a pesquisa “Covid-19 vs Ensino Superior: o que pensam os alunos e como sua IES deve se preparar?”, divulgada pela ABMES em parceria com a Educa Insights.

Sem dúvida, a sala de aula continua sendo essencial para o processo de aprendizagem, entretanto, o uso desse espaço estará voltado para as metodologias ativas de fixação de conhecimentos, para construção de soluções. Nesse cenário, o professor se torna ainda mais valioso, pois caberá a ele a tarefa de definir as estratégias, função muito mais humana.

O potencial criativo do professor poderá ser mais bem explorado e ficará para a tecnologia, para a inteligência artificial e seus recursos de machine learning, cuidar da parte repetitiva, de tudo o que pode ser automatizado. A consequência positiva dessa parceria é o ganho em escala – importante para sustentabilidade das IES pós-pandemia – sem perder a personalização do ensino.

Provavelmente, esses serão os maiores legados da pandemia da Covid-19. Para que essas tendências se concretizem, para que as IES incorporem o espírito empreendedor, o setor de ensino superior privado precisa de mais liberdade por parte do MEC. Ter as condições necessárias para conquistar a autoconfiança para inovar, arriscar mais, mudar a mentalidade como empreendedoras educacionais. A experiência da pandemia certamente vai trazer luz a muitos mantenedores, permitindo que essa liberdade seja conquistada, mas com responsabilidade e cuidado com o que é mais importante: a qualidade do ensino superior no Brasil.

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